ORNITORRINCO

NOVO PROGRAMA DO GOVERNO – FORA DAQUI!

Existem milhares de mendigos por aí. Não sabemos de onde brotam, de onde vieram, só sabemos que são sujos, asquerosos, fedorentos e deveriam ser mortos e triturados para serem transformados em sabão.

Seria a possibilidade de acabarmos com dois problemas de uma vez só: 1) não termos mais que ficar cruzando e vendo esses nojentos nas nossas ruas; 2) teríamos mais sabão a ser usado pra limpar os pobres que fedem a manteiga, porque não têm dinheiro para comprar sabão sem passar fome.

Ainda bem que existe quem não pense como eu e você, gente que têm soluções melhores e se preocupa de verdade com esses porcos inúteis (os mendigos, não os pobres). O governo do estado, em uma parceria super inédita com a prefeitura do Rio, lançou mais um programa para solucionar mazelas como esta. Inspirado em um quadro de grande sucesso do programa Cláudio Ricardo, “De volta pra onde você nunca deveria ter saído”, o programa vai se chamar “FORA DAQUI!” Vai pôr muito fedorento pra picar a mula. Graças a Deus!

Absurdos como este não vão mais acontecer depois do Fora Daqui!

O novo programa finalmente fez alguma coisa de bacana pros mendigos. O “Fora Daqui!” leva eles de volta para suas origens, para suas famílias, ou para as ruas distantes, bem longe do Rio. Caso o mendigo não tenha família, ou não saiba mais se é gente, não há problema, ele é cuidadosamente jogado no município a menor distância do local em que ele foi encontrado.

E não é pouca bobagem esse programa não. Não bastasse toda a generosidade governamental, os xexelentos inclusive voltam de ônibus da prefeitura com ar condicionado. O ar condicionado não funciona, mas são todos ônibus com ar.

Esta sim é uma bela medida do governo para acabar com a sujeira nas ruas. Pense você naqueles dias em que está com sua esposa e um ser asqueroso desses passa te olhando, ou pior, pedindo alguma coisa, de ambas as formas se portando de maneira inconveniente. Assim, o “Fora Daqui!”, apesar de custar cerca de 60 bilhões aos cofres públicos, nos poupa muito.

Dois exemplos de obstáculos que não teremos mais que superar depois do Fora Daqui!

Primeiro, o “Fora Daqui!” nos poupa de termos que dar um fora daqui simbólico, muitas vezes gastando até R$ 5,00 em comida ou esmolas. Também nos poupa energia e precioso tempo que gastaríamos para nos esquivarmos desses chorumes humanos em uma caminhada circular mais longa, finalmente, nos poupa de visões desagradáveis na nossa rotina.

Uma outra perspectiva que se deve destacar do “Fora Daqui!” é que ao ser carinhosamente despejado em novo logradouro, existe maior probabilidade do nojento maltrapilho ser notado e receber maior percentagem de esmolas ao dia, justo por ser um elemento novo na paisagem.

Fui às ruas como repórter para perguntar aos mendigos o que eles achavam da medida. Graças ao “Fora Daqui!” não encontrei nenhum na zonal sul da cidade. Na verdade encontrei um, mas preferi não perguntar.

Um dos que já havia encontrado, mas não terei mais que encontrar, é um mendigo repugnante que ficava perto do posto de polícia do Largo do Machado. Muitas vezes ele estava simplesmente em pé, olhando pra diagonal, ao lado da banca, na direção da 2 de Dezembro. Frequentemente ele ria olhando para o nada ou olhando para as pessoas. Dá no mesmo. Eu achava que ele era louco porque frequentemente o olhar dele vagueava sem direção, mas parece que não era bem isso.

Um exemplo de gastos desnecessários que o Fora Daqui! vai nos poupar.

Ele era de cor marrom escura, cor de chocolate amargo, olhos vermelhos, levemente bochechudo. O cabelo tinha uma coroa careca, um buraco no topo da cabeça, quatro dreads de 20cm de largura e de tamanhos diferentes, sempre com resto de folhas secas ou comida. As roupas eram pretas, ou estavam sujas que pareciam pretas. A lateral da calça estava tão rasgada que dava pra ver o pau dele de lado. Ele fedia. Fedia bastante.

Muitas pessoas, como você e eu, passam e simplesmente passam. Não tem uma reação de “oh! que nojo” ou “nossa! que fedor”, ou ainda “meu deus, dane-se esse ser”. Nenhuma. Não há mais reação. Assim temos aí mais uma contradição nos que foram contra o programa, afinal porque eles se incomodam com a remoção de lixo se eles mesmo nem viam este lixo? Não é absurdo? Eu mesmo só prestei atenção a este bicho e anotei todos estes detalhes por puro deleite jornalístico.

Há uma sensação de ser um fantasma, uma alma penada vagando, sem saber que está morto. E, de fato, ele fedia como um defunto apodrecendo, mas não estava morto. Ele estava muitas vezes em pé frente à galeteria, vivo, olhando o fluxo de pessoas. Bom, agora com o “Fora Daqui!” Não está mais.

Ufa!

Finalizo pedindo perdão, caríssimo leitor. Sei que usei palavras e vocabulário chulo e posso ter ofendido, nesse caso, peço perdão. Mas o fato é que falar de morador de rua é só uma desculpa, um eufemismo pra atenuar nossa culpa, porque morar não é bem o caso aqui, né? A mesma culpa implícita daqueles dois reais ou daquele salgado com refresco que você tinha que pagar antes do “Fora Daqui!”, mesmo que não tivesse vontade real de pagar, mesmo que na verdade fosse só para que aquele ser de mau gosto saísse do seu raio de visão. Sei que fui e estou sendo um pouco duro com as palavras no uso de agressividade para falar desses gigantescos coliformes fecais, perdão se causo raiva e indignação.

Convenhamos, no entanto, meu nobre e caro leitor, se eu e você realmente estivéssemos indignados com a situação destes pobres seres asquerosos, acredito que estaríamos fazendo muito mais do que um texto chamando a atenção para estas pessoas (eu), ou lendo e se indignando com minhas palavras ironicamente duras (você). Não se trata, óbvio, de um programa do governo sistemático, senão de açòes desenvolvidas dentro desta perspectiva de “higienização” da cidade.

Um grande beijo e “Fora Daqui!” neles!

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 15/11/2013 por em Franco Fanti.
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