ORNITORRINCO

NELSON MANDELA, SARAVÁ!

Tudo o que acontece no mundo me lembra alguma coisa ligada ao futebol. Acabei de ver a notícia da morte de Nelson Mandela e não foi diferente. Mandela dispensa apresentações, sua luta contra o apartheid e pelo fim da segregação racial é mundialmente conhecida. Um sujeito que ficou quase 30 anos preso, numa cela minúscula, podendo receber apenas uma visita de 30 minutos por ano, e que saiu disposto a perdoar e a unir um povo. Seu nome de batismo é Rolihlahla Madiba Mandela – o Nelson veio da tradição inglesa de substituir os nomes africanos por nomes de grandes personalidades inglesas. No entanto, ter continuado a usar o nome Nelson mostra seu desejo de um país que fosse do encontro e não da guerra. Eu sempre prefiro pontes à margens. Mas isso é história que qualquer Wikipédia conta.

Não conectei Mandela com o futebol por conta da Copa do Mundo de Futebol, que há 3 anos aconteceu por lá. O que me levou ao futebol foi a excursão que a Portuguesa Santista, a Briosa, fez à África em 1959. Mas o que isso tem a ver com Nelson Mandela? Foi por causa da Briosa que um importante fato ligado à luta contra o apartheid aconteceu. Em 1959 a delegação da Portuguesa Santista fez uma excursão vitoriosa pela África. O time disputou 15 jogos e venceu todos. Ganhou aquela altura a fita azul da FIFA, um prêmio para os times que ficavam invictos em excursões internacionais. No entanto, uma das partidas nunca aconteceu.

A África do Sul não era parte do roteiro da viagem do clube paulista, mas já que estava ali pertinho resolveram dar uma passada. O duelo seria contra uma seleção local. Mas não foi nada fácil para o time brasileiro entrar na África do Sul. Na chegada ao país quatro atletas negros do grupo (Nenê, Guilherme, Bota e Jorge) foram impedidos de desembarcar na Cidade do Cabo e foram obrigados a seguir separadamente até Lourenço Marques (atual Maputo, capital de Moçambique). O constrangimento foi enorme, mas foi no vestiário, antes da partida, que o clima esquentou. Um representante dos Sul Africanos entrou dizendo que ali naquele país branco jogava contra branco e preto contra preto e que os atletas negões da Lusinha tinham sido mandados para outro país para ficarem de fora. O vestiário veio abaixo. Voou cadeira e chuteira pra todo lado. Os brasileiros gritavam que aquilo ali era um grupo fechado, uma família que jogava unida, que se um fosse impedido de jogar por causa da cor da pele então ninguém jogava. No entanto a pressão dos Sul Africanos ali presentes para a realização da partida era enorme.

Os brasileiros gritavam que aquilo ali era um 
grupo fechado, uma família que jogava unida, 
que se um fosse impedido de jogar por causa 
da cor da pele então ninguém jogava.

A cor da pele definia tudo na África do Sul naquele tempo. Os Sul Africanos foram classificados por cor, o casamento interracial era proibido, a cor da pele dizia se você podia votar ou não e onde você poderia ser ou não enterrado. O racismo existe no mundo todo, de muitas formas, mas o racismo de estado talvez seja o mais cruel e violento. O estado está aí para, no mínimo, prever e assegurar que todos tenham os mesmos direitos. “I have a dream…”

Era fácil imaginar a indignação dos brasileiros diante de tudo isso. Em 1959 craques negros como Leônidas da Silva, Zizinho, Didi e o Rei Pelé já eram ídolos. Imagine um desses sendo impedidos de entrar em qualquer restaurante, de votar, ainda mais de jogar em qualquer campo de várzea do mundo? Impossível. Diante da negativa de subir ao campo com um time sem negros a coisa virou um incidente diplomático. Um representante da embaixada brasileira foi chamado para tentar mediar a situação. Mas antes disso uma figura que fugia dos padrões racistas de então entra na jogada. Mr. Patrick Duncan, presidente da Associação Esportiva Sul Africana, envia o seguinte telegrama ao presidente Juscelino Kubitschek:

Opinião pública chocada segregação dividindo team brasileiro linhas raciais. A Associação Esportiva Sul Africana apela para que vossa excelência intervenha e persuada o team a desistir da partida nessas condições humilhantes.

