ORNITORRINCO

O BLOCO ACABOU MAS NÃO SAIU DE MIM

Me deparo com resquícios do carnaval por onde passo. Purpurina no chão do banheiro, uma pluma roxa solitária no canto da sala, a marchinha que não sai da cabeça, o grito “não vai ter Copa” enquanto lavo a louça e o coração apertado que é, já era, já foi, agora só para o ano que vem.

Tem quem diga que se a vida fosse um carnaval duraria muito pouco. Mas ao ver como o meu corpo pede mais, anseia por mais felicidade desmedida, corpos soltos e corações abertos, não vejo qual seria o problema de morrer no cume desse ápice. Bem no meio da muvuca, entre suor, chuva e cerveja, se permitindo ser você-multidão-amor.

O ano começa assim, já na ânsia do fim. Na procura do próximo momento onde todo mundo vai largar os corpos em casa e sair só com seus espíritos purpurinados abertos a qualquer coisa porque no carnaval vale tudo. No carnaval você se fantasia para finalmente ser você mesmo, todas as suas vontades e desejos à flor da pele. Mas está claro que carnaval só tem um e é só uma vez no ano. Quem combinou isto? E por que seguimos aceitando este contrato de liberdade total durante apenas 5 dias?

Com o começo do ano, a fluidez dos sorrisos é guardada nas gavetas, as casas são limpas, as fantasias são escondidas no fundo do armário e a coragem de encarar as tristezas e dores do dia-a-dia é resgatada do canto de onde foi largada no começo da semana. Os corpos se tornam rígidos de novo, nos escondemos agora por detrás de uma máscara de preceitos e condutas sociais tornando privado aquilo que tornamos tão público. E assim seguimos, vivendo, limpos de tudo o que suamos ao som de surdos e trompetes em uma semana de catarse e êxtase.

Até o próximo as memórias hão de perdurar. Há de haver histórias, flashbacks e músicas que vão roubar sorrisos momentâneos da explosão de cores e de corpos que vivenciamos juntos. E tem também os amores, paixões e paixonetas frutos desse carnaval que se procuram e se encontram ou se deixam para apenas alimentar de histórias a grama do aterro.

Carnaval é cometa. É repentino e deixa marcas. Mas é necessário? Será que não somos capazes de nos permitirmos o coração leve assim nos outros 360 dias do ano? Como seria uma sociedade carnavalesca? Impossível e caótica ou feliz demais-da-conta? Mas se há uma certeza neste país inflacionado é que, enquanto índio quiser apito, vai ter carnaval fevereiro ou março, por isso podemos seguir descansados – se não foi desta vez que você virou pedra do chão da Lapa, terá sempre o próximo. De resto, nada importa.

Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.

* Imagem de capa: Erica Catarina

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Publicado em 13/03/2014 por em Sahara Boreas.
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