ORNITORRINCO

O ADEUS AO HERÓI, UNPLUGGED

Foi sugestão do próprio Kurt Cobain que o cenário do show MTV Unplugged in New York, exibido pela primeira vez há exatos 20 anos, fosse como de um velório, com lírios negros e velas. É claro que hoje, sabendo que Kurt poria fim a própria vida quatro meses depois, é impossível assistir ao acústico do Nirvana sem entende-lo como uma despedida. No entanto, esse espantoso concerto velou, em certa maneira, a própria ideia do mito do Rock, tão peculiar ao século XX, que também se despedia.

Kurt Cobain foi o último de uma longa linhagem de heróis – aqueles que desafiam as noções musicais, mercadológicas e comportamentais estabelecidas, para nos mostrar quem somos, gritar que podemos mais, e de forma mais livre. Naturalmente que todo discurso apocalíptico está sempre sujeito à derrota pela mera imposição dos fatos. Assim, torço para que amanhã um novo artista venha calar esse parágrafo, mas a impressão que o agora decanta é de que ao mundo não interessa mais o surgimento de heróis. Hoje, o mercado, o marketing e os meios de reprodução são os únicos artistas, revelando o óbvio: discutimos horas sobre onde, como, por quanto e quão rápido podemos ouvir um novo disco, mas quase nada sobre o que ele é, diz, o que representa, o que nos faz sentir. Vitória dos que só querem o cifrão contra os que preferem mastigar o coração.

Amy Winehouse poderia ser considerada uma representante pós-Cobain dessa estirpe, mas sinto que faltou à cantora uma outra obra prima como Back To Black para garantir sua estadia perpétua nesse olimpo. O cálculo é simples, e usarei a carreira de David Bowie como termômetro e exemplo: se um artista lançasse um disco elogiado pela crítica, com três ou mais clássicos instantâneos em seu repertório – como Hunky Dory, quarto álbum de Bowie, com Changes, Oh! You Pretty Things e Life on Mars? – e conseguisse êxito comercial suficiente para que a mídia não pudesse ignora-lo, esse disco então poderia ser considerado um marco – tal qual Back To Black, de Amy. No entanto, se esse mesmo artista repetisse esse feito em mais um ou dois discos ao menos – como fez Bowie com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars e depois Aladin Sane – então era quase certo que ele se transformaria em herói. Acredito que Amy Winehouse seria capaz de tal feito, tivesse tido tempo, calma ou cafuné suficientes para suportar o mundo sobre os ombros e dar sequência à sua obra.

Contudo, não era só de grandes discos que se faziam os mitos. Junto disso, era preciso que se protagonizasse ao menos um momento histórico. Uma cena, um gesto, um instante icônico que revelasse e ao mesmo tempo confrontasse a face profunda de seu tempo – que desafinasse o alarido da época e espelhasse a dor e a delícia de quem assistia, ouvia, de quem vivia. Bowie o fez quando apresentou a liberdade sexual andrógena de seu personagem alienígena Ziggy Stardust na TV, quando do lançamento da canção Starman, mas os exemplos podem ser muitos. Hendrix queimando sua guitarra no festival de Monterey, Elvis rebolando na TV pela primeira vez, Dylan eletrificando o folk no festival de Newport, os Beatles dominando os EUA e o mundo no Ed Sullivan Show, o Sex Pistols lançando God Save The Queen no dia do jubileu da rainha, Caetano Veloso discursando contra tudo e todos no festival da canção de 1968, e assim por diante. O momento que confirmou a vaga do Nirvana, e principalmente de Kurt Cobain, nesse seleto grupo – após o êxito de público e crítica dos discos Nevermind e In Utero – foi seu acústico MTV.

