ORNITORRINCO

LUXO NA VITÓRIA NA GREVE DO LIXO

O prefeito Eduardo Paes declarou esses dias que a Comlurb “é um modelo para o Brasil”. Pela primeira vez concordei com o prefeito. A greve organizada pelos garis foi mesmo exemplar, um modelo a ser seguido. A vitória na queda de braço com o executivo municipal mostrou a força de um movimento cirúrgico, político, com amplo apoio da população. É evidente que a greve foi política. E qual greve não é? O prefeito também tem muitas relações políticas, com seu partido, coligações e outros apoiadores pouco confiáveis. Já os garis apoiavam-se na política da dignidade. Quanto ganha um assessor de vereador? Cada gabinete tem vinte cargos comissionados e só de selo para envio de correspondência são gastos R$4.400,00! Se pagamos até as cartas dos vereadores é muito justo que os garis recebam um salário digno.

A vitória da greve dos garis é histórica e contou com o apoio popular porque o pessoal que veste laranja conta com a simpatia total do carioca. Isso acontece não só pela ginga, pelo sorriso ou pelo trabalho sempre bem feito na maior disposição, mas também por ser um serviço público que não pede aquele dinheirinho extra a ninguém. Um gari não chega à sua casa dizendo: “Veja bem, pra recolher o lixo aqui é importante aquele por fora. A caixinha da cerveja”. O mesmo eu não posso dizer da polícia, da companhia de luz ou de gás. A organização e a potência dessa greve vitoriosa refletem essa consistência ética da classe.

Continuamos vivendo uma lógica escravocrata, mesmo 
não sendo donos de escravos. Uma lógica naturalizada 
pelo Estado ao pagar uma miséria para que os mais pobres 
recolham a nossa merda. Jogamos a sacola plástica pela ga-
vetinha do duto do edifício e um abraço, não é mais com a gente.

A prefeitura, por seu lado, mostrou mais uma vez sua tática de negociação truculenta, que usa da coerção e do medo. Mensagens de ameaça de demissão, escolta armada para “proteger” os garis que trabalharam durante a greve, a insistência de que o movimento era orquestrado e apenas uma pequena parcela dos garis havia aderido, são os reflexos da inconsistência ética do atual governo municipal.

O lixo se acumulou nas ruas durante o Carnaval. (foto: Marcelo Fonseca)

A greve do lixo desse início de 2014 expõe muita coisa. O carnaval fervia nas ruas, a ocupação poética das avenidas, praças e travessas do coração comercial da cidade são, sempre, um gesto político num grito de prazer revolucionário. Mas o lixo que ia se acumulando, o chorume que escorria e os gases que subiam eram o grito de uma cidade agonizante. Impossível não perceber o quão invertido estão nossos valores. Na greve dos professores do ano passado vimos como o Estado pensa, trata e investe em educação. Mas a educação é um bem abstrato, está nas mentes e nos corpos de uma maneira intensa, mas que não é exatamente palpável. O lixo? Esse é pura matéria em decomposição. O lixo se acumula, fede, agride, machuca o “nosso status ipanêmico, lebloniano, sanconrádico, barramárico…” como disse Drummond. O lixo nos une numa mesma camada de excrescência.

“Veja você, meu caro irrefletido:
a Rua Cata-Piolho, em Deus-me-livre,
equiparada à Atlântica Avenida
(ou esta àquela)
por idêntico cheiro e as mesmas moscas
sartrianamente varejando”[1]

Submergidos no nosso próprio lixo a fratura ficou exposta: não sabemos nos relacionar com o que descartamos. Continuamos vivendo uma lógica escravocrata, mesmo não sendo donos de escravos. Uma lógica naturalizada pelo Estado ao pagar uma miséria para que os mais pobres recolham a nossa merda. Jogamos a sacola plástica pela gavetinha do duto do edifício e um abraço, não é mais com a gente. Lembrando que jogar fora é uma opção que não existe num planeta que não tem fora.

Existem muitas maneiras de lidar com nossos dejetos. Em Tóquio não há lata de lixo nas ruas. O lixo que você produz fora de casa é responsabilidade sua, ele deve ser descartado e separado em casa, para ser recolhido numa coleta seletiva organizada. Os japoneses aprendem isso desde a escola. Olha educação e lixo se encontrando mais uma vez. É claro que não é possível comparar Brasil e Japão, culturas tão física e subjetivamente distantes, mas é importante olharmos para outras formas de lidar com essa situação. As ecovilas são modelos de assentamento humano que pensam essa questão do lixo com muito cuidado. Tenho contato com uma delas, Terra UNA, na serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Lá todo o lixo orgânico é compostado e vira adubo para hortas e pomares. Cocô e xixi são coletados por biodigestores de fácil construção (desenvolvidos pela Embrapa) e se transformam em adubo para uso no reflorestamento. Dependendo da quantidade de dejetos produzidos até o gás pode ser reaproveitado para produzir energia. Os recicláveis são separados e levados para a cidade, mas muitos são aproveitados por lá mesmo, como as garrafas de vidro que se transformam claraboias nas construções.

Lixo Luxo, do Augusto de Campos (clique para ampliar)

O lixo, essa matéria tão presente em nossas vidas, que jogamos fora sem pensar sobre, virou a pauta do dia nas últimas semanas. Por mais que haja um descarte racional desse excesso produzido sempre haverá de existir alguém para lidar com isso, mas é essencial que esse alguém seja treinado e bem remunerado para exercer tarefa tão básica e fundamental ao bem comum. A greve do lixo foi o luxo máximo desde as manifestações que tomaram as ruas em 2013. Uma vitória que expôs uma série de questões políticas, sociais, ecológicas e culturais.

Lembrei que em 31/12/2009, depois de uma matéria do jornal da Band que terminava com dois lixeiros desejando feliz ano novo, um áudio do âncora Boris Casoy vazou com ele dizendo: “Que merda dois lixeiros desejando felicidade, do alto de suas vassouras. O mais baixo da escala de trabalho”. Essa mobilização dos garis, essa vitória dos garis, foi a resposta mais elegante aos comentários reacionários do Boris. Salvem os garis cariocas! Orgulho do Rio! Que esse ano continue nesse laranja combativo.

[1] ANDRADE, Carlos Drummond de. Conversa com lixeiro In:___ Amar se aprende amando. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001, p.645.

Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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*Imagem de capa: Mídia Ninja

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Informação

Publicado em 10/03/2014 por em Domingos Guimaraens.
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