ORNITORRINCO

TODO MUNDO ALEGRE É TRISTE PRA CARALHO

Atravessando o bairro do Rio Vermelho no dia 02 de fevereiro, no meio da multidão em procissão, veio na minha direção um menino pronunciando algumas palavras em inglês, querendo que eu comprasse algumas fitinhas do Senhor do Bonfim que ele carregava na mão. Respondo que não sou gringo, sou baiano daqui mesmo. Sua expressão de desanimo durou cinco segundos até ele avistar um outro rapaz loiro. Não é a primeira vez que isso acontece comigo. A Bahia virou um lugar onde a sua imagem propaganda confunde até mesmo quem mora aqui, quem não compra seus pacotes turísticos.

Estou em Salvador, desde dezembro de 2013, trabalhando como ator no longa-metragem “Tropykaos” do diretor Daniel Lisboa. Projeto lindo, intenso e avassalador da vida do Daniel, e agora também da minha. O mês de dezembro foi de ensaios guiados pela Amanda Gabriel — incrível preparadora de elenco de filmes como “O Som ao Redor” e “Tatuagem”. Amanda me fez redescobrir o prazer em atuar, em criar e descobrir um personagem, prazer que estava um pouco desanimado dentro de mim (explico melhor outra hora). Desde janeiro, estamos filmando todos os dias, maratona de doze horas por dia em várias locações dessa primeira capital do país, minha cidade natal.

O personagem que faço chama-se Guima. É um poeta que renega sua origem classe média e vai viver junto de artistas marginais — que se posicionam à margem do mainstream. Guima é tido como uma promessa da cultura baiana, um porta-voz da cidade, aquelas raras figuras que possuem a sabedoria e a sensibilidade de prever (ou criar) o futuro. Ele vive junto da classe artistica alternativa da cidade, nos bares, nas esquinas, nas bocas, nos puteiros, nos inferninhos do rock.

Still do filme ‘Tropykaos’, por Alex Oliveira.

Em uma cena do início do filme, Guima está conversando com seu melhor amigo, John, quando este lhe pergunta o por quê dele ainda não ter saído da cidade, se seus gostos culturais não estão em ressonância com o contexto local, por que ainda não foi embora de Salvador? “Quem fica aqui se afoga no dendê”, John diz.

Esse diálogo é muito comum entre os meus conhecidos daqui. Já me vi nessa cena uma dezena de vezes antes de ter saído da Bahia, e mesmo agora, morando no Rio de Janeiro há sete anos, continuo me perguntando por que saí e se voltaria pra cá.

Salvador está feia. Descuidada, ruas esburacadas, calçadas destruídas, casas sujas, carcomidas pelo salitre. Quando não é a destruição da ruína, é a feiura das novas construções, da arquitetura padrão das cidades grandes: condomínios de prédios com centenas de apartamentos tapando a geografia natural. Mais feio ainda são os outdoors dominando a paisagem urbana. Por todos os lados estão posicionadas propagandas de festas e eventos pré-carnaval. O que me incomoda nesses outdoors, além da óbvia poluição visual, é a estética publicitária do axé convidando para a “Maior Festa do Ano”, a “Alegria Contagiosa”, entulhando para todos os lados da cidade a ditadura da alegria, da festa, da esbórnia feliz. Essa palavra Felicidade, vendida e comprada em shoppings centers.

O que acontece com o pagode e com o axé, para além da minha opinião sobre o estilo musical, é ser parte marcante da indústria da alegria, que move milhões de dinheiro, emburrece milhões de pessoas e solapa para o escanteio do escanteio os que não participam do seu nicho. A atitude axé conduz a opressão da alegria, como se fosse a quintessência da vida, o elemento presente nas ruelas e avenidas de qualquer cidade da Bahia, fazendo especialmente de Salvador um parque temático em que Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Bell Marques são como o Mickey, o Pateta e sua turma.

Tudo isso passaria despercebido e não seria um incômodo pra mim se não houvesse em excesso (a cada 10 outdoors, praticamente 8 são de festas) e se a imagem da Bahia já não estivesse tão atrelada à essa pressão e a figura do baiano como um povo alegre e contente e animado e pulante.

