ORNITORRINCO

MINHA SEMANA EM LAS VEGAS

Aterrisso em Las Vegas. Máquinas de jogo cantam no saguão do aeroporto. Esta é uma cidade estranha. Tudo parece falso. Fake? Ao longo de uma avenida vejo hotéis megalômanos, replicando e aludindo do Egito à Paris. As luzes de neon brilham forte anunciando produtos e shows, alguns musicais famosos e uma pilha de espetáculos do Cirque du Soleil, praticamente um pra cada grande hotel (assisti dois realmente fabulosos). A cidade inteira parece um shopping. Definitivamente, não é o meu tipo de lugar. E o que é que eu estou fazendo aqui mesmo? Acompanhando minha trabalhadora esposa na semana do Natal, aproveitando as milhas, a carona e esperando a folga dela para viajarmos pela região.

No saguão do meu hotel ocupa-quarteirão, o MGM Grand, o pop toca alto. E assim é também por todo lado — do hotel e da cidade — com alto-falantes espalhando o clima de boate por aí. No cassino, o americano médio festeja seu tempo livre jogando. Em salas douradas mais sóbrias, os grandes cacifes brincam com a sorte e o dinheiro apostando alto. Devo dizer, não é a primeira vez que entro num cassino. Mas sempre sinto essa energia terrível, pesada. Só fica bonito nos filmes. Mas a classe média americana é o pinto no lixo. E a julgar pela língua portuguesa que escuto com frequência por aqui, a classe média brasileira também adora Vegas. Acredite ou não, esta é a cidade mais visitada dos Estados Unidos.

Na rua, um homem de terno nos oferece um passe para uma boate ou um convite para um ‘clube de cavalheiros’. Carros e outdoors anunciam as melhores casas de striptease. Outros homens com pinta de imigrantes distribuem cartões de prostitutas, autoproclamando-se ‘Orgasmic dealers’ (traficantes de orgasmo) em suas camisetas coloridas. A ficha de Sarah diz que ela cobra apenas 35 dólares. Um casal de noivos recém-casados passa por nós. Casar em Vegas é um programa turístico. Assim como vestir um tubinho coladíssimo (quem se importa com o frio do deserto?), alugar uma limusine e gritar com metade do corpo pra fora do teto solar e uma taça de champanhe na mão.

Come-se bem em Vegas — entenda como quiser. Acabamos jantando no hotel que reproduz Veneza, onde o teto é azul com nuvens brancas, simulando um dia lindo às dez e meia da noite. Bizarro. Também tem uma réplica de um dos canais, com direito a passeio, gondoleiro cantante e tudo. Muito bizarro.

Nos Estados Unidos é raro ter café da manhã incluído na diária. Saudade do Brasil. De manhã a energia do cassino é ainda mais pesada. Vê-se que para algumas pessoas ali ainda não amanheceu. E todo o salão é fechado, sem janelas, criando essa atmosfera de que o tempo não passa. Tempo é dinheiro, right? Minha esposa vai trabalhar acompanhando os preparativos para o UFC e eu me aquieto no quarto. O programa mais procurado em Vegas é pagar uns dólares para ir até o deserto disparar uma metralhadora. O segundo é pagar uns dólares para ir até o deserto derrubar um pedaço de barranco usando uma retroescavadeira. Não, né? Talvez eu pudesse dar uma caminhada por aí pra ver os hotéis-cassino. Humm… não. Ou então pegar a matinê do show do David Copperfield. Pois é, Copperfield está vivo, com a mesma cara dos anos 80 e engordando seus milhões com shows em Vegas. Já eu, estou duro e engordando com o fast food do almoço. Vou não.

Nada me atrai ou me anima a sair do quarto. Durmo. Entro na internet (falam do Brasil, mas num dos melhores hotéis de Las Vegas, o wi-fi é uma glamourosa bosta), acompanho as notícias do Brasil, dou uma lida no ORNITORRINCO (puxa-saco que sou). Decido jogar um pouco de Paciência. Perco uma sequência de partidas. Descubro a opção de reiniciar o mesmo jogo quando perco. Jogo de novo e de novo. Fico bom. Vermelho e preto, vermelho e preto. Minha mente acelera. Sou Rain Man, decifrando as cartas e quebrando a banca. Enxergo as combinações possíveis, quebro recorde depois de recorde do computador. Sou De Niro, todo-poderoso do cassino. Sou Robert Redford comprando uma noite com Demi Moore com uma proposta indecente. Bato os 4000 pontos — é muito pra o que eu tinha quando comecei a jogar. Sou um dos onze homens fazendo a limpa em segredo. É, nos meus 27 anos eu vi trocentos filmes passados em Vegas, então dá um tempo pro meu fetiche.

Chega o dia da luta, 28/12/2013. Tenho uma credencial para acompanhar o evento, vamos lá? Vou. Começo meu dia na arena às 15h. Os caras sabem como fazer o negócio. Acompanho a primeira luta e durante o dia, cresce seriamente a minha crença de que o MMA vai tomar o lugar do boxe como a luta mais popular do mundo. É um esporte moderno, afinado com o que o público quer. Um brasileiro no ringue. Loiro descolorido, ele sai vitorioso pintado de vermelho pelo sangue do adversário. Metade do ginásio grita em português vibrando. Estou entre eles. Outras lutas passam. Na área de imprensa aperto a mão do Mike Tyson. “What’s up, champ?”. Ele sorri pra mim. Duas lindas mulheres — que supostamente se odeiam — entram no octógono para a disputa do cinturão. O ginásio ferve. Eles e elas deliram com as quedas, socos e reviravoltas da luta. Estou excitado, na torcida pela desafiante mais simpática. E ela acaba perdendo pra über-marrenta campeã, não menos charmosa.

Hora da luta principal. A revanche. Já passa de nove da noite, estou acompanhando o UFC há mais de 5 horas. Nunca fiz isso na vida. No dia em que Anderson Silva perdeu o título eu festejava meu casamento e a mudança pra fora do Brasil. Agora estou aqui, diante do octógono. E estou nervoso. Torço muito pra Anderson, apesar da simpatia e simplicidade do adversário americano. O brasileiro vai mal no primeiro round, mas a arena está com ele. No segundo assalto, depois de tentar um chute, ele cai. Penso: ‘quebrou a perna’. E agora, por alguns longos minutos, o evento não tem música alta, clipes, anúncios marcantes pela voz do apresentador, entrevista do repórter com o vencedor. Neste momento, ninguém fala nada. Há um silêncio institucional banhado pela reação do público ao replay bizarro do golpe. “Oh…”, é o que se ouve, alto e claro. A perna de Anderson como uma borracha, quebrando em câmera lenta ao encontrar a defesa do joelho do americano. O octógono está cheio de médicos, gente da organização. Anderson está no chão com muita dor. Sinto-me mal. Estou chocado. Minha mulher está ao meu lado, microfone em punho, câmera pronta, preparada pra entrar no ar a qualquer momento. Digo a ela que vou embora. Caminho da arena até o quarto do hotel pensando que realmente não gosto de Vegas. E que esta cidade talvez reuna, promova e viva do que há de mais essencial e significativo na cultura popular americana: o entretenimento barulhento, a glorificação do dinheiro, o sexo machista-fetichista e a violência. Tudo junto e misturado.

É muito espetáculo pra muito pouca poesia.

Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.

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Publicado em 04/02/2014 por em Lucas Gutierrez.
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