ORNITORRINCO

GLAUBER, GRACILIANO, E A CRÍTICA AO MONOPÓLIO DO DISCURSO

Cada um a seu tempo e a sua maneira, Graciliano Ramos e Glauber Rocha destacaram a importância da palavra, do discurso ideológico, como instrumento essencial no processo revolucionário. Ambos foram homens politizados, socialmente engajados, que desejavam mudanças radicais no Estado e na Sociedade.

Graciliano chegou a ser prefeito de Palmeira do Índios, cargo do qual tomou posse em 1928 para renunciar dois anos depois; assumindo logo em seguida o cargo de Diretor da Imprensa Oficial do Estado de Alagoas, do qual também se demitiria futuramente. Chegou a fundar uma escola nas dependências de uma igreja e ser nomeado Diretor da Instrução Pública de Alagoas, sendo demitido posteriormente por conta de sua prisão, em 1936. Suas ideias comunistas incomodavam as autoridades. Graciliano passaria um ano na cadeia sem processo ou acusação formal, dessa experiência surgiria o livro “Memórias do Cárcere”.

Ambos eram nordestinos, conheciam bem a região 
menos favorecida no Brasil desde tempos imemoriais.

Glauber Rocha, por sua vez, limitou-se à arte, ao cinema, mas carregava no sangue o mesmo comprometimento de Graciliano. Ambos eram nordestinos, conheciam bem a região menos favorecida no Brasil desde tempos imemoriais, conheciam bem as dificuldades do sertanejo, a seca, a fome, a fé que tomava o homem e o sustentava na falta de qualquer perspectiva; vale lembrar que pelo menos três décadas separam as maturidades artísticas do escritor alagoano e do cineasta baiano; vale mais ainda lembrar que, de Graciliano a Glauber, pouco tinha mudado no Brasil, portanto, não é surpresa que homens com as mesmas preocupações apontassem problemas semelhantes e, em muitos casos, os mesmos problemas que se arrastavam e se arrastam até os dias de hoje. Ambos viveram sob governos fortemente autoritários, com suas particularidades, é claro; não cabe aqui comparar os governos de Getúlio Vargas com os governos que sucederam o Golpe Militar de 1964; mas, compreendendo que eram governos que restringiam a ação popular, a liberdade de expressão e a manifestação de interesses, fica mais fácil situar as duas épocas como mais ou menos semelhantes e nos permite traçar um paralelo entre a produção literária de Graciliano Ramos e o cinema de Glauber Rocha.

A obra de Glauber Rocha é uma faca de dois gumes, por um lado ela nos ensina, nos mostra uma dura realidade e tenta nos transformar, por outro, ela nos critica, mostra nossas fraquezas, e muitas vezes nos rejeita. “Cabeças Cortadas” é um exemplo de completa exclusão do espectador, ou pelo menos uma tentativa de fazê-lo olhar para outro ponto que não apenas seu universo social ou individual; algumas cenas de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” fazem o movimento contrário, a ponto de o personagem Corisco — cangaceiro que deseja vingar a morte de Lampião — olhar para a câmera e dialogar com o público.

A obra de Glauber Rocha por um lado ela nos 
ensina, tenta nos transformar, por outro, ela nos 
critica, mostra nossas fraquezas.

O discurso de Glauber Rocha é mordaz; carrega uma poesia que vai da escolha narrativa, dos planos escolhidos, dos cenários utilizados nos filmes até ao diálogo dos personagens, que fogem ao simples regionalismo e passam a concentrar um grande teor literário. Os personagens de Glauber Rocha falam como se tivessem todo o tempo a obrigação de lembrar ao público o quanto é importante cada uma das palavras que estão proferindo. O protagonista de “Terra em Transe”, Paulo Martins, é um poeta e jornalista, o que faz desse filme um palco onde melhor se pode observar toda a veio poética de Glauber, bem como os discursos do Beato Sebastião, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Os dois personagens são mostrados como portadores do poder, pois carregam a capacidade de se expressar e formar opiniões; é Paulo Martins quem impulsiona a candidatura de Vieira e molda sua imagem de salvador dos pobres, a partir de seus discursos e publicações na imprensa. O Beato Sebastião espelha a figura de Antônio Conselheiro, que, a partir da fé e do apelo moveu multidões em nome de uma causa. Esses personagens são o que se pode chamar de porta-vozes nos filmes citados, mas uma coisa inesperada acontece em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o Santo Sebastião acaba morrendo; então surge na trama a figura de Corisco, que de certa maneira substitui Sebastião, assumindo seu posto de detentor do poder e do discurso, o interessante é que Corisco, além de propor diálogos com o público, dirigindo-se a ele — olhando para a câmera — mais de uma vez ao longo do filme, também se desdobra e conversa consigo mesmo, com seu espírito, segundo ele, o espírito de Virgulino, e dá asas a monólogos extraordinários. Os demais personagens de Glauber, coadjuvantes ou não, caminham ao redor do porta-voz, e, à medida que se afastam dele, tornam-se mais fracos, mais apagados, mais silenciosos, mais esquecidos; tornam-se parte do cenário, mas não são exatamente imprestáveis, não são apenas remendos na narrativa, são ferramentas extremamente importantes para a compreensão do que é proposto nos filmes em que se pode notar essa estrutura.

