ORNITORRINCO

O OSCAR, DESTINO E PARTIDA

Fui criado num regime de cultura americana. Muita, muita televisão e idas semanais à locadora – na época em que se alugava fitas de vídeo – para assistir especialmente aos (não necessariamente) novos do Van Damme, Schwarzenegger e Stallone assim como outras fitas de ação e aventura. Aos poucos, amadureci meu olhar para o cinema, abrindo percepções, aumentando compreensões, descobrindo novos caminhos, mas sempre foi difícil me desenraizar e desapegar do gosto que me foi cultivado na veia enquanto crescia.

Com o Oscar acontece algo parecido. Quando moleque, eu penava pra ficar acordado, mas queria saber tudo sobre o evento. Nesse tempo em que era muito novo e não aguentava ficar acordado, meu pai me contava o que tinha acontecido ou eu botava pra gravar e assistia depois. Sempre ouvi que o Oscar era o máximo e a maior festa do cinema. Agora, mais velho, enxergo melhor do que se trata, mas ainda assim não consigo deixar de me alterar e acompanhar a noite completa de premiação. Hoje em dia, minha mulher vai dormir enquanto eu varo a madrugada e conto pra ela no dia seguinte o que aconteceu.

O jogo do Oscar é mais complexo do que parece. Não se 
trata de premiar os melhores filmes do ano. Trata-se de 
premiar os melhores filmes americanos que se candidatam 
a serem votados os melhores filmes americanos do ano.

Morando nos Estados Unidos, fica mais clara a visão de como os americanos fazem de tudo um negócio e de como arranjam as peças no tabuleiro para fazer mais dinheiro. Por exemplo, eles tem pelo menos quatro grandes esportes coletivos com público fanático: futebol americano, basquete, beisebol e hóquei. Mas as temporadas e finais não se atropelam, tem espaço pra todo mundo. Alguns desses esportes são indoor, outros outdoor, e com o ano preenchido de eventos – inclusive e especialmente nos feriados – é dinheiro circulando o ano inteiro e público entretido o ano inteiro.

Na minha modesta visão da estrutura do cinema por aqui, me parece que os americanos separam os lançamentos em duas temporadas. A de verão – maio, junho e julho – onde se concentram os maiores lançamentos do ano, aqueles com maior investimento e que ambicionam o maior retorno financeiro; e a de premiação – outubro, novembro e dezembro – onde são lançados os filmes que visam, no fim das contas, o Oscar, e que também ambicionam um rótulo mais ‘sério’ e uma turbinada nos lucros com as indicações e láureas recebidas. Antecedendo o trimestre de pico de cada temporada chegam filmes que vem para aquecer a estação, como que preparando o terreno.

Mesmo antes de morar nos EUA, já tinha percebido que o jogo do Oscar é mais complexo do que parece. Não se trata de premiar os melhores filmes do ano. Trata-se de premiar os melhores filmes americanos que se candidatam a serem votados os melhores filmes americanos do ano. E aqui vale ressaltar que quando digo americano, em algumas exceções isso pode significar um filme estrangeiro distribuído, propagandeado… quero dizer mesmo é vendido com o dinheiro de produtores de Hollywood – por exemplo, o francês ‘O artista’.

Se você quer ser candidato, não adianta lançar seu filme em abril, ou até mesmo na temporada de verão. Pelas regras do jogo você até poderia ser votado, mas quem vai lembrar de um filme lançado lá no começo do ano, ou considerar como um candidato sério a nova aventura dos heróis da Marvel – a menos que estejamos falando das chamadas categorias técnicas?

Momento pizza no OSCAR 2014.

E é claro, se é votação, tem campanha e lobby. Você sinceramente acha que todos os eleitores assistem a todos os filmes indicados antes de votar? Os grandes estúdios gastam milhões em publicidade para seduzir eleitores e até mesmo para fazê-los assistir aos filmes, através de DVDs e sessões fechadas. Ou você acha que toda essa gente vai ao cinema como qualquer ser humano do mundo real? Não à toa, o Oscar, apesar de não entregar surpresas há algum tempo – e enfrentar uma decadência em sua audiência – é notório por injustiças. Nomes como Kubrick, Hitchcock, Chaplin, Godard, Kurosawa, Fellini e Bergman nunca ganharam na categoria Direção. E pra resumir numa frase: Jonah Hill foi indicado mais vezes do que Gary Oldman.

Também são famosas as supostas predileções do prêmio, clichês que podem te transformar num potencial vencedor. Transformações físicas, por exemplo, se bem vendidas por seus produtores, são indicação certa (sem diminuir os méritos dos citados a seguir).

Mulheres se enfeiam: Hilary Swank – lembram dela? – venceu duas vezes, por ‘Meninos Não Choram’ e ‘Menina de Ouro’; Charlize Theron venceu por ‘Monster’, Nicole Kidman por ‘As Horas’, Halle Berry por ‘A Última Ceia’, Julia Roberts está indicada este ano por ‘Álbum de Família’. Todas debaixo de uma maquiagem pesada ou retratadas sem maquiagem ou o apelo sexual que lhes são característicos.

