ORNITORRINCO

AVE MÃE

O início é pernicioso. Calma, já vou chegar lá. Como essa porta que acaba de ser aberta repentinamente. Alguém saberia dar uma definição de tempo? Escuto os passos vindos de longe e isso já interfere no meu ritmo. Há uma disritmia sempre pulsante. Aquilo que faço não é só o que faço. E por mais que escreva individualmente, tudo que em mim se inscreve é fruto, é desoperância, é junção e relação.

Tenho uma tendência a abrir questionamentos infindos, tal qual um filósofo. Minha avó sempre diz que é dotada de tal talento. Dar voltas infinitas que só tendem ao infinito dos porquês. O assunto a que me refiro é sobre o nascer. É sobre a precisão do momento em que se nasce e o que dele se decorre. Pois, do ponto de vista astrológico, a alma escolhe o seu momento de vir à Terra. A partir daquele momento em que se dá o primeiro respiro, ou seja, o primeiro contato aéreo (me faz lembrar os girinos), demarcam então seu futuro. E até mesmo o passado. Isso pra quem acredita. Não entremos nessa discussão.

O fato é que, às vezes, me pego pensando: E se eu não tivesse tomado anestesia? E se eu escolhesse ter meu filho em outras condições (numa floresta, por exemplo)? E etc etc. Isso interferiria no destino? Como assim, destino? A nossa vida é pré determinada?

Como já disse, tenho a tendência de abrir questões que não se fecham. Mas, vamos lá. Desde que virei mãe, se tornou muito natural reviver e reinscrever os meus inícios. Sabe aquele novelo de lã que se transformou em cachecol? Imagina que cada ponto representa um estágio de vida, um nó, um marco. E aí os anos se passam…

Dar vida à outra vida também é outro ponto dentro dessa linha. A linha continua a seguir seu risco, mas passa por regressões. Isso implica em desfazer certos nós. Acontece que alguns já estão tão viciados naquela forma, que o esforço para levá-los a um novo ponto é estúpido.

“Ninguém disse que seria fácil”. Quando leio a Elke Maravilha dizer que setenta por cento das mulheres que têm filhos, não deviam, que educar um filho é o mais difícil e ela não deseja interferir no karma de ninguém, eu respeito.

Afinal, a porta se abriu repentinamente. Os passos se aproximaram e interferiram no meu texto. Pois esse instante já começa a dar lugar a outros. Desde que eu, enquanto alma, passei a habitar este planeta, delimitei um espaço e um tempo. Espaço esse que caiu dentro de outros. E não para por aí…

obs: “Ninguém disse que seria fácil” é o título de uma peça escrita pelo Felipe Rocha (ator, dramaturgo, diretor, músico, cantor e pai de duas meninas).

Bella é cantora e compositora do duo Real Imaginário. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 28/11/2013 por em Bella Meireles.
%d blogueiros gostam disto: