ORNITORRINCO

A VEJA NÃO ENXERGA MUITO BEM

No dia 16/02/2014, em sua coluna no jornal O Globo, Caetano Veloso escreveu um texto que gerou muita repercursão pois atacava o próprio jornal, questionando suas intenções e estratégias na cobertura das manifestações e especialmente no desdobrar do infeliz acidente que matou o cinegrafista Santiago Andrade. Caetano, como sempre, não deixou de ser polêmico no conceito e no conteúdo de suas reflexões, desde o fato de atacar o veículo em que escreve até assumir firmamente sua posição contrária ao seu empregador.

No dia 18/02/2014 a Folha publicou uma entrevista com o poeta e humorista Gregorio Duvivier, em um dos trechos do papo, Gregorio diz que fazer humor é um ato político, que não temos como escapar, não conseguimos fugir da política. Compartilho da mesma visão, a política pode estar em diversos gestos, na piada que se conta até na blusa que se veste. Esse é também o meu comprometimento como artista e cidadão.

Queria muito que neste momento de acontecimentos impor-
tantes, os intelectuais pudessem discutir um futuro sem cair 
nos lugares comuns, sem ideias atrasadas, sem preconceitos.


Como editor do ORNITORRINCO, e fazendo jus aos propósitos deste projeto, de ser um espaço para o livre pensar, discussão e reflexão de ideias próprias, no sentido de pensar o momento atual e imaginar um futuro avante, resolvi aqui comentar os textos de outros dois colunistas. Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, ambos da revista Veja, resolveram atacar, respectivamente, o artigo do Caetano e a declaração do Gregorio.

A Veja gosta de deixar claro que não é a favor das manifestações que vêm acontecendo desde junho de 2013 e faz questão de atacar os protestos, quase sempre usando de estratégias duvidosas. Primeiro o colunista Reinaldo Azevedo postou no blog da revista uma crítica ao texto do Caetano. Começa assim:

“Caetano Veloso, o esteta dos black blocs, que se deixou fotografar fantasiado de bandido, resolveu, mais uma vez, fazer reflexões políticas. É aquele senhor que chegou a escrever certa feita que os “os black blocs fazem parte”. Infelizmente, não revelou o complemento nominal que tinha em mente para que soubéssemos, afinal de contas, parte de quê.”

Logo na introdução Reinaldo anuncia seu oponente, lhe atribuindo um predicado mentiroso e diminuindo seu caráter intelectual, tudo isso só na primeira frase. Depois, com a ironia escorrendo pelos dedos, se faz de mal entendido e lança uma piadinha com algo que o seu oponente disse. Pois logo no início fica claro que seu intuito é atacar o Caetano e não acrescentar novos argumentos ao debate. Primeiro, Caetano nunca disse ser especialista e defensor dos black blocs; segundo, chamá-los de bandidos é reduzí-los à uma só faceta, maniqueísta e míope; terceiro, Caetano tampou o rosto com a camisa preta na ocasião em que foi proibido o uso de máscaras em manifestações, se posicionando contra a proibição; e quarto, quando ele diz que “os black blocs fazem parte” é obviamente dizendo que são uma parte da contestação popular ocorrida em manifestações de todo o mundo, cujo objetivo é defender os manifestantes da violência policial e depredar símbolos capitalistas, tentando assim forçar uma abertura no escudo do Estado para escutar as reinvidicações da população.

O texto segue tentando desqualificar Caetano da sua reflexão chegando a chamá-lo de desonesto, “Eu achava que Caetano estava apenas decadente e que ninguém, à sua volta, por medo de perder o emprego, tinha coragem de dar um toque. Mas vejo que ele já morreu faz tempo.” No final o acusa de irresponsável por não ter dedicado nenhuma palavra à morte do cinegrafista Santiago Andrade, como se Caetano em algum momento tivesse dito que ia falar sobre isso e como se o Reinaldo tivesse em algum outro texto falado das outras mortes que ocorreram nas manifestações. Uma estratégia ardilosa, de baixa envergadura intelectual, um desrespeito com o morto e com a família. Estratégia, aliás, muito utilizada pela Veja nos momentos em que suas ideias são provocadas.

