ORNITORRINCO

A MIAMI DE BANGU – SÍMBOLOS CARIOCAS

A Vila Kennedy, em Bangu, no Rio de Janeiro, completou 50 anos dia 20 de Janeiro deste 2014. Inaugurada às pressas pelo então governador Carlos Lacerda, sem água, luz ou transporte para o pessoal que foi mandado para lá. Como a Dona Rita Costa Gomes, de 91 anos, moradora mais antiga da comunidade que chegou para viver numa casa acanhada com os seus três filhos.

Assisti hoje no programa Brasil Urgente, da Record, uma matéria sobre a nova UPP da Vila Kennedy. Imagens do Bope entrando na comunidade, sons de tiros, bandeira do Brasil e do Estado do Rio sendo hasteadas, toda a mise-en-scene de sempre. A notícia dizia que a polícia não disparou nenhum tiro (!) e que tudo se deu em vinte minutos (!!) em “uma tomada perfeita de um território dominado pelo tráfico” bradava o âncora do programa.

Festival de Curtas Metragens da Vila Kennedy.
As Unidades de Polícia Pacificadora substituíram a política do confronto implementada nos primeiros anos do governo de Sergio Cabral. A ideia é antiga, vem da época que o secretário nacional de segurança era o antropólogo Luiz Eduardo Soares. O projeto era bem mais amplo do que o que vem sendo realizado no Rio de Janeiro. Originalmente previa uma profunda mudança na organização da polícia, com a desmilitarização da PM, por exemplo, (projeto que tramita hoje na câmara como PEC51), investimentos sociais pesados e empoderamento da população local. Na prática o que acontece hoje é o domínio da polícia sobre uma área e o fim, ou tentativa de impor um fim, ao tráfico armado. 

Mais um lugar construído e largado pelo Estado, 
que agora o reocupa mantendo a polícia como única 
interface de contato entre governo e população. Quantos 
novos bairros assim não estão sendo construídos agora?
Não quero ficar aqui falando das UPPs, mas sim de um série de símbolos que me despertaram para um olhar que passava bem longe do tom sensacionalista da matéria da TV. O primeiro que saltou da tela para a minha sala foi o container super tecnológico do BOPE, com câmeras de alta resolução que monitoram tudo num raio de até um quilômetro. O centro móvel de operações é todo preto e tem a tradicional faca na caveira pintada de modo estilizado em sua lataria. No Vaticano, na nave central da capela de São Pedro, um esqueleto segura uma ampulheta. Um recado bem direto como num grito de torcida: Ô SER HUMANO PODE ESPERAR / A SUA HORA VAI CHEGAR. A hora da caveira do Bope já passou, já meteram a faca e quem vivia dentro daquele crânio está morto.

Não entendo como o símbolo de uma tropa de elite de uma polícia que entra para ajudar a “pacificar” um bairro da cidade possa ser algo tão mórbido, macabro e violento, no mesmo estilo do veículo blindado que passa pelas favelas gritando no autofalante: “O caverão vai levar a sua alma”. O Bope ocupa a comunidade de dentro do container, olhando tudo de longe, com seu símbolo que só causa repulsa. Na matéria, o jornalista assediava moradores que passavam assustados, perguntando se agora a paz e a segurança reinariam. Todos viraram a cara, sem conseguir dizer muita coisa. Não sei se o medo era do tráfico, da polícia, ou da ação ostensiva do repórter enfiando o microfone na fuça de geral.

A forma de ocupar o espaço e se relacionar com a comunidade local é sempre essa. Vende-se uma imagem de segurança baseada na vigilância e na coerção. Mas pacificação não é paz. A faca na caveira representa isso. A morte espreitando a cada esquina. Ande na linha! Existem iniciativas nas quais os policiais se tornam professores e participam de alguns projetos sociais para construir uma proximidade entre as crianças da comunidade e a PM. Mas é tudo incipiente e já ouvi relatos de quem já organizava projetos sociais dentro das comunidades pacificadas, de que é melhor separar as duas coisas, pois sempre que os policiais se metem dá confusão. Até o âncora do Brasil Urgente pontificou: “Parabenizo as UPPs, mas sem o social não iremos a lugar nenhum”.

Na matéria, o jornalista assediava moradores perguntando
 se agora a paz e a segurança reinariam. Todos viraram a 
cara. Não sei se o medo era do tráfico, da polícia, ou do 
repórter enfiando o microfone na fuça de geral. 