Gravado em um só take, sem repetição alguma para a correção de erros e imperfeições – quase regra em discos ao vivo – o MTV Unplugged in New York contrariou qualquer fórmula comercial em sua feitura. Nenhuma das exigências costumeiras feitas pela direção da MTV foi respeitada pela banda. No lugar de seus célebres conterrâneos de Seattle para uma grande festa grunge, como queria o canal, quem participou do show foi a então obscura banda Meat Puppets. No repertório, somente um grande sucesso, Come as You Are, e quase metade das canções apresentadas eram versões – e praticamente nenhuma delas, conhecidas do grande público. Afora The Man Who Sold the World, de David Bowie, o show trouxe três números dos Puppets, além de Jesus Doesn’t Want me for a Sunbeam, dos Vaselines e, para encerrar, Where Did You Sleep Last Night, a canção que, através da violência gutural da voz que se rasga (principalmente nas estrofes finais, quando Kurt salta uma oitava acima), definiria o sentimento do concerto e daquele contexto histórico: a angústia contida forjada em beleza e em dor, a dura impressão do fim por vir, a ambição desmedida da desesperança, nossa própria perversão de não desviar os olhos do destino, o salto absoluto de quem realmente acredita não ter nada a perder. O tal momento.

Originária do final do século XIX, Where Did You Sleep Last Night era, até então, não mais que uma tradicional canção folk sem autor conhecido. Comumente associada ao compositor negro norte americano Leadbelly – que a imortalizou com diversas gravações nos anos 1940, nas quais Cobain se inspirou para sua releitura – naquele Dezembro de 1993, no entanto, ela se tornaria definitivamente uma canção do Nirvana. Na realidade, não há o que se falar, só o que se ouvir e ver – se alguém aí nunca tiver assistido, largue esse texto imediatamente e corra para o Youtube. Não houve bis. Não era possível se fazer nada após o suspiro e o arregalar de olhos de Cobain antes de seu último urro. O encerrar dessa canção oriunda das raízes da música americana foi simbolicamente o apagar de luzes da carreira do Nirvana, e dos sonhos rebeldes do século XX significados pelo rock. O último herói se despia diante do público e assim se despedia – e quando um herói se despede, nós também damos adeus a uma parte importante e profunda de nós mesmos.

Nitidamente nervoso durante todo o show, Kurt pediu para que seus amigos mais íntimos fossem colocados na primeira fileira. Reza a lenda que, após a apresentação, ele teria perguntado aos seus companheiros de banda o porquê da seriedade nos rostos do público durante todo o concerto. A resposta, diante do futuro que lhe esperava, foi de arrepiar: porque eles pensam que você é um profeta; olham pra você como se olhassem pra Jesus, disse Dave Grohl, irônico e preciso. Esse teria sido a única vez em toda sua carreira, segundo o baterista, em que Kurt admitiria que haviam realizado uma grande apresentação.

O acústico do Nirvana é o mais significativo momento da mais importante banda da década de 90 porquê driblou os rótulos e excessos publicitários impostos pelo mainstream, e revelou aos que ainda não haviam notado um interprete e compositor raro – e tudo isso, sem qualquer concessão mercadológica, seguindo somente o faro do artista. O show foi um super sucesso de público e crítica por fazer, sob o holofote mais intenso do objetivo mais comercial, justamente o contrário do que se espera de um produto. Foi um sucesso por não parecer em nada com um – e por ter um artista do naipe de Cobain à frente desse gesto de rebeldia e liberdade. Feito um kamikaze, o Nirvana invadiu as estruturas para, ao menos por uma noite, explodi-las por dentro.

É tão improvável o horóscopo necessário para o aparecimento de uma banda como o Nirvana, que é impossível prever quando, como e se um novo herói poderá ainda surgir. A verdade é que para coisa nenhuma nessa vida há previsão – e ainda mais, diante de uma indústria fonográfica como a de hoje, tão moribunda e tonta. O tempo poderá dizer melhor se Amy Winehouse foi ou não, afinal, um desses animais. E, mais ainda, se os gênios, os heróis, até mesmo se a força das canções caminham para a extinção ou para um ressurgimento. Vale lembrar que essas mesmas previsões apocalípticas foram feitas ao virar de cada página relevante da história do rock – e contrariadas na página seguinte. Porém, o herói exige tempo, estômago, coragem, confusão e reflexão em troca do afago – até sangrar – que sua obra nos faz. Assim, é possível que seja, tenha sido, já foi, lembram? Those were the days, my friend – até que o próximo herói venha nos calar e nos revelar, fora de qualquer explicação ou previsão. Assim eu espero.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 18/12/2013 por em Vitor Paiva.
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