Além do negro Mandela, também existiam brancos, como Mr. Duncan, que lutavam contra a segregação racial. Os Sul Africanos, racistas, achavam que o representante da embaixada do Brasil acabaria com a palhaçada e faria os jogadores entrarem em campo. Mas não foi bem assim, o governo do presidente Juscelino Kubitschek já havia decidido que a equipe não deveria atuar diante do tratamento preconceituoso. Disse o presidente do Brasil: “Não podemos aceitar, de maneira alguma, preconceitos raciais que existam no mundo. Se lá, num país amigo, há preceito legal que obrigue a segregação racial, devemos respeitá-lo mas sem concordar que ele se exerça em relação à entidade brasileira. Desse modo julgo necessário evitar que a delegação da Portuguesa Santista, ora em excursão à África do Sul, se exiba desfalcado de seus elementos de cor. Tratando-se do assunto que diz respeito ao futebol, o esporte nacional, não podemos esquecer que há um ano levantamos o título de campeões mundiais com uma equipe da qual faziam parte Pelé, Didi e Djalma Santos, além de outros, que são motivos de admiração da gente brasileira. Já me dirigi a respeito, ao conselho nacional de desportos e pedi providências à Legação do Brasil na África do Sul”.

O time saiu do estádio e partiu para o abraço dos companheiros pretos, pardos e mulatos que haviam sido segregados. O jogo nunca aconteceu e a Briosa voltou com a fita azul da FIFA pra casa.

O então presidente da CBD, João Avelange, num tremendo gesto de insensibilidade, culpou a Portuguesa por ter saído da rota pré-estabelecida e por não ter o conhecimento das leis daquele país. Respondeu o técnico da Briosa, Zezé Moreira, dizendo-se espantado por não conceber que ainda naquela época existissem preconceitos de tais naturezas, ficando ele ao lado da decisão do presidente da República. O maestro Didi, no Brasil, também falou sobre o caso: “Só me resta pedir a Deus que perdoe as criaturas que ainda guardam preconceitos quanto aos irmãos de outra cor. Que a atitude de nosso governo sirva para mostrar que, em qualquer lugar do mundo, somos iguais e não temos diferenças”. Dá-lhe Didi!

Isso tudo pode parecer um evento qualquer, uma brincadeira de mal gosto feita por garotos preconceituosos num campinho de beira de estrada. No entanto, o pronunciamento do presidente Juscelino, contra o tratamento preconceituoso dado aos seus compatriotas, mesmo sendo em tom moderado bem ao estilo político mineiro, se tornava ali o primeiro pronunciamento oficial, de um país fora da África, contra o apartheid. A Portuguesa Santista excursionou pela África, venceu 15 jogos, mas sua maior vitória foi ter feito um Presidente da República se pronunciar oficialmente contra um regime segregacionista terrível que acontecia em outro continente.

Nessa época Mandela ainda não havia sido preso, mas já estava na linha de frente da luta contra o preconceito e pela igualdade junto com o Congresso Nacional Africano, que em breve seria posto na ilegalidade. O país do arco-íris, com sua bandeira colorida representando todos os povos e tribos, surgiria muito mais tarde pelas mãos de Madiba. Mas fico me perguntando se essa história da Portuguesa Santista chegou até Mandela. Gostaria de ter tido a chance de fazer essa pergunta pra ele, além de dar-lhe um longo abraço.

Vai em paz Mandela, a luta continua por aqui. Saravá!

PS: Em tempo, a FIFI (Federação Internacional de Futebol Imaginário) escala Nelson Mandela na sua seleção de revolucionários. Acho que ele formaria uma bela dupla de zaga com outro negão do barulho, o nosso Zumbi. Nesse jogo valeria uma menção honrosa ao Mr. Duncan, o presidente da Associação Esportiva Sul Africana que peitou o racismo e acabou sendo forçado a entregar o cargo. Zumbi e Mandela estão com você Mr. Duncan. Axé!

Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 06/12/2013 por em Domingos Guimaraens.
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