Homens também passam por suas transformações físicas. Matthew McConaughey e Jared Leto venceram neste ano por ‘Clube de Compra de Dallas’, Christian Bale já levou como coadjuvante em ‘O Vencedor’, sem contar Robert De Niro por ‘Touro Indomável’ e por aí vai.

E ainda, os filmes de Segunda Guerra Mundial – um dos principais gêneros ‘de Oscar’ – sempre ganham seu espaço (apesar de, curiosamente, neste ano, terem ficado de fora da festa).

Há uma piada em um dos episódios da série britânica ‘Extras’ em que Kate Winslet diz que está fazendo um filme sobre o Holocausto para ganhar um Oscar. No mundo real, em sua sexta indicação, Winslet finalmente venceu, por sua atuação em ‘O Leitor’, um filme sobre… o Holocausto.

Selfie tirada durante a cerimônia do OSCAR. Bateu os recordes de compartilhamento no Twitter.
Pessoalmente, no entanto, considero o fato mais grave e como maior desserviço do prêmio a transformação de obras de arte em cavalos de corrida. E o que deveria ser uma celebração ganha ares de competição pra ver quem é ‘melhor’, diferente do que acontece, por exemplo, nos grandes festivais de cinema, onde ainda que haja mostras competitivas conserva-se também um caráter multicultural e uma análise mais pontual, livre e definida – feita por um júri selecionado anualmente – do papel e importância de cada premiado escolhido.

Obcecados pela divisão do mundo entre ‘perdedores’ e ‘vencedores’, os americanos impõem uma competição para celebrar um ‘campeão’ em toda e qualquer área. Esta é uma questão até mesmo levantada por muitos vencedores ao longo dos anos. Cate Blanchett, na cerimônia deste ano, agradeceu o prêmio de melhor Atriz, ‘por mais subjetivo e aleatório que ele seja’. Dustin Hoffman, num fenomenal discurso em 1980, eleito melhor Ator por ‘Kramer vs Kramer’, disse que se recusava a acreditar que teria ‘vencido’ Jack Lemmon, ou que ‘vencido’ Al Pacino, ou que haja ‘perdedores’.

O ponto é, como George Clooney citou há oito anos, depois de receber o prêmio como melhor Coadjuvante por ‘Syriana’:

– Como se compara arte?

A ideia de que se pode eleger oficialmente este ou aquele ator ou este ou aquele diretor ou este ou aquele filme como melhor do que outro, de proposta, concepção e realização completamente distintas, beira o ridículo. Não há competição até que se promova e estabeleça uma competição. Ou, como diz Woody Allen – vencedor de 4 Oscars e que só compareceu à cerimônia em 2002 e ainda assim apenas para homenagear Nova York depois do 11 de setembro:

– Todo o conceito dos prêmios é estúpido. Não posso me conformar com o julgamento das outras pessoas, porque se você aceita quando eles dizem que você merece um prêmio, então você tem que aceitar quando eles dizem que você não merece um prêmio.

José Wilker uma vez disse que o ‘Oscar é uma festa do cinema americano para o cinema americano’. Para eles, o que importa é o que é feito nos EUA, o resto é menor em relevância porque o cinema americano é o mais endinheirado do mundo. Por isso, dizer que o Oscar é a maior festa do cinema mundial pode até ser uma verdade, mas e daí? É festa que importa? Vestidos, marcas, estrelas, vaidade, autoindulgência, luxo, dinheiro, business? Abraçar esse furor não seria também endossar que o importante no cinema é o que os americanos estabelecem ser importante? Que o cinema americano é o melhor e que o modelo deles é o ‘normal’ enquanto os outros filmes são ‘diferentes’?

Trata-se de uma luta difícil de lutar. A atração do cinema americano é açúcar no sangue, fast e junk food. Impregna. Você sabe que faz mal pra você, mas come mesmo assim. E se livrar é duro. Digo por mim mesmo. Cá estou falando sobre o Oscar com você, leitor, e questionando todos esses valores, tendo acabado de passar três horas assistindo a cerimônia deste ano.

E ainda confesso desavergonhadamente que, como ator que foi um moleque crescido à base de dieta cultural americana goela abaixo, sustento um pedaço de um sonho maluco e distante de, um dia, quem sabe, estar por lá, ser um dos indicados, ter meu nome lido por Dustin Hoffman. E ganhar. (Pausa para você rir de mim).

E então, vai saber, talvez eu possa me inspirar em Woody Allen e ter o gigantismo moral de esnobar o careca dourado. Difícil, né? De acontecer e mais ainda de eu ter peito de não ir. Mas sonhar nunca matou ninguém.

Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.

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Informação

Publicado em 03/03/2014 por em Lucas Gutierrez.
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