ORNITORRINCO

MEDO D`ÁGUA

Sair da água dava medo. Na água, só os corajosos. Não existe temperatura quando se é criança. Sua mãe que decide se você precisa ou não de um capotinho. Eu sempre entrei, gélida ou não, eu sempre entrei. Na água, só os valentes. Água-viva, marolas, ondas, correntezas, pranchas. A primalhada toda dopada que nem eu. Nos alertavam: “Nós estamos ali, na frente daquele prédio ou daquela bandeira”. Eu até prestava atenção, a ideia de me perder dos meus pais na saída da água me assustava num grau de infinitude, eu não via solução se eu me perdesse, concluía muito seriamente: me perderei e será para sempre. Eu era uma criança velha, as coisas eram sérias porque eu já tinha consciência, pobre caprina.

A barriga queimada da prancha, os peixes vistos com a máscara, a estrela que eu e minhas primas fazíamos com as pernas, as frutas que falávamos embaixo d’água para alguém entender, a demência, o amor puro, os caldos, os jacarés, a negociação com Netuno — só mais um pouco, nos deixe viver, ficar, que sacode, que sacode, eu amava tomar caldo. No fundo no fundo (só consigo quando duplico), tomar caldo era se perceber viva. Eu era tão novinha, meu deus, minha deusa, que coisa linda essa imagem que você estão tentando atingir com minha pobre literatura e que para mim está tão viva, tão feroz, tão parada, tão movimentada. Que dias! Que verão!

Sempre era meu aniversário no verão e assim sempre será, ojalá! Sempre envelheci dentro do mar, a água nunca estava tão cheia como relatei, mas a areia sim. O mundo habitava na areia, sand people, adultos torravam, bebiam, comiam, compravam, eu também tinha interesse na areia: o corpo embaixo da areia, o castelo gótico que era possível fazer quando se molhasse a terra. O planeta era habitável. Onde quer que estivesse, eu conseguiria. Arrumar o que fazer. Vou conseguir. 
“Nós estamos ali, na frente daquele prédio ou daquela bandeira”. Eu saía da água e procurava o prédio ou a bandeira, mas por alguns segundos (uma vez foram minutos), não os achava. Minha família. “Me perderei e será para sempre”. Via minha pele esturricando com antecedência. Me perdi, me perdi. Vou voltar pra água, namorar Netuno, renegociar minha vida, me perdi da minha família terrestre. Acabou. Era rápido mas eu ia longe, um clássico dos pensamentos rápidos, são mais distantes. Os pensamentos elaborados e demorados são tão próximos, quase irritam. 
De repente uma luz, o bigode do meu pai, as pernas com óleo de bronzear da minha mãe, o boné do vovó Ralph, a caipirinha da vovó Marphisa. Não era prédio, não era bandeira, eu me guiava pela minha lupa, os detalhes me levavam pra casa. 
Esse ano quase morri, minha canga enrolou na roda do bugre na volta pra casa. Era um dia confuso no meu coração, a verdade se estabelecia de maneira voraz, e eu craquelava aceitando. Era de noite, olhava as estrelas ao lado do motorista quando de repente achei que eu estava em carne viva. E estava. Meus anjos da guarda resolveram que ainda não estava na hora. Da areia, do mar. Voltei pra casa. Mas me perder já não me causa mais medo. Tô sabendo de uns caminhos. Outros.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
*Imagem no topo: Hans Dahl
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Publicado em 06/02/2014 por em Letícia Novaes.
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