ORNITORRINCO

SOBRE OS FINAIS

É inevitável, inadiável, irremediável. O ano acaba, tudo acaba e alguém vai sair da sua vida.

Quando alguém sai da sua vida porque você quis é necessariamente por uma decisão auto-centrada. Você pensa em si e por si, não existe forma alguma de precisar o peso ou alívio da sua decisão na vida da pessoa ou pessoas que você decide deixar. Seja porque você decidiu e assim quis, sem se interessar em nada por possíveis sentimentos ou apegos do outro, seja porque você decidiu e sim se preocupa com o outro, seja por um sentimento de generosidade levemente prepotente de libertar o outro pensando que poderia ajuda-lo a crescer, ou ainda que se diga que deixamos por amor ao próximo. Todas essas razões podem até ser verdadeiras, mas é sempre uma decisão interna sua, o outro não tem escolha nem controle algum sobre isso e só você vai ter que lidar com o aperto no peito de ver ela entrando no carro de outro as 22:30 da noite de uma quinta feira, logo depois de vocês terem terminado, ou o alívio dele não mais te pressionar por suas escolhas profissionais. As consequências dessa escolha, as delícias e as dores de ser o autor da sua própria existência fica tudo na sua conta.

Quando alguém sai da sua vida porque ela, i.e. a outra pessoa, quis, é você quem não tem escolha. Apesar de poder achar ou querer ter escolha quando o deixado em questão é você, apesar de talvez achar que por algum contrato de relação pré-estabelecido com “eu te amos”, “até que a morte nos separe” e “viagens pré-programadas” não desse o direito ao outro de acordar numa quarta feira de céu azul em um apartamento no Flamengo e dizer que não te ama mais, como se um “você pode sempre contar comigo, meu filho” garantisse que ele não vai sair da sua vida num estalar de dedo numa noite fria em Petrópolis por causa de um câncer.

Não é exatamente pela outra pessoa que sai da sua vida que você sofre, mas pelas projeções do que poderia ser o futuro e os planos feitos com ela, pelo futuro construído no seu imaginário e que terá que ser demolido. É como se esse alguém estar na sua vida fosse algum tipo de garantia que fizesse com que este porvir fosse um pouco mais tangível, mais firme, sólido e assegurasse que esse futuro planejado de viagens pra China, ou Natais em família fosse sem falha acontecer caso a outra pessoa não saísse da sua vida.

Senão pelo futuro, as vezes é pelo apego ao que houve de memorável, especial e inesquecível no passado conjunto que se sofre. É como se de alguma forma o fato de continuar com esse alguém ao seu lado, na sua vida, fortalecesse uma existência menos ilusória desse passado de um dia que ela estava de faixa marrom na cabeça descendo lindamente a rua general glicério e você sorriu orgulhoso de ter uma mulher tão linda, charmosa e legal como sua namorada, ou nas lembranças de uma tarde viajando com ele conversando. Nem passado nem futuro existem, mas se esse alguém está na sua vida, existe a ilusão de que os dois são mais reais.

Um momento difícil de alguém que se vai, é lidar com os objetos. Objetos da pessoa que sai da sua vida trazem uma carga emocional de apego. E o cheiro… Achei um casaco do meu pai que ainda tinha o cheiro dele, encontrei um pijama de uma ex que tinha o cheiro dela, foi quase como se eles estivessem ali. Nestes casos em especial objetos são como lembranças sólidas, algo concreto (e ilusório) pra tentar se agarrar ingenuamente a esse alguém que saiu da sua vida.

Quando alguém sai da sua vida porque Deus ou algum destes acasos totalmente fora do nosso controle quis, é sempre uma crise. Penso em crise como a história do kanji da crise que é = perigo + oportunidade. Oportunidade porque por mais que um fim seja assustador, fora do nosso controle ou trágico, é como disse Boff, “a crise acrisola, purifica, tudo o que não é substancial e fundamental cai, fica só a substância”. O perigoso, é que com a perspectiva que se ganha no distanciamento que só a ausência traz, quem parecia insuportável pode se tornar bem mais legal. Você conhece alguém que sinta saudade de aspectos que ela acha ruins de alguém? Você sente saudade das piadas, das conversas, do sexo, dos cheiros e de tudo que é bom e se ilude pensando que a relação era só isso e a pessoa vira uma santa. Você não pensa “que saudade dela me enchendo o saco por ciúmes idiotas de eu ter brincado com uma loira bonita, como eu adorava discutir por razões idiotas….”

E por mais que você pareça sofrer pela perda do outro, por esse alguém que sai da sua vida, no final, é o sentimento mais solipsista possível, você sofre por você e para você mesmo. É como se aquela existência da outra pessoa na sua vida tivesse alguma obrigatoriedade ou dependência com você, como se o mundo fosse parar em solidariedade ao seu sofrimento numa tarde branca de neve em um Thanks Giving em Nova Iorque, ou como se alguém, além de você dentro da sua bolha pessoal e única de idiossincrasias e interpretações de tudo que existe fora da bolha, pudesse entender através de uma conversa de 5 horas na Praça São Salvador, de um texto feito de palavras no Ornitorrinco, de uma peça que você escreveu, ou através de qualquer forma de tentar expressar tudo que está dentro de você, como se alguém pudesse realmente entender esse sentimento dentro de você. É um sentimento que você nutre por você mesmo, e não por quem se foi. Seu sofrimento, seu sentimento de abandono, sua incapacidade de aceitar mudanças, tudo seu.

Quando alguém sai da sua vida geralmente não é muito divertido, as mudanças e a tristeza que vem nesses momentos nunca são tão naturalmente aceitas quanto a alegria de um momento bom. Só que elas são importantes e lembram você que é necessário vivenciar o luto, luto de alguém que morre, real ou simbolicamente, de uma parte de você que morre, pra poder renascer. E um dos problemas é que todo mundo quer renascer, mas como se renasce sem morrer? E ninguém quer morrer. A gente quer se agarrar ao que quer que pareça seguro, mesmo que seja aquela corda que te impede de cair, mas que está amarrada em volta do seu pescoço.

Isso me lembra aquela parábola dos dois monges que vão atravessar um rio e chega um moça que pede ajuda para atravessar. Um deles ajuda a moça, só que os monges faziam votos de jamais tocar em mulheres. Horas depois o outro monge vira pro que ajudou a moça irritadíssimo: Você carregou aquela mulher! O outro responde, sim eu carreguei, mas deixei ela lá, você continua carregando ela até agora.

Por mais que não pareça feliz o fato de alguém que sai da sua vida por um acidente, que parece ser mais incontrolável que as duas “formas de sair” anteriores, ainda assim o único que temos que carregar é o livre-arbítrio de como lidamos com essa saída. Você não está condenado a sofrer ou ser feliz, (por pior ou melhor que pareça esse fim) você só está condenado a ser livre para escolher como vai lidar com isso.

Esse momento que alguém sai da sua vida, isso de chegar aos finais, é duro porque te lembra que você está navegando em um barquinho precário, à deriva e com um furo no fundo. Ele pode naufragar a qualquer momento, e vai invariavelmente naufragar, nesse mar cheio de vontades e correntes que é a vida. Navegar é opcional e o mar agitado assusta, mas mar calmo não faz bom marinheiro. Eu escolho navegar.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

* Foto do topo: ‘Os Amantes’ – Rene Magritte

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Informação

Publicado em 24/12/2013 por em Franco Fanti.
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