ORNITORRINCO

CAIO CASTRO, O TEATRO, A GLOBO E A PALAVRA

Numa entrevista concedida em setembro do ano passado para o programa da onipresente apresentadora Marília Gabriela, este no canal GNT, o “ator” Caio Castro declarou, entre outras coisas, que não gosta de ir ao teatro e que só lê por obrigação. Cinco meses depois, graças ao fato desta profícua conversa ter sido reexibida pelo canal fechado, as declarações tiveram uma gigantesca repercussão nas redes sociais só nesta semana. A novela em que ele tantas vezes apareceu sem camisas no corpo e sem livros na mão, até já acabou. A trama de Walcyr Carrasco chegou ao fim e eu não consegui sequer identificar qual era a especialidade do médico que Caio Castro interpretava.

Eis que esta celeuma só foi pipocar meses depois do ocorrido, com direito a declarações duras de seus pares. Figuras como Ingrid Guimarães, Pedro Paulo Rangel e Miguel Falabella já se manifestaram criticando a postura do rapaz. Mas porque criticar o coleguinha? Por que apedrejá-lo quando ele tem a coragem de confirmar o que todos já sabíamos? O que esperar de um cara que com 25 anos se torna um ator rico e famoso e, ao invés de pegar parte da grana que ganhou e investir num centro cultural ou numa biblioteca, inaugura em São Paulo um restaurante chamado “Bistrô Faria Lima” e uma casa noturna chamada “Villa Carioca”?

O fato é que não há nada de estarrecedor na informação de que a ele não interessam as leituras e muito menos as idas ao teatro. Caio Castro é um produto fabricado num concurso de talentos do programa de Luciano Huck. Ele não é cria de um grande diretor teatral como alguns bons atores que acabam migrando para a TV com o objetivo de ampliar as possibilidades da carreira e ter a oportunidade de garantir uma condição financeira digna e merecida. Só que fazem isso sem nunca dar as costas para o teatro e sem esquecer de onde vieram.

Só que Caio Castro veio do Caldeirão. Seu padrinho é o marido de Angélica. “Loucura, loucura!” Seu “currículo” no Wikipédia só faz referências aos prêmios conquistados e papéis que interpretou na TV. Por que então o espanto em ouvi-lo dizer que não curte ir ao teatro? Assim como ele, grande parte dessa nova geração de atores que vemos em telenovelas também não curte teatro. Nem de ir e nem de fazer. Acham que é uma coisa velha, antiga, complicada de ser feita, que não dá dinheiro e que ninguém assiste. Para que insistir nessa furada então? Por que abraçar o duro e doloroso desafio de encarnar Hamlet, Calígula ou Édipo no palco, quando se pode ser o galã da novela das oito ou príncipe encantado da festa de quinze anos da filha de um fazendeiro milionário qualquer?

Espetáculos teatrais são normalmente encenados no mesmo horário da novela. Talvez este seja um ponto negativo para ele, como é para muitos. Por que sair de casa e pagar R$ 20 para ver o Nanini no palco, se eu posso vê-lo de graça na “Grande Família” toda semana? Por que encenar um texto desconhecido numa sala de espetáculos que comporta 60 pessoas, se eu posso ser visto por milhões de pessoas? É preciso ter, de alguma forma, recompensado o esforço de passar horas por dia na academia para poder tirar a camisa e provocar suspiros no horário nobre televisivo. E devemos admitir: não é Stanislavski e nem Grotowski que fará isso por ele.

É triste, eu sei, mas Caio Castro não é um ator que tem uma trajetória sólida no teatro. Mesmo tendo nascido em São Paulo, o que deu a ele a chance de conhecer mais de perto o trabalho de diretores como Antunes Filho, no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), e Zé Celso Martinez Correia, no Teatro Oficina. É estranho pensar que alguém pode crescer, se tornar ator e não gostar de frequentar teatros numa cidade que respira cultura. Ser um ator paulista e não aproveitar a intensa programação de espetáculos incríveis, de grupos de todo o Brasil e de todas as partes do mundo, nos espaços culturais que formam a rede SESC-SP. Ser um ator paulista e não frequentar as noites e os teatros da Praça Roosevelt, no centro da cidade, ocupada por renomadas companhias como os Parlapatões e os Satyros, é (quase) um crime.

Porém, diante de tantos comentários, piadas e de tanta indignação em torno das declarações do rapaz, resolvi procurar a íntegra da entrevista no Google e no Youtube para matar minha curiosidade e ver de fato o teor das supostas asneiras que proferiu. Não encontrei. No site da Globo, para um internauta comum como eu, há apenas um trecho de dois minutos do referido papo com Gabi. Este pequeno vídeo, disponível para todos, destaca outra revelação, essa até mais surpreendente do que o que tem sido alardeado nos sites e portais de notícias: para alegria de Silas Malafaia e companhia, Caio Castro admite ser evangélico.

Coincidência ou não, com a sombra da Record colando em seu retrovisor, a Rede Globo tem empreendido desmedidos esforços para conquistar a confiança do público evangélico e aumentar sua audiência, inserindo personagens nas tramas das novelas, abordado assuntos de interesse desta parcela da população em programas como Globo Repórter e Profissão Repórter. Pois neste único trecho disponível no papo entre Caio e Gabi, ele declara: “Sou cristão desde pequeno, desde os meus 13 anos. Sou de igreja evangélica. Totalmente diferente de toda minha família, eu ia em acampamentos e conheci a palavra desde muito cedo”. Temos aqui algo incrível, o primeiro caso de alguém que conhece a palavra, mas não gosta de ler.

Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 18/02/2014 por em Gabriel Camões.
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