ORNITORRINCO

ANTES DE MORRER, NOS CONCEDA UMA ENTREVISTA

“A televisão é a primeira cultura verdadeiramente democrática – a primeira cultura disponível para todos e totalmente governada pelo que as pessoas querem. A coisa mais aterrorizante é o que as pessoas querem”. 
(Clive Barnes – New York Times).

Não me lembro em que dia, horário ou emissora, vi a reportagem. Mas isso pouco importa. Ultimamente tanto faz ligar a televisão – lareira dos novos tempos – num telejornal da Globo, Bandeirantes ou Record. As notícias perecem e parecem (e são) iguais, as tragédias são as mesmas, bem como os interesses comerciais e a disputa sem limites entre essas empresas. O objetivo primário é um só: abocanhar a maior fatia possível de telespectadores. O que muda, quando muda, é o nome do repórter e o nome das fontes ou dos “especialistas” requisitados para legitimar o que se quer dizer. Ultimamente tanto faz assistir ou ler edições de segunda ou de quinta (com o perdão do trocadilho). O valor humano é subjugado pelo valor matemático. O que importa são os números no fim do mês. O quanto se vende resulta no quanto se lucra.

Mas a notícia que vi e que me deixou impressionado trazia um rapaz que havia acabado de sofrer uma batida de carro. Por sorte não aconteceu nada de grave e ele conseguiu sair de dentro do veículo apenas com alguns arranhões. Com a imagem do automóvel completamente amassado, enquadrado em segundo plano, a equipe de reportagem, excitada com a proeza de chegar poucos minutos após o acidente, narrava o óbvio para os telespectadores. A repórter, com uma dicção perfeita e uma maquiagem impecável, nos contava o que nós já estávamos vendo. A questão é que 30 segundos desta fórmula repetitiva é tempo mais que suficiente para fazer quem está em casa querer mudar de canal. 
As notícias perecem e parecem (e são) iguais, 
as tragédias são as mesmas, bem como os interesses 
comerciais e a disputa sem limites entre essas empresas. 
O objetivo primário é um só: abocanhar a maior fatia 
possível de telespectadores. 

Uma fala sincera poderia brotar no meio de todo aquele teatro capitaneado pela moça fantasiada de repórter e este, talvez, fosse o único artifício capaz de fazer o telespectador prender a respiração e até hesitar em apertar o botão do seu controle remoto. Mas a frase não veio. Com um sorriso no rosto e uma entonação que a fazia parecer simpática, a repórter pediu o que já era esperado: que ele relatasse o acidente. A questão é que o cara tinha acabado de pular uma fogueira, nascer de novo, e precisava de um tempo para respirar, se recompor, enfim. Na verdade, a última coisa que ele precisava naquele momento era dar uma entrevista para emissora A ou emissora B. 

Merecedora deste “prêmio” por ter saído a tempo da redação, enfrentado a selvageria do trânsito da sua cidade, o rapaz não tinha escolha: era sua obrigação atendê-la. Ir a um hospital fazer exames, receber os primeiros socorros ali mesmo no local do acidente ou partir para casa com o propósito de se recuperar do trauma, não podiam ser prioridades. Um plantão jornalístico é inegavelmente mais curto que uma vida e certamente mais doloroso que um choque a 100 km/h. O repouso e o atendimento médico à um jovem sempre podem esperar. O telejornal iria ao ar em poucos instantes e a emergência hospitalar funciona 24 horas. 

