ORNITORRINCO

A POÉTICA MINIMAL

O minimalismo urbano não é um gênero, tampouco uma vertente na poesia, talvez “uma temática” seja a melhor definição para essa expressão lírica. É válido notar que este termo não ocorre entre os seus autores, mas foi cunhado somente para esta pequena análise e resenha. Não é função deste texto enumerar autores e criticá-los em seus pontos fracos, afinal, quem escreveu estas palavras pensa que este momento, mais do que nunca, não é adequado para subjugar alguém a um senso crítico feito à distância; antes disso, é um tempo onde a união de pessoas, com interesses em comum, torna-se fator de solidificação de tal interesse, enquanto objeto de estudo: no nosso caso, a poesia.

A vertente minimalista da poesia atual evidencia um fato a ser notado: este é raro um momento na história da poesia (e até da literatura) em que tantas pessoas tiveram uma mesma temática em comum. O curioso, e até um fator negativo, é que tal temática não é uma decisão de grupo, mas uma manifestação coincidente, apesar do isolamento na produção artística neste século.

O minimalismo urbano se mostra como uma manifestação do individualismo e da solidão dos tipos humanos nas cidades, paradoxalmente, unidos por meios virtuais que, inclusive, são os maiores responsáveis pela propagação da poesia nova. Pragmaticamente (mas sem axiomas), esta temática é dada pela implosão de lugares-comuns no emprego de palavras e expressões já institucionalizadas com o passar dos anos, pela ausência de pontuação ou mero uso moderado, pela abordagem de situações triviais e cotidianas, pelo uso de primeira pessoa ou tom intimista em terceira, pelo escapismo ou tentativa de obter o bucolismo, pelo coloquialismo e pela expressão de uma visão de mundo pessoal culminando na imersão de certa imagem poética.

As imagens geradas na poesia nova emanam da (não-)vivência da última geração e não apresentam pretensão de crítica, tampouco de adulação: a mensagem visa exprimir algo gradativa e cotidianamente preso no homem moderno, ou melhor, retirado a golpes de cutelo. Ainda assim, a poética minimalista se mostra retórica por exprimir a própria dificuldade de comunicação do homem contemporâneo, além da ausência de elementos naturais ou sentimentais no que ele vê e aspira: isso se converte, logo, em uma expressão não de um tempo ou de um momento em suas carências, mas em uma poesia que parece ter sido escrita com o intuito de agradar e de ser entendida por um único leitor: quem escreveu.

O último parágrafo não significa uma pedra condenando tudo o que se refira a temáticas semelhantes; antes disso, o apelo feito para que esta visão não seja unilateral ou não seja a expressão da falta de pesquisa estética ou da falta de diálogo exterior. O minimalismo urbano é temática atualíssima e expressão legítima (“Toda canção de liberdade vem do cárcere” – Gorch Fock via Mário de Andrade), mas como ausência de pretensão se mostra mero meio, jamais um fim, é justo dizer: não subjuguemos a quem amamos.

Das imagens criadas no minimalismo urbano, muitas são precisas em sua sutileza, e isso é inegável, e se postam contra a fleuma diária entre edifícios e automóveis, mas de uma maneira meramente idiossincrática, ao largo do que pensa o outro ou do que vê o outro em sua vizinhança, desta forma, critica o egoísmo-comum sendo artisticamente egoísta.

Certos pontos da linguagem são esclarecedores a respeito da vertente aqui dissecada: O uso do singelo e do coloquial aproxima a poesia da rua e do dia-a-dia, sendo este um dos pontos de maior valor da poética nova; a implosão do lugar-comum sinaliza a continuidade de um processo poético que vem desde o começo do modernismo, passando pelo concretismo (seria esta poética atual uma filha bastarda de Décio, Augusto e Haroldo?) e desaguando no século XXI; o tom intimista da poesia a retira de um pedestal simbolista e dá continuidade ao processo modernista de vanguarda, além de confirmar a tendência de ser a poesia a arte mais produzida, apesar de a menos consumida, como sinalizou Décio Pignatari, pintando nuances do minimalismo. Em suma, o que se retira deste parágrafo é o fato de não ser a poética atual inválida em seus meios, mas, sobretudo, em seus fins.

Como manifestação artística, a poesia minimalista urbana é justa com a história da arte em qualquer aspecto, por isso é necessário que se afirme: a crítica aqui feita recai sobre a visão de que o minimalismo urbano seja um caminho inevitável para a poesia, assim como se taxa o pós-modernismo como o fim da história da arte. Em tempos de segregação humana, a arte (por conseguinte, a poesia) pode ser a maneira de contatar o outro, de religar as coisas e não somente de expor a problemática ou a carência*. É notório que o modernismo foi, sobretudo e em geral, uma forma de desestabilização com pretensão de criar desconforto, mas quando se trata da poesia, principalmente da brasileira, o marco do qualidade foi o diálogo com a humanidade, com o outro ou com a ontologia**.

Na poesia brasileira, o outro sempre foi o alento. Nas artes brasileiras, a poesia sempre foi o alento. A relação de reciprocidade entre homem e arte alcançou um patamar único no modernismo brasileiro: qualquer homem consegue, até hoje, se ver na confusão harmônica de Sentimento do Mundo, consegue sentir a singeleza de Manoel de Barros e Mário Quintana, consegue ver a sociedade em que vive nas cores de Mário e Oswald de Andrade: as obras que visam um diálogo com o outrem se tornam, se bem sucedidas, fatalmente atemporais.

Termino reiterando toda a remissão contida no texto: passo ao largo de extremismos, não me assumo correto em momento algum, tampouco hermético em minhas posições (porém sempre me questionei se a credibilidade de certos teóricos emana de sua convicção constante, enfim). O que digo é uma questão passional, não na forma de possível Messias da poesia, mas na forma de homem que adoraria aplaudir quem, porventura, se dispuser a protegê-la dos modismos, dos aforismos, da obsolescência, das intempéries…

*Expor a problemática é, sim, uma forma de contatar o outro, a depender da forma como isto é feito: com a linguagem do outro, com o que há em comum com o outro, com a evidência do que é diferente em relação ao outro; ótimo.

**O que não significa que não haja a possibilidade de novos marcos na qualidade artística, mas isso eu deixo na mão dos artistas de nosso tempo, eu confio muito neles: quem ama discorda e todo aquele empirismo sentimental que não convém aqui.

Manoel da Rosa é poeta.

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Publicado em 17/12/2013 por em Manoel da Rosa.
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