ORNITORRINCO

SOBRE A MUDANÇA E O DESAPEGO

Há cerca de 50 trilhões de células que formam nosso corpo. Essas 50 trilhões de coisas que constituem você se renovam e mudam completamente, nascem e morrem, na média em 7 anos e por isso existe essa lenda que somos uma pessoa completamente nova nesse período de tempo. O fato é que mudança é vida. Mudar é estar bem vivo. Mas a gente resiste a mudar. E em geral por diversas razões bobas.

Mudanças geram ansiedade, na maioria das vezes. Ansiedade de sair do presente, de tentar prever, de pensar no que pode ser o futuro que virá depois dessas mudanças. A ansiedade é muitas vezes medo do que pode estar por vir. Toda ansiedade tem um medo como base. Mesmo que você me diga que o fim de um casamento é concreto, o medo é das consequências imaginárias do que pode acontecer de desagradável diante dessa situação. A gente sente medo do que ainda não aconteceu, do que imaginamos que de pior poderia acontecer, quando na verdade seria mais fácil simplesmente escolher a mudança e abraçar o que quer que esteja por vir junto de qualquer consequência que vier dessa decisão de, por exemplo, mudar pra São Paulo por um tempo ou de escolher terminar um relacionamento ou de tentar ficar com ela e receber um não.

Aceitar o fato de você não reconhecer a si mesmo, 
aceitar a novidade em você pra você mesmo, aceitar 
que qualquer coisa, mesmo que um traço de persona-
lidade que fazia sua vida mais difícil, se foi, já era, 
aceitar isso, é no mínimo incômodo, se não for doloroso.

Mudar é difícil porque mudar requer desapegar-se. Se por trinta e um anos da sua vida você é um acumulador de lembranças de todas as namoradas que teve, mudar nesse caso, requer desapego de coisas concretas e outras não tão concretas. Desapego de coisas ou desapego de ser quem você era, desapego da sua auto-imagem antiga, desapego até da dor. Porque dói, incomoda mudar pra algo novo. E não só isso, a neurociência explica, nosso cérebro quer sempre poupar energia, então se você condicionou ele a reagir de forma x a situação y, ele vai obviamente escolher as redes neurais mais usadas, sempre o caminho mais fácil, que nunca é o da mudança, do novo.

E aí ou você abraça a mudança e vai fundo nela contra seu cérebro e contra você mesmo, ou você sofre e apela pra nostalgia.

Adão Iturrusgarai 

Aceitar o fato de você não reconhecer a si mesmo, aceitar a novidade em você pra você mesmo, aceitar que qualquer coisa, mesmo que um traço de personalidade que fazia sua vida mais difícil, se foi, já era, aceitar isso, é no mínimo incômodo, se não for doloroso. E só incomoda e só dói porque a gente quer se apegar ao que já foi, já passou, um saudosismo nostálgico.

Nostalgia é em grande medida um apego à memória, que pode vir em forma de uma foto ou de qualquer uma dessas coisas que a gente inventou pra tentar solidificar uma memória. É difícil jogar fora, aceitar que uma lembrança vai ser só uma lembrança dentro da sua cabeça, por mais que a gente queira comprar souvenirs, filmar e tirar fotos para guardar aquele momento especial. Não basta mais só a lembrança na cabeça, a gente quer se agarrar a alguma coisa.

O fato de guardar ou não o presente ganhado no início do namoro não muda em nada aquele momento, a memória que ficou daquele instante. O objeto é tantas vezes só um auxílio pra você tentar deixar mais vivo ou reviver no pensamento um momento irrevivível. A gente guarda as coisas pra tentar fazer mais viva uma memória.

Isso não são constatações tristes, pelo contrário, feliz de alguém que está mudando e sofrendo, mas satisfeito em aprender cada vez mais a desapegar. Desapegar te deixa mais leve. Você deixa pesos para trás, um peso que você nem sabe ao certo pra quem carrega, e assim, é lógico que você fica uma pessoa mais leve.

A mudança muitas vezes é forçada pela vida, é passiva, mas ela também pode ser ativa e nem por isso deixa de ser assustadora ou dolorida. Mas quando você escolhe consciente o caminho da mudança, não tem medo nem dor que te pare, porque o que quer que venha não importa, você está de verdade aprendendo a desapegar.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 03/02/2014 por em Franco Fanti.
%d blogueiros gostam disto: