ORNITORRINCO

FIM DE ANO NO AEROPORTO

TERRA

Aeroporto lotado. Depois de passar pela revista de segurança, pegar meu celular na bandeja e colocar meu cinto na calça, estou caminhando pelo salão de embarque em direção ao Portão 1, que ironicamente é o último para quem vem da entrada do salão. Praticamente todas as cadeiras estão ocupadas. Não sobrando cadeiras, as pessoas decidiram sentar no chão. Estou no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro – o Galeão –, aguardando a chamada para o voo para Salvador, minha cidade natal, onde vou passar as festas de fim de ano. Meu caso deve ser o mesmo da maioria das pessoas que estão aqui rodando o salão. Por isso essa overdose de gente pra lá e pra cá. Pra completar, está caindo uma tempestade lá fora. Dá para ver o vento fazendo redemoinho com a chuva na pista de decolagem.

Preciso fazer uma consideração importante aqui. Por mais que eu tente me enganar, com meditação, respiração, literatura, ou sono, a verdade é que tenho medo de voar de avião. A espera no salão de embarque é angustiante pra mim porque não paro de pensar na possibilidade do avião cair, e mesmo que todo mundo saiba que é um dos meios de transportes mais seguros que existem, acidentes acontecem, posso supor que possa acontecer comigo.

Sou tão bom nisso que criei um jogo mental para passar o tempo enquanto espero o embarque. Fico olhando para os rostos das pessoas sentadas na minha frente, as que vão estar na mesma aeronave que eu, e começo a pensar se elas têm cara de quem aparece em lista dos mortos do jornal.

Ok, meu medo não chega ao exagero. Consigo me controlar. Não fico dando piti, desmaiando, vomitando. Nunca deixei de embarcar mesmo nas vezes em que tive a “certeza” de que ia morrer. O funcionamento da minha paranóia se restringe apenas ao caos em minha cabeça. Fico procurando sinais para me salvar. Por exemplo, uma vez peguei um avião para São Paulo com o Jô Soares, Miguel Falabella e Selton Mello. Foi o voo mais tranquilo pois eu sabia que um avião com essas pessoas nunca iria cair. Dormi a viagem inteira.

Chego no Portão 1 e vejo as pessoas se aglomerando em frente ao portão de embarque. Faz muito calor aqui, o ar condicionado não está dando conta da multidão. Raios e trovões caem lá fora junto com a chuva. Escuto dizerem que nenhum avião está decolando por causa do mal tempo. Vou até um funcionário da companhia aérea perguntar se há previsão para decolagem e ele me responde que só o piloto e o comandante da base que sabem, eles estão analisando o tempo e logo mais dirão se será possível partir.

Quem é esse piloto? Será que ele sabe mesmo se o tempo está bom para voar? Quer dizer, saber, espero que saiba, mas será que não está num dia daqueles, com problemas com a esposa, ou quem sabe o seu time perdeu, tá com dor de cabeça, diarréia, não tomou o anti-depressivo hoje, sei lá. Vai que o piloto passou uma semana deprimido e pensou não apenas uma, mas duas vezes em se matar? Vai que ele acha que a humanidade não tem destino, que somos todos podres e todos merecemos morrer? Tento não pensar em nada disso mas a minha vontade é chegar para o funcionário da companhia aérea e dizer “Cancela, cancela esse voo que com uma chuva dessas, essa merda vai cair lá de cima”.

Encontro um espaço no chão para sentar. Abro um livro para ler enquanto espero a chamada. Por causa do clima e da lotação, o voo está meia hora atrasado. Do meu lado um grupo de quatro jovens adultos (existe isso?) tomam cerveja, conversam sobre futebol. Assim do nada um deles pergunta para uma garota sentada na cadeira do meu lado, “Oi, como você se chama?”. Ela responde Cecília. Ele fala “Pensei que você fosse gringa”. Cecília responde que geralmente pensam isso dela mas que é brasileira de descendência italiana. “Você também está esperando o voo pra Salvador?”, ele pergunta. Ela responde que sim e eles vão seguindo numa conversa sobre qualquer coisa até que chega a amiga da Cecília com um pacote de pão de queijo e um outro rapaz do grupo se levanta para ceder lugar à ela, que senta e agradece o cavalheirismo. O primeiro rapaz diz para ela tomar cuidado com o amigo, “Isso não é cavalheirismo não. Isso quer dizer outra coisa. Conheço bem ele. Ele não é cavalheiro, ele é o próprio cavalo”. Eles riem e emendam a conversa em outra coisa.

Crianças passam na minha frente correndo e gritando. Estão brincando de esconde-esconde. Seus pais se atrapalham na hora de catar um por um e organizá-los sentados num canto. É claro que basta os pais se distraírem com o celular para que as crianças voltem a circular por aí.

Levanto para ouvir os comentários das pessoas na fila do Portão 1. Pela imensa janela dá para ver que a chuva não parece querer parar. O voo estava marcado para às 21h30 e já são quase 22h. Senhoras gordas se abanando, faz muito calor. As pessoas se agrupando, irritadas com o atraso, parece uma manifestação. Funcionários passam discutindo pela gente, são questionados de quanto tempo teremos que esperar, mas eles não têm respostas. Vejo que quase todos estão incomodados em ter que esperar tanto tempo.

Por que esses aeroportos são tão desconfortáveis? Para aumentar o suplício que é passar a hora esperando para viajar? Impossível se acomodar com conforto em suas cadeiras, seja no espaço de espera quanto na praça de alimentação. É tudo muito frio e branco e cinza e iluminado. As cadeiras são duras e ficam muito próximas umas das outras. A arquitetura é feia, tudo é reto ou quadrado. Existe algum acordo internacional entre os engenheiros de aeroportos que define que suas instalações devam parecer como a ficção científica dos anos 90? Aeroportos e shoppings centers revelam a ideologia das relações sociais no mundo moderno: velocidade, mania de limpeza, androginia, destruição ambiental, consumismo, crises familiares e perda da individualidade.

Uma família sentada na minha frente olha para a chuva caindo pela janela. Pai, mãe, três filhos. Estão com a expressão vidrada de quem está há 5 dias acampado no aeroporto. Suas malas enormes estão amontoadas sobre seus pés. Escuto dizerem que é a primeira vez que viajam de avião. Quer dizer, a segunda. Vieram do Ceará para o Rio e agora estão voltando. Um dos filhos pergunta por que o ouvido dói no avião. O pai responde que é por causa do barulho da turbina. “É muito rápido, não é pai?”, pergunta o do meio. O pai responde que o avião viaja na velocidade do som, por isso faz barulho no ouvido. Tenho vontade de me juntar à eles, de sentar ao lado desse pai e dessa mãe, segurar na mão deles, olhando no fundo dos olhos e dizer “Vamos embora daqui, essa merda vai cair.”

Minha imaginação é interrompida por um menino gorducho de uns 7 anos tirando uma foto minha com o seu tablet. Depois se vira e tira fotos de outras pessoas. Também tira fotos de si mesmo encostado nas janelas, na prateleira da livraria, sentado na cadeira, e se perde por aí. Onde estão os pais desse garoto? Devem ter embarcado e deixado ele aí.

Há três tipos de passageiros:

– Os que se importam com o atraso, que querem e/ou precisam chegar no horário previsto no seu destino.
– Os que não estão nem aí, aproveitam o momento bebendo, conversando, paquerando.
– Os que querem que o voo seja cancelado, e não se importam em voltar pra casa.

Como se pode imaginar, estou no terceiro grupo, e pelo que posso observar não somos muitos. Apenas eu, a família na minha frente, uma senhora em pé do meu lado que está com o olho do tamanho da cara, e a minha namorada que está em casa no Rio, querendo que eu volte pra debaixo das cobertas com ela.

Estou suando em pé, andando de um lado pro outro pelo saguão, lastimando a hora em que peguei o táxi e vim para esse inferno espacial. A chuva diminuiu, mas não parou e já são quase duas horas de atraso. Acho que é um sinal de deus – ou o que quer que exista neste mistério –, me dando mais tempo para desistir. É um aviso: Gabriel, você tem certeza que vai entrar neste avião? Estou atrasando tudo para você ter a sua chance. Você está cansado, está querendo voltar pra casa, tomar um banho, deitar, hoje não é um bom dia para viajar. Vai permanecer esperando para embarcar nesse besouro de metal gigante que em qualquer vacilo pode despencar? Rapaz, escuta o que estou lhe dizendo…

Então escuto a voz do aeroporto – a voz do deus do aeroporto – chamando o meu voo e informando aos passageiros para se posicionarem no Portão 1 pois vão dar início ao embarque. Chegou a hora de decidir.

CÉU

Avião lotado. Acabei de encontrar minha cadeira. Estou sentado na ingrata poltrona do meio. Do meu lado direito, posicionada na janela, está uma freira. Do lado esquerdo, no corredor, um homem com a camisa do Flamengo. Não sei se a freira é um sinal positivo ou negativo. Digo boa noite mas ela não parece muito amigável. Já o torcedor do Flamengo está conversando com outro torcedor na poltrona da frente e em alguns momentos, enquanto fala, se vira para mim querendo me incluir em sua palestra sobre futebol. Evito completamente sua interação para que ele não vire um grude durante a viagem, e pior, se por acaso esse avião realmente cair, não seja sobre futebol o último assunto que terei na vida.

As aeromoças estão correndo de um lado para o outro, ajeitando todo mundo em seus lugares. Criei um jogo mental com as aeromoças também. Se alguma coisa estiver dando errado elas serão as primeiras a saberem. Qualquer tique nervoso, suor, andar desengonçado pode denunciar um problema com a aeronave. Embora eu procure me acalmar observando a maneira impecável com que se arrumam, cabelo, esmalte, batom, a roupa bem passada, o sorriso estudado, há um certo ar maligno nisso tudo,
não consigo deixar de pensar que essa simpatia toda é para amenizar o fato de que estamos em um instrumento de morte.

São três os momentos perigosos ao voar de avião. A decolagem, o pouso, e ficar voando lá em cima. Enquanto ainda estamos passeando pela pista, uma mini televisão acoplada na poltrona à minha frente exibe as demonstrações de segurança. Viajar de avião é também uma atividade filosófica. Nos lembra da nossa mortalidade. Um vídeo em desenho animado demonstrando como se comportar caso o avião comece a cair, com personagens plácidos, calmos, tranquilos colocando a máscara de oxigênio e descendo em um tobogã para fora da aeronave, nos relembra que somos mortais e que estamos o tempo todo reféns do perigo e do imprevisto.

O avião decola e a freira do meu lado faz o sinal da cruz. Me pergunto se deveria fazer também. Não sou religioso, não costumo fazer o sinal da cruz, mas será que agora seria uma boa oportunidade? Tento fazer, mas não peguei bem a ordem do movimento, por onde começa, e percebendo que estou errado, finjo que estou coçando a cabeça, a barriga e os ombros. Abro meu livro para tentar me distrair um pouco mas é impossível com o flamenguista do meu lado comentando os pontos do campeonato junto do seu amigo. Algumas pessoas estão visivelmente incomodadas com esse papo. Aeromoça Jovem passa com um copo de água e remédio e vai lá pro fundo. As luzes se apagam e os comentaristas de futebol se silenciam.

Tudo fica calmo e silencioso no avião. Me sinto dentro de uma cápsula distante no universo. Tudo escuro do lado de fora. Estamos voando por cima das nuvens carregadas. Alguns passageiros estão dormindo, outros lendo, outros jogando no celular. Aos poucos minha respiração vai relaxando e meus olhos vão pesando, escurecendo, estou entrando na imensidão profunda de mim mesmo, deitando em minha cama interior, derretendo nas sombras por dentro da minha mente. Durmo.

Acordo com o aviso de turbulência. O avião está sacolejando pra cima e pra baixo no céu. Aeromoça Jovem junto da Aeromoça Velha passam depressa pra frente do avião. Olho preocupado para ver o que vão fazer. O piloto avisa para atarmos o cinto de segurança pois estamos passando por uma área de instabilidade. Instabilidade, sei. Essa merda vai cair. Relaxar. Pensar nos pinguins na travessia em busca de alimento. Nos caçadores de borboletas da austrália selvagem. O avião faz uma curva inclinada para a esquerda, a freira do meu lado se agarra na cadeira, o flamenguista dorme. Pensar nos coqueiros de itapuã. Sabia que a atmosfera de Júpiter é coberta por nuvens compostas por cristais de amônia congelada? Como voar em Júpiter? O avião não para de tremer. Da minha poltrona vejo Aeromoça Jovem sentada conversando com Aeromoça Velha. Da forma como estão parecem conversar sobre tintura de cabelo ou marca de batom, ou quem sabe sobre os últimos lançamentos da literatura contemporânea brasileira. Olho para o lado e vejo pessoas tranquilas. Ouço uma mulher no fundo gritar “Ai, ui”, a cada balanço mais forte e frio na barriga.

Não conheço ninguém que teve uma experiência com as máscaras de oxigênio. É possível passar pela vida sem essa experiência? Quero optar por não vivê-la. Ouço alguém atrás de mim dizer “Jesus Cristo, nos tire dessa cela”. Relaxar. Respirar. Pensar que ainda tenho que visitar o Templo de Phra Si Sanphet na Tailândia. Pensar na história do livro que ainda tenho que escrever. Penso que estou apaixonado, por isso não posso morrer. Amar é não poder morrer. Preciso estar vivo para poder viver os momentos que ainda não vivi, para lembrar o que passamos juntos, para chegar no meu destino e ligar pra ela dizendo “Amor, cheguei”, e ouvir a voz dela mais mil vezes. Então por favor, não quero morrer, não caia essa merda de avião, isso não pode, não pode acabar agora.

Eu quero descer. Levanto da poltrona, caminho até a frente, chego na Aeromoça Jovem e digo “Manda o avião pousar que eu quero descer”. Ela diz “Mas, senhor, não chegamos em nosso destino”. “Não importa, quero descer agora, não quero mais ficar aqui dentro, pode descer que vou seguir andando”. Aeromoça Velha pede para eu me acalmar que o voo já está chegando. Pergunto onde estão os paraquedas. “Senhor, não temos paraquedas, senhor”, responde Aeromoça Jovem. Um raio gigante azul luminoso cai sobre nós e parte o avião no meio, estamos despencando no céu. Agarro a Aeromoça pelo pescoço perguntando “Onde estão os paraquedas?” A Aeromoça abre uma porta do armário e me passa uma embalagem. Tiro o paraquedas do pacote e coloco nas minhas costas. De onde estou vejo a tripulação caindo pelos ares. Salto. Vou escorregando pelo céu e encontro a freira olhando desesperada pra mim, rezando o Pai Nosso. Passo pelos dois torcedores conversando, falando “Eu só espero que vença o campeonato do ano que vem”. Vejo o menino do aeroporto, aquele com o tablet, tirando fotos de si mesmo. Lá embaixo as montanhas, os rios, os lagos, o mar. Tudo é muito bonito e escuro. Pontos luminosos lembram as luzes da árvore de natal. Todos os passageiros estão voando pela atmosfera. O avião explode lá embaixo e cria uma luz que ilumina tudo. Do meu lado o piloto me cutuca no braço. Ele também está com um paraquedas nas costas. Sorri e me faz o sinal de Ok. Então me diz “Seja Bem Vindo à Salvador, espero que tenha feito um bom voo, agradecemos a preferência”. Acordo suado na poltrona.

CASA

Assim que chego em casa, abro a porta com euforia, contente de ter chegado vivo. Pelas luzes apagadas percebo que estão todos dormindo. Exceto o cachorro da minha irmã. Vejo-o vindo correndo na minha direção. Abro os braços para cumprimentá-lo. “Pônei, quanto tempo!”, só que ele não me reconhece e agarra minha mão direita com seus dentes. Sua mordida é forte e consegue balançar meu braço para um lado e para o outro, não consigo soltá-lo. Pônei só larga minha mão quando minha mãe aparece jogando um balde de água fria em cima dele.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 25/12/2013 por em Gabriel Pardal.
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