ORNITORRINCO

VAMOS FALAR DE MORTE?

Sou a favor da eutanásia e defendo sua legalidade. Não há alicerce sensível quando uma pessoa que não quer continuar vivendo, praticamente sempre porque considera sua situação como degradante e insuportável, se mantenha definhando pela impossibilidade de pôr um fim as seus tormentos e em prol duma obsessão alheia pela manutenção de sua vida.

Aliás, também não recrimino o suicídio e esta minha posição daqui deriva. Não teço juízos como o de covarde com relação ao ser que se lança para fora da vida. Ademais não avalio como responsáveis os próximos ao morto, ainda que acredite que o gesto denuncie muitas vezes um desprezo pela existência mantida em condições sórdidas e opressoras.

Nada aliás nesta defesa, vejam vocês, que esteja contra o espírito de nossos tempos e das ditas liberdades individuais. Liberdades que em tantas outras situações recebem o beneplácito para que o sujeito se converta em objeto por força das relações de subordinação às injunções do deus pós-tudo: o dinheiro.

Contudo, as vontades viscerais e nada comerciais de desejar morrer ultrapassam de longe, não pode restar dúvidas, este aval da instrumentalização mercantil. Se o sujeito – digo o sujeito, que aqui não está defendo sua “liberdade” de se converter em objeto – considerou que tinha que se matar ou que não quer mais continuar vivo porque lhe é inaceitável, por exemplo, estar preso numa cama, é com ele decidir isso ou não?

É e deve ser. O único aparte seria buscar investigar porque ele considera assim e se temos gerado as condições que levam mais sujeitos a pensar e soar assim, além de se queremos e contamos com recursos para contornar isso – acredito que sim, mas obviamente não neste delineamento em que estamos.

Aliás, por conta disso é que sou peremptoriamente contra a prisão perpétua e acredito que ela pode ser mais funesta para a vida que a própria pena de morte em si. Em 2006, por exemplo, 10 condenados franceses à prisão perpétua clamaram pela aplicação da pena capital. Numa carta que conseguiu furar o cerco do centro penitenciário de Clairvaux, tido como um dos mais rigorosos da França, eles escreveram:

“Chega de hipocrisia! Já que nos confinam irrevogavelmente a uma perpetuidade real, sem nenhuma perspectiva de libertação, nós preferimos pôr fim de vez a nosso martírio a nos vermos morrer aos poucos, sem esperança de outro amanhã depois de bem mais de 20 anos de miséria absoluta. (…) pedimos o restabelecimento efetivo da pena de morte para que ela possa ser aplicada a nós mesmos. ”

Portanto, vejam vocês, aqui não se trata de apologia à morte, mas é vital retirá-la desse lugar de tabu e esquecimento em que se quer enfiá-la, interditando que o valor e o sentido da vida sejam balizados em outras bases que não apenas a longevidade ou o alívio da dor (estabelecendo a morte como a maior de todas as dores).

Vamos falar de morte

Morrer também é benigno e é uma marca indelével da natureza. E tanto quanto uma pedra que será erodida pela ação da água, o ser humano é parte integrante do mundo natural.

Esse projeto de imortalidade que desde a modernidade vem sendo esculpido no corpo em sua busca por uma longevidade de matusalém é o câncer em fragrância de bálsamo. Sacrifício enorme viver para tentar contornar um fato inexorável que é o equilíbrio. Isto a partir de uma convivência adoecida onde para alguns é ofertado um banquete de tratamentos medicinais caros e para outros a vala comum de nem sequer ter uma cânfora que o trate.

Se não quer sucumbir enquanto espécie, o ser humano necessita abdicar de sua corrida maluca pela vida eterna e aproveitar o prazer de viver longe da mesquinhez de se agarrar a todo custo a esta experiência esplêndida, misteriosa e finita.

Sem deixar de mencionar ainda as ideias excêntricas de congelamento de cadáveres e o erro do credo na permanência da identidade por meio do clone. Porque não se é sendo vários repetidamente e em diferentes tempos/espaços que se é para sempre. Esse que sou/estou não se repete, jamais se repetirá e que mediocridade e dissabor profundo seria se assim o fosse.

No caso do suicida a disposição é simples: a menos que algo de muito extraordinário aconteça, quem quer se matar se mata e o resto é silêncio. Mas no caso daqueles que não conhecem possibilidades para executar essa vontade, me parece egoísmo sádico de primeira ordem querer encerrar o desejo alheio na “norma da vida”. Morrer às vezes pede auxílio.

Quero terminar suscitando ainda mais uma matiz no meu “elogio à morte”: a rigor, não sou definitivamente contra o homicídio. Violência, se não for gratuita, ativa e aplicada desnecessariamente, faz sentido e é indispensável. Que o digam todos aqueles que matam em legítima defesa porque procuravam evitar o quê mesmo? Sim, a morte. Mas neste caso, que se compreende e respeita, é elegido viver.

Júlio Reis é poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

Blog / Twitter


Imagem no topo: O Sétimo Selo, Ingmar Bergman

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Informação

Publicado em 10/02/2014 por em Júlio Reis.
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