E o que é esse social? Políticas públicas de serviços básicos como saúde, educação, urbanismo? Sim, mas o tal social está intimamente ligado ao simbólico, à maneira de se ocupar fisicamente um espaço. A ocupação policial militar entra como um exército que invade um território inimigo: conquistando e dominando. A PM não cobra serviços (gás ou TV a cabo) como faz a milícia quando expulsa o tráfico, mas não é capaz de criar uma relação amistosa com a comunidade. O tráfico armado diminui brutalmente, mas os número de desaparecidos aumenta. A profunda ligação da corporação com o pensamento militarista impõe uma hierarquização e uma organização que em nada se assemelham ao panorama das favelas cariocas. Nesses espaços o público e o privado estão em constante contágio, o território nada cartesiano, seus caminhos labirínticos, as relações sociais misturadas com as relações familiares e de trabalho, a cultura local, a PM passa à anos luz de distância de tudo isso. Quantos PMs você imagina numa batalha do passinho, onde os moleques são sinistros?! O mais paradoxal é que muitos desses policiais vêm de lugares muito parecidos da Vila Kennedy, mas a necessidade da submissão ao protocolo militar faz com que eles vivam um eterno conflito de identificação e distanciamento do que vivem quando fardados. Talvez não seja mesmo função da polícia lidar com isso, mas ela continua sendo o único braço do Estado nas áreas mais carentes da cidade.

Outra coisa que me levou a uma viagem simbólica foi o nome Vila Kennedy. A homenagem ao presidente Americano se deu por conta de sua morte em 1963, meses antes da inauguração dos primeiros conjuntos habitacionais da vila. Lee Harvey Oswald matou Kennedy. Dois tiros cirúrgicos, um no pescoço e outro fatal na cabeça. Foi você mesmo Oswald?! Não! Oswald o teria devorado! Lee Harvey ex-marine. Até tu Brutus?! É presidente, quem deu o tiro foi um dos teus… Naquele dia D of the Big D, Dallas city. Don´t you mess with Texas, Mr. President. Sempre que vejo um beijo em preto e branco ou escuto ao longe o Sam tocando de novo em Casa Blanca, lembro de Dona Jacqueline ajoelhada no carro, já funerário, atrás do cérebro espatifado do marido. Amar é ter nas mãos essa massa cinzenta que pensava a América. Kennedy assassinado por um militar e a vila que leva o seu nome ocupada agora por militares.

Sempre que vejo um beijo em preto e branco ou escuto 
ao longe o Sam tocando de novo em Casa Blanca, lembro 
de Dona Jacqueline ajoelhada no carro, já funerário, 
atrás do cérebro espatifado do marido.
O dinheiro para a construção da Vila veio do programa Alliance for Progress, uma inciativa do governo Kennedy para fomentar o crescimento da América Latina. A Vila Kennedy foi construída para os moradores das extintas favela do Esqueleto, no Maracanã (onde hoje é a UERJ), Morro do Pasmado, Praia do Pinto e de Ramos. Ou seja, mais um bairro distante criado a partir da gentrificação, da desapropriação de comunidades, muitas vezes de forma violenta como no incêndio criminoso que destruiu a Praia do Pinto, no Leblon. Um lugar feito para abrigar aqueles que foram removidos de suas casas para dar lugar a outras construções que o Estado julgava mais importantes. Um paralelo bem direto com as remoções que vêm acontecendo no Rio de Janeiro por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Mais um lugar construído e largado pelo Estado, que agora o reocupa com estratégia parecida a de décadas e décadas, mantendo a polícia como única interface de contato entre governo e população. Quantos novos bairros assim não estão sendo construídos agora?
Vila Kennedy em 1960.

Para aumentar o embaralhamento de símbolos, no final dos anos 1960, um embaixador Americano doou uma réplica da estátua da Liberdade, produzida com níquel, feita pelo criador da estátua original, o escultor Frédéric Auguste Bartholdi. Encravada na Praça Miami, no meio do bairro mais quente da cidade, a velha senhora, de roupa pesada, segura uma tocha numa mão e na outra uma tábua que, na versão Brasileira, tem gravada a data de 15 de novembro de 1889. Uma estátua da liberdade anã, acanhada em meio ao caos do Hell de Janeiro, essa mistura de inferno com nirvana. Versão antropofágica que destoa e se camufla atrás das grades que agora a cercam. Você não trocaria a tocha da coitada por um ventilador de mão? Pobre Liberdade já toda rachada, ameaçava cair, até ser retirada e levada para restauro no final do ano passado. A Miami de Bangu está sem sua estátua, mas como restaurar a liberdade cercando-a de grades por todos os lados? 
Estátua da Liberdade da Vila Kennedy, na Praça Miami.
Faca na caveira, um presidente assassinado por um militar, uma vila com seu nome a milhas e milhas de distância – ocupada também por militares – a Estátua da Liberdade na praça Miami gritando: ME AME, ME AME! Embora amor seja a única coisa que não falta na Vila Kennedy. Todos esses são símbolos que falam muito sobre como funcionam as políticas públicas na nossa cidade, mas muito pouco sobre um bairro não-oficial que resiste sozinho, social e culturalmente, há 50 anos às margens de uma avenida chamada Brasil.
Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 17/03/2014 por em Domingos Guimaraens.
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