ORNITORRINCO

A NOVA CASA E OUTRAS MUDANÇAS

Mais um dia sem internet. A frase pode parecer o inicio de uma música do Racionais Mcs, mas a verdade é que ela resume a minha vida há 10 dias, o tempo exato em que me mudei para a casa nova.

Mudar de ares é bom, mudar de casa é melhor ainda, mas essa é a minha quarta casa em um ano, então o que pode parecer ótimo apenas se tornou traumático.

Antes que você pense que eu sou cigana ou vida louca demais e por isso estou sendo expulsa de apartamentos, eu explico:

Cada uma das mudanças teve um motivo completamente diferente. Em novembro do ano passado venceu o contrato de aluguel do apartamento que eu morava com meu namorado.

Na época eu pensava: mudar de casa pela segunda vez com alguém que você ama é tipo renovar os votos. Você tá prometendo que vai ficar junto por mais um tempo, ou pelo menos que o amor terá que sobreviver ao período de um aluguel padrão. Trinta meses de alegrias.

Mas não foi o meu caso.

Em quatro meses de casa nova, me separei. Portanto quatro meses depois do caminhão de mudança ter estacionado na minha rua, já era hora de sair de novo.

Mudar de casa com alguém que você ama é tipo
renovar os votos. Você tá prometendo que vai ficar 
junto por mais um tempo, ou pelo menos que o amor 
terá que sobreviver ao período de um aluguel padrão.
Pedi asilo na casa de uma grande amiga justamente no bairro de onde tinha saído. Mas não dava pra me apegar. Meu quarto já tinha sido prometido para outra pessoa, logo a situação era temporária e assim vivi dois meses com minha vida e meu coração encaixotados com um aviso em neon de “CUIDADO, FRÁGIL.”

Mas a sorte bateu a porta e fui morar com outra amiga querida que vivia em um prédio que carinhosamente chamava de Castelinho. E como o castelinho era bom…

Minha amiga estava lá há 10 anos e o espaço cabia tudo o que eu tinha levado e ainda havia lugar para sonhos e realizações que eu conquistaria ali, naquele pedaço delicioso da Fonte da Saudade.

Mudança número 3, sem problemas, vim pra ficar. Agora tinha endereço e me sentia o ultimo biscoito do pacote quando chegava alguma coisa no meu nome pelo correio.

Até que o Castelinho ruiu.

O proprietário ligou em pessoa para a minha amiga e pediu o apartamento de volta. Eu só habitava o castelinho há quatro meses e já era hora de sair de novo. Segurava a onda da minha tristeza quando lembrava que ela morava ali há 10 anos e que tinha suas memórias preferidas ligadas aquele apartamento. E assim começamos juntas a procurar um novo lar para nosso casamento bem sucedido de amigas fiéis.

Sem tempo pra nada a gente fazia um malabarismo insano para acompanhar as ofertas igualmente insanas de aluguel na zona sul carioca. Algum canto charmoso que coubesse nossa vida, nossas caixas e não custasse petrodólares.

Perdemos dois apartamentos antes de chegar aqui, de onde te escrevo agora. Mas acredito que toda essa saga teve seu valor, pois nos trouxe para um predinho sem porteiro com vista para árvores e grafitis em um bairro que eu sempre quis morar.

Mas aí era hora de desempacotar.

Dois dias de mudança, gastrite, ansiedade, alergia, organização, e tínhamos tudo no lugar, menos os serviços básicos para a sobrevivência de uma escritora freelancer.

E foi aí, senhores, que começou a saga das instalações.

“Senhora, preciso saber a altura, tamanho e profundidade.” Do meu coração, da minha cabeça ou da minha cômoda?

Fecho os olhos e tudo o que escuto é o buraco da furadeira. Eu cheguei ao prédio há 10 dias, o suficiente para os vizinhos amaldiçoarem as próximas 3 gerações da minha família. Você acha que freelancer é aquela pessoa que pode ir ao cinema em horários esdrúxulos? Sim, porém o freelancer também é aquele que passa as tardes esperando o mestre de obras, a cortina, o móvel, “Godot”. É a questão é que em 60% das vezes nenhum deles chega.

Uma vez Ele comentou comigo que não queria ver, porém tinha curiosidade em como eu era quando ficava com raiva. Eu disse que era difícil me tirar da casinha, mas quando eu saia, o bicho pegava.

Falei mais pra tirar onda de brava “personalidade labrador é o caralho, meu nome é Zé pequeno, porra”. Mas um dia aconteceu. Mais precisamente no domingo, ao telefone com o mestre de obras que teimava em cobrar muitos reais em uma pintura mal feita, feia, cheia de defeitos. Comecei com um educado “meu senhor” e terminei vendo turvo.

Descobri que quando estou com muita raiva eu vejo turvo. E rezei pra ele realmente nunca me ver dessa forma.

Brian Jones, Hendrix, Kurt Cobain e Janis Joplin morreram aos 27 anos. Enquanto todo mundo fala que tem medo da maldição dos 27 e quer logo passar dessa idade, o que eu quero é passar da maldição dos 5 meses em cada apartamento e poder mudar o endereço com tranquilidade, na minha agência de banco (até porque faço 28 anos em alguns dias).

Deixando a reclamação de lado, encontro uma forma de apaziguar a cabeça e focar nas coisas lindas que tem acontecido.

Tenho a sorte de ter a melhor flatmate do mundo e amigos que abrem a casa para me oferecer carinho e wi-fi gratuito.

E um predinho sem porteiro, de frente para uma árvore enorme que ainda vai ser testemunha das próximas (muitas) histórias que eu vou viver aqui.

Oremos.
Paula Gicovate é escritora e roteirista.

*Foto do topo: Ilustração da Lidia Sánchez Esteban
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Informação

Publicado em 16/12/2013 por em Paula Gicovate.
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