Ironias à parte, a reportagem teve o mesmo desfecho da que passou no dia anterior e que vai passar hoje, amanhã ou depois na sua TV. Perceba que quase sempre é uma pergunta óbvia e invasiva que provoca uma resposta sincera e constrangida. O que foge deste script não vai ao ar, a não ser num link ao vivo, onde tudo pode acontecer, mas que quase nunca foge do roteiro. O mais estarrecedor, no entanto, é perceber como os meus colegas de plantões e redações são capazes de endurecer – e de perder rapidamente a ternura – a cada pauta que são obrigados a cumprir. Relatam um caso de um pai de família que morreu eletrocutado ou de dois jovens brutalmente assassinados com o mesmo distanciamento que diriam uma receita de um bolo de chocolate ou o resultado do jogo do Brasil. Eu mesmo, depois de passar mais de um ano trabalhando numa redação de jornal, percebi que estava ficando assim.

Num plantão de redação aprendi que não há diferença de melodia na voz do seu superior quando ele lhe diz “quero que você acompanhe as provas do ENEM hoje em Salvador” ou “quero que você vá a um restaurante onde uma mulher foi assassinada a facadas nessa madrugada”. O objetivo para ele, no fim das contas, é o mesmo. Coordenar uma gincana com vários participantes que precisam produzir conteúdo o mais rápido possível. A missão, numa jornada de 10 a 12 horas, é preencher os espaços vazios numa determinada quantidade de papéis em branco que precisam ir para gráfica num horário definido e que, no dia seguinte, vão ser distribuídos e comercializados nas bancas de jornal mais próximas da sua casa. 

Inserido por um tempo nessa lógica perversa, passei por experiências que me fizeram refletir sobre o sentido da minha profissão. Escolho a palavra “sentido” propositalmente, pois ela guarda outras duas palavras importantes dentro dela: “caminho” e “sentimento”. Na minha primeira saída para uma pauta na rua, lembro que fui abordado e ameaçado por traficantes num bairro periférico de Salvador, porque no plantão nos pediram que fizéssemos um registro fotográfico de um senhor que tinha transplantado um rim através de um procedimento cirúrgico inédito na cidade. Eles nem sabiam se usariam a foto, mas nem por isso nos privaram do risco. Não conseguíamos achar a casa dele e entramos numa rua errada e a coisa só não complicou por conta da experiência e malandragem do nosso motorista.

Naquele dia, no meu primeiro plantão, antes de completar um mês de redação, pensei numa frase que nunca mais me saiu da cabeça. Como uma faca rasgando meu peito, ela me acompanhou quando conversei com uma mãe que havia perdido seu terceiro filho para o tráfico; também quando ouvi um rapaz que teve uma irmã assassinada por conta de uma rixa comercial; e ainda dialogando com uma esposa que não teve a chance de se despedir do marido que despencou de uma altura de 30 metros enquanto fazia um bico num fim de semana em Salvador.

Foi num momento de pura ilusão, num misto de dor e deboche que, ao ligar a TV, eu achei que aquela repórter, a mesma que entrevistava o rapaz do acidente de carro, tivesse a coragem de dizer a tal frase. Confesso que quando folheio os jornais na minha mesa de trabalho ou quando ouço rádio no carro, preservo no meu íntimo a esperança de um dia lê-la ou ouvi-la. Vê-la sair da boca de um colega de trabalho selaria uma vitória isolada, porém simbólica e significativa, de um jornalismo mais sincero. 

Uma frase cruel, que me fustiga por inteiro só de pensar, mas que revelaria o real objetivo que move as grandes corporações de comunicação que dominam a informação nos quatro cantos do mundo. Empresas que dizem servir o “interesse público” e produzir “informação de qualidade”, quando na verdade perseguem lucros altíssimos e constroem verdadeiros impérios. Palavras que me tiram o sono, que me causam uma dor latente, que não deveriam ser ditas e que, por isso mesmo, dizê-las seria um ato heróico de subversão neste mundo de pretensas verdades que o jornalismo insiste em nos empurrar goela abaixo. Uma expressão que sintetiza com clareza o que penso sobre a imprensa que temos hoje:

“Antes de morrer, nos conceda uma entrevista”.

Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

*Ilustração no topo: Darren Bader.

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Informação

Publicado em 19/11/2013 por em Gabriel Camões.
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