ORNITORRINCO

ARTE, CAMINHO, EMANAÇÃO

Viajei a Machado, sul de Minas Gerais, a convite de Euclides Terra. Fiquei três dias na sua chácara a 20 minutos da cidade. Ele mora nesta casa antiga que foi de seus avós. A casa estava abandonada e a família queria vendê-la. Euclides se instalou aqui e fez pequenos consertos para tornar a casa habitável, mas um desavisado pode pensar que a casa continua desabitada. As paredes descascadas e marcadas pelo tempo são mantidas assim por Euclides, que vê suprema beleza no trabalho que os fungos fizeram. A casa é grande e, numa espécie de porão que parece ter sido usado como senzala em tempos sombrios, Euclides junta coisas que parecem não ter qualquer utilidade, porém, olhando com mais cuidado, se percebe que uma certa lógica colecionista organiza o conjunto por categorias, como pedras com manchas, pedras lisas, tábuas comidas por cupim, tábuas com marcas de obra, tábuas com tinta descascando, etc. Há também objetos antigos da família colocados em baús de madeira.

Euclides divide seu tempo entre o trabalho na horta, práticas de meditação e o trabalho de ateliê. Nestes três dias, falamos de toda sorte de assuntos. De política, religião, de coisas da vida, de arte. A maior parte das conversas não foi gravada. Aqui, faço um breve apanhado destas conversas, sintetizando e sistematizando algumas coisas. Se não foi exatamente o dito, é bem próximo do que ele poderia ter sido.

Equanimidade

Euclides Terra: Tem alguns conceitos budistas que me inspiram muito na vida e na arte. O primeiro é este de equanimidade, que significa não julgar as coisas, as pessoas, as circunstâncias. Não se apegar ao bom nem execrar o mal. Porque a vida é fluxo e transitoriedade. E o que está na raiz tanto do apego como da aversão é o medo. É o medo que gera esta sociedade de escassez. Porque existe abundância hoje no mundo para não existir miséria ou fome. Se ainda vivemos com estes males, é devido a um sistema de acumulação desenfreada.

Juca Amélio: Mas você não está julgando o sistema ao dizer isso?

ET: Equanimidade não significa ser passivo ou não ter senso crítico. É uma postura interior. Se está quente, eu posso abrir a janela. Mas quando não está em nosso poder mudar algo, temos um refúgio interior. De perceber as sensações internas e saber que isso também passará.

Arte/vida

ET: A arte ocidental é profundamente individualista, egoísta e hierárquica. Todas estas ideias de gênio, de original, de único, de especial, de exclusivo são questões que não são da arte, mas da cultura ocidental. Uma cultura baseada em aversão e apego, bom e mau, superior e inferior, ganha e perde. A própria distinção entre arte e vida vem desta cultura de aversão e apego. Todo o sofrimento é fruto desta fratura, deste corte. No budismo, ao menos nas linhas que eu estudo, Nyingma, Shambala e também no zen, a arte faz parte da vida, é parte do caminho, do Dharma. Viver tem de ser belo. A maneira de viver, de andar, de morar, sei lá. Tudo tem de ser feito com arte e com devoção. A devoção ao belo é uma maneira de manter a atenção plena e a presença desperta de que falam os mestres. E isso é o oposto de um design utilitarista por um lado e de uma arte desinteressada por outro. Quando digo arte na vida, não quer dizer que tudo seja útil, mas é uma arte comprometida com a vida.

De todas as coisas boas que ainda vamos fazer juntos – homenagem a Kandinsky
Euclides Terra, 2013
Madeira

JA: Isso não seria um apego ao belo?

ET: Acho que não. Daí entram outros dois conceitos: metta e mudita. Metta é o amor, é a alegria de viver, a bondade básica do mundo. Mudita é o se alegrar com a alegria do outro, ter prazer por ver o outro ser feliz. Desejamos a felicidade, não uma coisa num futuro vago, mas a felicidade em cada momento. Existe o bem como um objetivo, o que não se quer é o apego à forma de como chegar a ele. Uma aceitação da sabedoria maior. De que não temos controle e somos parte do todo.

Dharma / anarquismos

ET: Eu tenho um entendimento do Dharma como o caminho da verdade no budismo e em outras religiões. E cada um tem o seu Dharma, que é o caminho sincero e devotado às ações diárias. Meu caminho da vida é o caminho da arte, que é o mesmo caminho da espiritualidade.

Eu me considero um anarquista. Admiro figuras como Henry David Thoreau e B. Traven. Cheguei a militar em alguns partidos de esquerda que não vale citar aqui. Mas a estrutura do comunismo é tão materialista quanto a do capitalismo. E as relações de poder que se processam nestes partidos são tão caducas que me desiludi deste caminho e optei por um certo isolamento. Talvez isso seja uma fraqueza de caráter. Tento compensar este isolamento com o trabalho voluntário na escola municipal. Ensino as crianças a pintar, falo de meditação, de respiração, de política. E, de resto, passo a maior parte do tempo sozinho. Depois de alguns dias sozinho, você começa a falar com as plantas e paredes e aos poucos começa a entender o que elas dizem. Entendo isso como um trabalho sobre si mesmo. Arte deve ser um trabalho sobre si. Conhece-te a ti mesmo, já dizia Sócrates. Este é o meu Dharma, o meu caminho.

Emanação

ET: Outra ideia inspiradora na tradição da arte budista é a emanação. As formas emanam. Tudo emana. Assim, eu repito um mantra e estou emanando esta forma. Já viu aquelas bandeirinhas coloridas tibetanas com orações escritas? Então, quando o vento bate e elas se movem, estão emanando aquelas palavras. Ou na entrada dos templos no Tibete, que existem uns cilindros de metal com estas formas; você, quando passa, gira o cilindro e é como se estivesse repetindo aquele mantra; você espalha aquela forma pelos ares, emanando… Isso é um podem mágico que você vai encontrar na Cabala esotérica. Mais um exemplo de como se percebe isso é que em muitos templos se constrói a Tulpa, que é um vaso grande, cheio de livros, que não são para serem lidos, mas para emanarem, ou, nos templos colocam uma estante cheia de pergaminhos sagrados que emanam. E se os livros, bandeiras e pergaminhos têm este poder, que dirá os quadros! Dessa maneira, há toda uma tradição de estudo sobre as formas sagradas. Falamos de formas sagradas porque no Tibete tudo é sagrado. Não tem essa divisão. Eu entendo que tudo emana. Sua roupa, as árvores, a forma da casa ou a cor carro estão emanando. Vivemos em meio a uma enxurrada de emanações infinitas e escolhemos sermos replicadores destas frequências como antenas retransmissoras. O mundo está em um estágio de transformação muito acentuado. Todos, mas principalmente os artistas e os criadores de imagens, têm de se responsabilizar por suas emanações.

Pôr do sol junto ao cais – homenagem a William Turner
Euclides Terra, 2013
Madeira

JA: Esta metáfora que você usa de transmissão, recepção, emanação, que lembra os sistemas de rádio ou tv, me confunde um pouco. Se tudo emana, por que eu me conecto com um canal ou com outro?

ET: Eu não entendo como uma metáfora, mas como uma experiência concreta. A mente está a ver e entender somente o que já conhece. Como um texto em língua estrangeira: sua mente não vai entender. Não porque não esteja escrito, mas porque você não está preparado para entender. Então, estão passando por mim frequências de todo o tipo e todas me afetam, mesmo que muitas eu não compreenda. Não estando consciente disso, a tendência é se alinhar com as frequências mais baixas e reproduzir padrões de comportamento mais brutos. Com a meditação, me torno consciente dos meus próprios padrões de pensamento, das minhas próprias limitações e posso começar a escolher me alinhar com frequências mais altas, recebendo e emanando.

JA: Mas como se faz isso?

ET: Não sei se estou falando de maneira muito filosófica, mas é uma coisa concreta. Meditação é experimental. A experiência de estar vivo. Parece que temos o costume de partimos sempre do indivíduo. Assim, alguém teve a ideia, realizou uma ação, etc. Penso diferente: que fazemos parte de uma rede maior e que nem as frequências, nem as ideias, nem as ações são propriedade de ninguém, mas que elas passam por nós. Temos escolhas, somos pontos ativos desta rede e podemos ancorar as ideias e materializar as ações que nos pareçam melhor em cada momento. Dessa forma, eu não tenho de ir pra dentro de mim mesmo buscando a originalidade da minha essência, mas aprender a fazer as perguntas, porque para receber respostas é preciso fazer a pergunta e sintonizar com as frequências que respondam. E temos é de aprender a ser canais, de nos aprimorarmos para canalizar o bem maior.

Da pintura à coisa em si

ET: Eu aprendi a pintar copiando obras clássicas e barrocas de livros. Fiz alguns cursos em Ouro Preto com bons pintores. Mas era uma covardia tentar reproduzir uma pintura em que o pintor usou 20 tons de ocre com os quatro ou cinco tons da minha paleta. De toda forma eu era apaixonado por aquilo. Depois voltei para cá para esta chácara e me propus a pintar. Tentei com muito afinco retratar algumas paisagens daqui, mas aí a covardia era ainda maior num barranco onde você encontra mais de 200 tons de ocre. Daí que eu me dei conta de que a pintura não ia me satisfazer, que eu queria o barranco como ele é. Queria poder vê-lo como arte. Tentei a fotografia, mas era inútil; nada seria tão potente quanto a coisa em si, fruto de um processo de milênios em que estamos apenas vislumbrando um breve instante. Eu comecei a coletar coisas depois deste pensamento. Eu não podia ter o barranco ou a montanha, que já são monumentos em si, então comecei a juntar pedras, pedaços de madeira, e todo tipo de objeto arqueológico.

JA: Daí, na exposição do Grupo UM você vai expor esculturas de madeira?

ET: Sim, separei algumas destas tábuas marcadas e também quero levar este forno antigo em ruína que hoje serve de abrigo a estas plantas. [Mostra-o.] Ao forno, eu dei o nome de “Monumento à internacional suprematista – homenagem a Malevitch”

JA: Que semelhança você vê entre este forno e a obra de Malevitch?

ET: Eu admiro muito o gesto de Malevitch, vejo que ele, como eu, também chegou no limite da pintura, de onde se almeja ver Deus. Ele pintou um quadrado preto, que seria o máximo da não representação. Eu, em homenagem, ofereço este monumento, este cubo verde em ruínas, que é uma metáfora do mundo que, quando parece que vai acabar, ressurge a vida. E o velho aduba o novo.

JA: E qual o título das tábuas?

ET: Esta é “Pôr do sol junto ao cais – homenagem a Willian Turner” e esta se chama “De todas as coisas boas que ainda vamos fazer juntos – homenagem a Kandinsk”. A menor é “A galáxia a e casa – homenagem a Chagall”.

JA: Três russos eu um inglês!

ET: É, não pensei muito nisso. Escolhi estas três que são especiais para mim. Mas com cada uma das tábuas que tenho aqui, eu quero homenagear um grande pintor.

JA: E como você fez estas marcas?

ET: Não fiz marca alguma. Encontrei cada tábua assim, no máximo tirei um pouco da poeira. Elas já estavam perfeitas quando cruzaram o meu caminho.

Juca Amélio é curador e crítico de arte.
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Informação

Publicado em 15/11/2013 por em Juca Amélio.
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