ORNITORRINCO

NÃO EXISTE BRISA EM SP

Não passa uma brisa. Está um calor dos infernos, e BB King toca “Live in Africa” no escuro da sala. Descobri o prazer de viver no escuro quando faz muito calor e de viver de janelas escancaradas para a vida dos outros. A vizinha da frente já me conhece os peitos de cor. Sempre que volto do banho, lá está ela, a fumar o seu cigarro ou de olhos cabisbaixos para a rua, aqueles olhos de quem vê as mesmas cenas todos os dias.

São Paulo é sem dúvida uma cidade peculiar, cidades pequenas dentro de uma cidade grande, ou uma cidade grande rodeada de cidades pequenas. Tudo espremido dentro de um só espaço pulsante ocupado por 20 milhões, a grande maioria que suspeito serem nordestinos. São Paulo é sem dúvida concrete jungle, mas até agora tenho vivenciado a cidade de maneira muito diferente do que se espera da mesma, nada daquele apartamento no 10º andar ou do visual do mar cinzento de prédios. Acredito que a diferença entre onde moro aqui em São Paulo e Lavras em Minas Gerais é mínima.

Sensação de vila, lojas dentro das garagens, botecos sujos mas limpos, as pessoas sentadas nas ruas, lembra muito pequenas cidades do interior. Se bem que aqui em Santa Cecilia os mendigos e usuários de crack se aninham todos no maior amor contra uma parede a ver as horas passar, exceto aos domingos. Sábado é noite de festa embaixo do minhocão, e no domingo, dia de feira, eles se encontram espalhados pelo bairro, ressacados, dormindo até bem depois do meio dia. Inclusive dormem bem, vários têm colchões bem melhores que o meu.

A boca aqui do bairro é bem à porta de minha casa, fato que descobri só à poucas semanas. Até então achava que era só uns molequinhos gente-boa-toda-vida que ficavam sentados na minha porta fumando maconha. Sei sempre quando chegam porque a casa fica com um cheiro forte a posto 9. De casa até ao meu trabalho (três estações de metrô apenas) parece uma cidade completamente diferente — de Lavras-like para Manhattan-wannabe — São Paulo é uma cidade de contradições.

São Paulo é uma cidade de contradições e personagens. 
Tudo nela é cinema, cada esquina, cada encontro, cada 
prédio velho. O homem que vende mapa-múndi na rua 
e que secretamente lê Rousseau, o homem que se diz ser 
o ódio para quem o quiser ouvir na porta do metrô. Já até 
vi um homem afiar uma faca no passeio em plena Avenida 
Faria Lima, como se fosse a coisa mais natural do mundo

Contradições e personagens, tudo nela é cinema, cada esquina, cada encontro, cada prédio velho. Deparo-me com as mais diversas personagens todos os dias; o casal judeu que namora à um metro de distância, o homem que vende mapa-múndi na rua e que secretamente lê Rousseau, o homem que se diz ser o ódio para quem o quiser ouvir na porta do metrô. Já até vi um homem afiar uma faca no passeio em plena Avenida Faria Lima, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O meu preferido é o Pool-man, que aparece em dias de muito calor com vinte piscinas de plástico de variadíssimas cores e tamanhos penduradas na cabeça e nos braços tentando enfim conquistar algum simpatizante.

Também apanho as conversas mais estranhas no metrô. Hoje, alguém que não consegui ver a cara, se apresentou ao telefone com um “Olá Doce, daqui Clark”. Ultimamente começo a achar também que Deus me anda a mandar mensagens através das camisas dos transeuntes. Aqui em SP deve ser moda andar com camisas com escritos, em dias de muito calor já recebi um “endless summer”, um dia Ele mandou-me um “nobody remembers the good girl” que abalou as minhas entranhas, e quando estou naqueles dias em que penso demasiado ele já mandou (mais do que uma vez) “la vie est par etrê vivre”. Às vezes Ele manda umas mensagens com erros ortográficos, que eu aceito todavia. Vai ver que é de ter tanta gente reunida nesta cidade que Ele se manifesta com mais frequência mas menos atenção.

A vida não é fácil, principalmente em noites como esta que não passa uma brisa, e não há nem praia nem piscina para afogar os pés — mas é divertida, e amigos não faltam, e quem sabe um dia não faço uma simpatia ao Pool-man para acabar logo com esse calor.

Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
* Imagem no topo: Mary Jane

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Publicado em 07/03/2014 por em Sahara Boreas.
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