O povo em “Terra em Transe” é subjugado e não tem voz; quem tenta se desviar desse caminho sofre as consequências; um dos agricultores representados no filme cobra as promessas feitas por Vieira durante as eleições, mas ele não sabe se expressar, ou não tem o direito de fazê-lo; primeiro ele é agredido por Paulo Martins, o porta-voz, mais adiante o agitador é assassinado, e Glauber nos mostra o quanto pode ser difícil a busca pelo discurso, pela mudança a partir da simples iniciação de um diálogo com o poder. Manuel também tenta destruir o porta-voz, contudo, ao questionar as ações e as palavras de Corisco, é repreendido por Rosa, que o agride, lembrando-o de que ele deve permanecer no seu lugar, esse é o papel que lhe cabe dentro da narrativa, ele não poderia impedir o porta-voz de seguir seu destino até a autodestruição; tanto Corisco quanto Paulo Martins — podemos incluir aqui o Beato Sebastião — vão até o fim seguindo seus ideais e propagando suas palavras, eles têm o poder até mesmo no que diz respeito à forma trágica como acabarão, vítimas de suas próprias ações.

Pode-se dizer que Graciliano Ramos seguiu por outro caminho para chegar ao mesmo lugar; ele também quis, em seu romance “Vidas Secas”, mostrar a importância do discurso e da comunicação, explorando, nesse caso, a ausência dele na vida do ser humano. Em primeiro plano temos a seca; o sofrimento pela falta de recursos e trabalho; o abuso de poder dos fazendeiros e do Governo, a lista de isotopias é enorme, e, ao longo do romance, tomamos pequenas injeções — frases, episódios, pensamentos — que comprovam a preocupação de Graciliano com a comunicação.

Graciliano Ramos quis em “Vidas Secas”mostrar a 
importância do discurso e da comunicação, explorando 
a ausência dele na vida do ser humano. 

Fabiano, é um vaqueiro analfabeto, que tem uma esposa semianalfabeta, ambos criam filhos que não têm a oportunidade de ir à escola. Fabiano “utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia ao brutos — exclamações, onomatopeias.” Tanto ele quanto sua esposa, sinhá Vitória, repreendem os meninos quando se mostram muito curiosos e perguntadores. Fabiano conhece seu lugar, ele é um vaqueiro, não precisa saber falar, só precisa sobreviver.

Fabiano é o tipo de personagem que poderia muito bem se encaixar num dos filmes de Glauber como esses agentes que não têm acesso ou direito à palavra, que estão aí para incomodar, para mostrar que quanto menos expressão tem um homem, mais é pisoteado e humilhado.

Quando o vaqueiro se desentendeu com um soldado por conta de um jogo de cartas, “ouviu sem compreender uma acusação e não se defendeu”, foi levado à cadeia, apanhou. Graciliano expõe nesse episódio todo seu pensamento a respeito da questão. Fabiano sabia que muitas coisas estavam erradas.”Ele não podia explicá-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Tomás da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas.”

Graciliano Ramos põe em jogo a condição do homem que não se expressa como deveria, que se reduz ao status bestial, e está, portanto, sujeito a todo tipo de vilipêndio. A cachorra chamada Baleia faz esse contraste tão necessário e é uma peça de extrema importância na estrutura do romance. Quando Baleia se aproxima de sinhá Vitória para acariciá-la, a dona de casa a rejeita, dá-lhe um ponta pé; a cachorra “se afasta, humilhada e com sentimentos revolucionários.”

Tanto Graciliano como Glauber Rocha chamam a atenção para o fato de que a revolução não se faz apenas com intenção, sentimento e utopia, mas com debates, discursos. A revolução, nesse sentido, pode ser simplesmente a tomada de consciência, o reconhecimento do quão é importante se comunicar, produzir cultura, reconhecer os objetos do mundo e traduzi-los em busca de uma interpretação comum a todos numa determinada sociedade.

Danilo Diógenes é estudante de literatura.

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Informação

Publicado em 10/12/2013 por em Danilo Diógenes.
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