ORNITORRINCO

TOPLESS E OUTROS ASSUNTOS

Fui criada em uma família legal, com pais legais abertos ao diálogo e às descobertas com respeito. Sou a única filha menina, entre dois irmãos. Meus irmãos sempre foram razões do meu viver, o mais velho como exemplo, o mais novo, muitas vezes, como “experimento”. Cuidei muito de todos eles, e necessariamente sempre vi minhas diferenças como mulher para além das brincadeiras preferidas. Via que minha vontade e vocação para criar pontes entre os conflitos, em querer colocar todo mundo deitado na mesma cama para ver um filme e coisas assim, era maior do que a deles.

Minha mãe é, e sempre foi, uma mulher forte. Uma mulher. Eu aprendi que ser mulher era assim, ter três filhos, criar os filhos dos amigos, os amigos dos filhos, levar pra escola, pro inglês, pra natação, para a festa do fim do ano, ter um casamento legal baseado no respeito mútuo e no amor, ter uma boa carreira – no que você gosta e ser respeitada por isso –, enfim, para mim, crescer e virar mulher era virar a minha mãe, ser capaz de lidar com tudo – filhos, marido, carreira, casa, conforto, férias. Tudo com maestria e sem se despentear. 
Agora que cresci e sou uma mulher, olho para essa imagem da minha mãe e penso o quanto ela “atrapalhou” minha adolescência, o quanto ela influenciou as minhas escolhas de adulta e como tudo isso agora parece bobo. 
Mas, calma, comecei a escrever esse texto, acredite se quiser, para falar de topless nas praias do Rio! Acho que para falar disso precisamos entender essa mulher do hoje, do agora, do Rio, do Brasil, do mundo, de mim.
O movimento feminista ganhou muitas batalhas nesse um século de luta. Temos, quase, todos os direitos iguais aos dos homens, apesar de ainda termos muitas diferenças e batalhas para vencer. Quando ainda era uma menina, lembro do quanto demorei para entender que havia diferença entre nós e os meninos. Claro que eu via um amigo pelado e entendia que nossos corpos eram diferentes, mas daí ver uma diferença lógica, demorou. Talvez não tenha chegado até hoje. Ainda me encontro com dificuldades em entender porque uma buceta (xoxota, vagina, se preferirem) se diferencia de um pau (piru, pênis, ou o que melhor couber na sua boca). 
Espera, não me entenda mal. Aos olhos eles são bem diferentes, e em funcionamento, provavelmente também, mas em função são bastante similares… 
Nunca achei o homossexualismo estranho, nem o afeto, nem o corpo do outro. O outro, pelo contrário, sempre me interessou. Sempre, mesmo. Lembro da minha mãe, como toda “boa mãe” dizendo “Senta de tal maneira, porque é maneira de menina”,  “Seja uma boa moça…”, e tantas outras frases que eu nem sei se ela sabe que disse, mas que foram criadas com ela, e ela passou para mim quando criança.
Aos nove anos virei moça, menstruei. Nenhuma amiga tinha passado por isso, a minha mãe ainda não tinha conversado comigo, eu era mesmo muito nova e de repente estava saindo sangue de mim. Achei que ia morrer, achei que estava mesmo muito doente. Uns 2 anos, no máximo antes, um tio-avô tinha tido tuberculose e saia sangue dele quando ele tossia. De repente saía sangue de mim quando fazia xixi, tive a certeza que iria morrer. Provavelmente a minha primeira experiência de gênero tenha se dado aí, quando me vi achando que ia morrer e depois entendendo que não, que todas as mulheres passam por aquilo. O fato dos meninos da minha sala não terem que usar absorventes e não terem cólicas, tudo aquilo me parecia muito injusto. A explicação da minha mãe era “Um dia você vai ser mãe e tudo vai ter valido a pena”, a matemática simplesmente não fechava. Para uma menina de nove anos, como que a ideia de um dia ser mãe – tudo que eu não queria – poderia fazer todo aquele sacrifício valer a pena? 
Comecei a desconfiar que ser mulher era dar de cara com muitos conceitos que não faziam sentido. Foi bem nessa época que meus peitos começaram a ficar diferentes dos dos meninos, e ganhei da minha mãe meus primeiros Tops de presente para usar embaixo do uniforme branco da escola. 
Foi nessa mesma época que fui proibida de dormir no mesmo quarto que os meus primos e amiguinhos da escola, foi nessa mesma época que minha mãe começou a se dedicar as frases do tipo “Toma cuidado”, “Não coloca essa saia”, “Cruza as pernas”.
De repente, eu, solta, livre, sem distinções de gênero me deparei com um monte de diferenças entre garotas e garotos. Eu não era mais menina. 
Foi nessa mesma época que comecei a ouvir gracinhas nas ruas. 
Não vou me esquecer, o misto de excitação e medo que aquilo gerava. 
Até que as gracinhas tomaram forma, e de repente, homens, homens mesmo, muito mais velhos, falaram coisas que eu não estava pronta para ouvir, provocando inesperadamente um dos mais indesejáveis dos sentimentos, o medo. 
Não vou nunca me esquecer a primeira vez que senti medo de alguém, simplesmente por ele ser homem, e eu não.
Assim entendi, como acho que todas nós entendemos em algum momento, que por mais direitos que possamos ter ganho em lutas feministas através dos tempos, homens, muitos homens, violam mulheres, abusam de suas forças de tantas e inúmeras formas. 
E eu, nós, aprendemos a lidar com o nosso medo. Eu aprendi, a atravessar uma rua mais vazia quando houvesse um aglomerado de homens, aprendi a não entrar em um bar cheio de homens, aprendi a abaixar a cabeça ao passar por algum homem em uma rua vazia, aprendi a não responder as inúmeras cantadas e “fiu fius” que ouvia. Assim foi uma adolescência com o medo constante, evidente e pulsante. Medo de ser mulher. Medo de ser objeto de desejo. Acho que essa foi a fagulha, o dia que comecei a ter forças de responder a um “fiu fiu”, o dia que parei de abaixar a cabeça e comecei a pensar “Como faz?” 
Como faz para criar um mundo em que as mulheres não sejam criadas para ter medos dos homens e se portarem para que eles não as machuquem, mas sim um mundo em que os homens não machucam.
Não sei responder. Penso nisso muito. Talvez todos os dias. 
Sempre que estou com uma criança, penso nisso. Como aprender em um mundo tão violento e em que as mulheres estão estampadas e vendidas como objetos para serem consumidos (por homens e mulheres) como ensinar aquela criança a amar, cuidar, querer bem.
Acho que uma das maiores lutas que travo dentro de mim é a luta de não repetir esses padrões que foram repetidos comigo, como não ser a “boa moça”, a que senta com a perna na posição perfeita, usa a saia na altura certa, acena com a mão como a Miss… Como ser EU no mundo, para além de uma imagem construída de mulher, que vai desde o casamento, filhos, carreira, cabelo, unhas, peito, bunda, sem cheiros, sem desejos demais, nem de menos, sem vícios.
Enquanto escrevo tudo isso me pergunto se ser homem seria melhor, não sei. Acho que não.
Sei que não. Quer dizer, não me entenda mal, só sei falar do que é ser mulher, e mesmo assim, falo como uma nova mulher, uma mulher em sua primeira fase, em construção inicial, refletindo o que é ser mulher. 
Nessa busca por um mundo em que as mulheres possam ser criadas sem ser pelo medo. Que a nossa forma de nos proteger, como espécime de nós mesmos, não seja terrorista. Acho que esse caminho de começar pela ideia de lidar de forma mais natural com nossos corpos. 
Nasci no mundo da internet, da televisão, dos celulares, da academia, do silicone. Para mim, as mulheres eram divididas em dois grupos. As mulheres normais, como a minha mãe, tias, amigas. E as mulheres das propagandas, das revistas, da TV. Esse segundo grupo tinha as unhas que eu queria ter, o cabelo que eu queria ter, a bunda que eu queria ter, as pernas que eu queria ter, a barriga que eu queria ter, os peitos que eu queria ter, o sorriso que eu queria ter. Fui adolescente querendo ter coisas, pedaços de mulheres que não eram eu, não eram meus exemplos, não eram a minha mãe, e que não eram mulheres reais. 
Esse defeito de imagem que eu via ao olhar para o espelho, somado ao medo constante da presença ameaçadora do masculino é parte do cálculo para a fórmula da infelicidade adolescente (ainda bem que a adolescência passa).
O Topless é só uma prática. Na verdade, na verdade, essa repercussão toda é bastante ridícula, pense bem, mamilos, todos nós temos. Mas sim, nesse mundo em que as mulheres ainda tem medo dos homens e que os homens ainda compram mulheres nas revistas, nas ruas, todos os dias a todo o tempo, nós ainda temos que “nos dar valor” através das frases tantas vezes repetidas e pelas quais fomos educadas. Ainda somos vistas como moeda de troca (e olha que estou pensando apenas de dentro de um país sul-americano ocidental, nem me atrevo a me alongar à cultural mulçumana e outras). 
Nossa forma de agir ainda é influenciada e subordinada pelo fato de ser desse ou daquele gênero.
Nesse mundo, nesse rio, nesse eu, o topless ainda causa estardalhaço.

Quando me propus a escrever algo íntimo, meu, sobre esse assunto, me deparei com a certeza de que quero ser mãe, quero ter filhos, independente do sexo, do gênero, da orientação sexual deles, quero que eles não se sintam moedas de troca, quero que eles não sintam medo de serem quem são.

Ana Rios é atriz e produtora cultural.
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Informação

Publicado em 21/12/2013 por em Ana Rios.
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