Vamos ao outro texto.

O colunista Rodrigo Constatino (que diz que não tem medo de polêmica) reprovou a opinião do Gregorio. Constatino parece achar que um artista não deve se pronunciar politicamente, que um trabalho artistico deve se importar apenas em “Falar de temas atemporais, do amor, das tragédias de sempre, da natureza humana relativamente imutável…”, palavras dele. O que eu acho é que o Constatino se perdeu em algum momento da História da Arte e não ouviu falar em Brecht, Zola, Lenny Bruce, ou mesmo um artista mais recente como Banksy, e milhares de outros, possivelmente todos.

Ele escreve:

“No seu caso [do Gregorio], como em 99% dos casos, isso significa defender o socialismo, os vândalos mascarados, Cuba, Venezuela, e atacar o ‘sistema’, a polícia, o capitalismo e o lucro. Fazer isso do Leblon é um pouco mais fácil, concordo.”

Como assim em 99% dos casos se posicionar politicamente significa defender o socialismo? E o que ser socialista tem a ver com defender os “vândalos mascarados”? Defendendo Cuba e atacando o “sistema” (ele usa as aspas), a polícia, o capitalismo e o lucro? Parece redação de escola em que um aluno faz construções dissertativas óbvias, como o lugar-comum do uso da oposição Vândalos-Polícia, Cuba-Capitalismo, Venezuela-Sistema; e do pré-conceito, quando ele chama Gregorio de hipócrita por morar no Leblon e defender a esquerda.

O constrangimento maior vem em seguida. Rodrigo tenta construir uma piada, que chega ser ridícula de tão boba. Ele cria uma cena e ainda sugere que seja gravada no Porta dos Fundos. A cena consiste em um casal, Gregorio e Clarice (ele não usa os seus nomes, mas usa as iniciais), “(…) em seu apartamento luxuoso do Leblon, o bairro com o metro quadrado mais caro do país. Ele é um comediante com cara de bobo, ela uma cantora um tanto sem graça e apagada.” O casal está se arrumando para ir à um evento de um deputado socialista (adivinha qual?), e é fácil entender, pela péssima habilidade dramatúrgica do Rodrigo – e igualmente péssimo senso de humor –, que a “graça” da sua piada é que os dois personagens, G e C, estão indo para um evento socialista mas na verdade são ricos e grã-finos que se fazem passar por esquerdistas revolucionários. Achou engraçado? O engraçado é só que Constatino acabou de criar uma cena de humor político, embora não seja a favor disso, mesmo que a graça tenha passado longe. Como colunista ele é uma piada.

Resumo da ópera. O objetivo desses jornalistas é diminuir seus oponentes ao ponto de solapar o debate para o nada. Detonar o enunciador antes do discurso ser totalmente compreendido e chegar a ser discutido. Ambos fazem uso de um baixo recurso de oposição. É uma tática muito velha, covarde e estúpida: se você não tem argumentos para discutir seriamente suas ideias então passe a ofender o seu oponente. É assim que fazem os adolescentes quando são criticados, xingam a mãe do outro porque ainda não têm capacidade intelectual para discutir os assuntos.

Meu propósito não é defender Caetano Veloso nem Gregorio Duvivier. Eles não precisam da minha defesa. Estou questionando o modelo de resposta e de argumentação, lamentando muito a incompetência de dois articulistas sérios. Queria muito que neste momento de acontecimentos importantes, os intelectuais pudessem discutir um futuro sem cair nos lugares comuns, sem ideias atrasadas, sem preconceitos. Espero um dia um debate com opiniões modernas e não com cada um defendendo o seu quintal. Acredito que estamos vivendo um movimento histórico e por isso é mais que necessário a discussão real de ideias que dão luz às possibilidades de transformações sociais pelo qual o país grita.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Publicado em 19/02/2014 por em Gabriel Pardal.
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