Se você ainda não conhece, vou dar dois exemplos.

A primeira música chama-se “Chame Gente“, foi composta por Armandinho e Moraes Moreira, dois grandes nomes da música brasileira. É bonita, atesta a mistura racial da cidade, nomea bairros e tradições culturais.

Ah, imagina só
Que loucura é essa mistura
Alegria, alegria o estado que chamamos Bahia
De todos os santos, encantos e axé
Sagrado e profano, o baiano é carnaval
No corredor de história
Vitória, Lapinha, Caminho de Areia
Pelas vias, pelas veias
Escorre o sangue e o vinho
Pelo mangue Pelourinho
A pé ou de caminhão
Não pode faltar a fé
O carnaval vai passar
Na Sé ou no Campo Grande
Somos os Filhos de Gandhy
De Dodô e Osmar
Por isso chame, chame, chame, chame gente
E a gente se completa
Enchendo de alegria
A praça e o poeta
É um verdadeiro enxame, enxame, enxame de gente
E a gente se completa
Enchendo de alegria
A praça e o poeta


Não deixa de associar a Bahia como um estado da alegria, citando apenas os clichês dos pacotes turísticos, mas gosto de como ela é cheia de símbolos importantes à construção cultural. Outro exemplo está na música “We Are Carnaval“:

Ah, que bom você chegou
Bem-vindo a Salvador
Coração do Brasil
Vem, você vai conhecer
A cidade de luz e prazer
Correndo atrás do trio
Vai compreender que a baiano é:
Um povo a mais de mil
Ele tem Deus no seu coração
E o Diabo no quadril
We are Carnaval
We are folia
We are the world of Carnaval
We are Bahia

A música repete essa letra como num mantra, umas três ou quatro vezes, até todo mundo estar cantando “We are Carnaval…”, não há escolha. Essa letra não descreve nada da cultura local, apenas coloca o estado como provedor de festa e gozo. Não à toa foi composta pelo publicitário Nizan Guanaes e acabou virando uma espécie de hino da cidade. Não há um carnaval que deixe de tocar, muitas vezes é possível escutá-la até no aeroporto, quando se chega na cidade.

Não quero parecer ranzinza. Gosto de festa, de sair com os amigos, de conhecer pessoas no encontrão, e gosto muito de carnaval. Uma coisa é participar dessa euforia por quinze dias, outra coisa é viver regido pelo projeto comercial baiano. Como o Zé Preto do Pelô me disse uma vez, “A Bahia não é só isso não”.

Se você não vive no “We are Bahia”, então não sabe como é sentir a opressão da indústria que inibe artistas que não se aliam à sua propaganda. Estou cansado de ver amigos talentosos emperrados profissionalmente por não conseguirem espaço nem público. É um pouco como acontece no Rio com a presença da Rede Globo, entretanto lá os artistas “não globais” há tempos construíram seu espaço — inclusive, flertando com a empresa uma vez ou outra —, o que aqui em Salvador corresponde a pouquíssimos lugares e pessoas. Não existe um público numeroso para teatro, literatura, música, que não esteja associado ao clichê baiano.

Canibal Vegetariano #097, por Gabriel Pardal

A pegunta que sempre faço é: tirando os nomes conhecidos de uma outra geração, que artistas baianos você conhece? Pois o fato de você não conhecer não quer dizer que não existam. Eles estão aqui, nos estúdios, nas livrarias, nos teatros, nas esquinas, nos bares, trabalhando o esforço.

Tudo isso está muito vivo na minha cabeça nesses últimos tempos, por estar passando essa temporada aqui com uma equipe maravilhosa de conterrâneos, escrevendo essa história sobre um poeta baiano que não se encaixa com o que se convencionou chamar de Bahia. Fazer esse personagem, embora tenha tanta coisa diferente de mim, reverbera muitas das minhas reflexões e vivências. Nada mais gratificante do que fazer parte de algo que me preenche, me aumenta e me faz voltar a respirar o ar salgado do litoral baiano, de que eu tanto sentia falta.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 05/02/2014 por em Gabriel Pardal.
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