ORNITORRINCO

TRAGA-ME A SUA CABEÇA

Tive a alegria de assistir pela segunda vez a peça Uma Noite na Lua, em que Gregório Duvivier é um homem no palco pensando. Pensando alto. Pensando na peça que ele quer escrever e acima de tudo, pensando em Berenice, pensando no que a Berenice vai pensar da peça e porque ele não consegue escrever uma peça, porque só pensa em Berenice. E se ele pensa em escrever uma peça e só pensa na Berenice, porque não usar isso a favor do processo criativo?

Devemos tornar a realidade ficção ou transformar a ficção em realidade? Ficou confuso? Sim, a vida é confusa, depois que você me deixou ficou pior, é difícil entender porque você se foi, eu tentava não achar confuso, mas não adiantava muito, estávamos sempre bagunçados. 
Devemos tornar a realidade ficção ou transformar a 
ficção em realidade? Dizem que não há necessidade 
de criar o que já existe no mundo real.
Dizem que não há necessidade de criar o que já existe no mundo real. Até hoje não descobri se sou mais idealista ou realista, acho que todo mundo é um pouco de tudo e considero meus sonhos bem reais às vezes, talvez eu viva neles e eles sejam a minha realidade, ainda não tenho certeza. Eu não tenho certezas em relação aos textos (auto) biográficos. Tem aqueles que dizem que as biografias são inventadas, que são todos personagens de si mesmos. Tenho vários personagens preferidos de filmes, livros e músicas que eu queria ser. Tem pessoas reais que eu gostaria de ter criado em algum romance. Queria conhecer algumas cabeças. É interessante imaginar as cabeças para inventar personagens, mas todas as cabeças acabam parecendo com a minha. É quando tenho a sensação de que estou repetindo os mesmos textos de um jeito um pouco diferente. Talvez eu esteja muito dentro da minha cabeça ou você esteja muito dentro dela, vamos confessar, você sempre está nos meus contos e na minha cabeça. Talvez imagine a sua cabeça ou queira a sua cabeça. Essa coisa de cabeça parece uma síndrome de Salomé, aquela que pediu a cabeça de João Batista em uma bandeja. Coisa antiga isso. 
Voltando ao processo criativo, as idéias inovadoras, os temas nunca debatidos, o modo de reinventar as estruturas, as opiniões, as novas cores em que o mundo é pintado, tudo isso não existe. É utopia. Ninguém cria nada, todo mundo expõe sentimentos, amores deixados, amores futuros, tristezas, mágoas, sonhos, desejos, angústias, medos… E não é clichê, não é chato, não é melodramático ou sei lá que critica que fazem. É humano. Ainda vamos debater as mesmas tragédias shakespearianas, o modo de representar histórias e o flash-back de Homero, o poder dramático e a subjetividade de Petrônio, a vertigem dos acontecimentos e a rapidez para mudar de assunto de Dante, a fábula como entretenimento de Boccaccio e o prazer do sofrimento alheio de Goethe. Porque a cabeça nunca será lógica, ela é um coração em um lugar estranho que pulsa e pula pra lá e pra cá, entre o meu eu e o seu. 
Eu sou um paradoxo que realiza ficção inventada e vivida. Não sei onde comecei e você acabou. Penso que você nunca termina e eu te escrevo, enquanto espero a sua cabeça dizer que estou nela.

Aline Vaz é professora e escritora.
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Publicado em 21/02/2014 por em Aline Vaz.
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