ORNITORRINCO

O MELHOR ESTÍMULO PARA UMA VIDA SUSTENTÁVEL

“Preciso fazer hora no shopping, vamos comigo?”, pergunta a amiga.

Estava de bobeira… “Vamos”, respondi.

Era início de mês e aquela falsa sensação de riqueza ainda reinava no subconsciente coletivo – incluindo o meu. Entre uma loja e outra, as coisas mais desejáveis e instantaneamente necessárias pipocavam em nossa frente. Uma a uma fui resistindo bravamente. Na última loja foi impossível escapar. Entrei sem nenhum objetivo específico, senão acompanhar a amiga na busca por uma vestimenta adequada para o trabalho, e quando dei por mim já estava no caixa com três peças na mão.

“Para, Clara”, pensei. Antes de digitar a senha do cartão, um breve momento de lucidez me fez acordar e olhar ao redor. Nada daquilo era realmente importante na minha vida naquele momento. Respirei fundo e, com as mãos trêmulas e a voz embargada, afastei as peças para longe de mim e pedi para a moça do caixa cancelar a compra. “Eu não vou levar nada”, disse bravamente (e quase em lágrimas). A amiga deu um tapinha orgulhoso nas minhas costas e saímos da loja com ar de vitória.

Nada daquilo era realmente importante na minha vida 
naquele momento. Respirei fundo e, com as mãos trêmulas 
e a voz embargada, afastei as peças para longe de mim e 
pedi para a moça do caixa cancelar a compra.

Levando em consideração o salário recém depositado na conta, posso me orgulhar em atribuir os méritos do auto-controle unicamente à minha nova versão “consumidora consciente”. Porque uma coisa é fato: se no dia 5 todo mundo esbanja como se não houvesse o amanhã, no fim do mês todo mundo se transforma em defensor do planeta.

Me pergunte se eu ia levar tanto tempo pensando “ai me Deus, será que eu preciso mesmo disso?” no fim do mês? Não, não ia. Aliás, nem teria ido para o shopping (não perdi nada lá). Porque é aquilo, a gente é impulsivo, gosta de comprar, mas ainda não é louco de sair gastando o que não pode.

Sejamos francos, não existe estímulo melhor à prática da sustentabilidade do que o saldo vermelho. É ele o grande responsável pelas luzes apagadas quando não tem ninguém no quarto, por pensar duas vezes antes de comprar aquela bolsa marrom super parecida com a bolsa caramelo que você já tem, e por aproveitar as folhas de papel usadas como rascunho na impressora. É, pobreza é o melhor incentivo para um mundo mais sustentável.

E olha que notícia boa, o mundo está cada dia mais pobre. Sim, queridos amigos, podem se alegrar, não estamos sozinhos nessa pindaíba! Nos quatro cantos do mundo, estamos todos no vermelho e a coisa tende a piorar – ou melhorar, a depender do ponto de vista. Teremos cada dia menos água, menos energia, menos comida, menos combustível, menos matérias-primas e menos dinheiro também. Se isso não é uma boa notícia, eu não sei mais o que poderia ser.

Pense que beleza vai ser viver em um mundo em um eterno apagão generalizado? Na mesma hora o povo vai passar a andar de bicicleta, vai inventar um milhão de guias de como economizar energia, gadgets que reduzem o consumo de água, incentivos de todas as ordens para quem economizar acima do obrigatório e, claro, multas para quem usar mais do que pode. Enfim, teremos empresas, governos e cidadãos trabalhando juntos para viver de forma que o planeta seja capaz de suportar

Enquanto esse dia não chega (ou até mesmo para que ele não chegue nunca), vamos fingir que todo dia é dia 30 e lembrar que a fatura desse cartão de crédito que vai chegar para nossos filho vai ser maior do que qualquer poupança milionária poderá pagar.

Clara Corrêa é jornalista.

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Publicado em 21/11/2013 por em Clara Corrêa.
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