ORNITORRINCO

LOUCA

Sempre ouvi essa palavra. Desde pequena. Aí agora resolvi entendê-la melhor para que possa saber afinal quem sou eu e quem são vocês.

Em uma mesa de bar, de repente, me vejo frente a frente com um antigo professor meu, do jardim. Ele era professor de música. Aí ele disse “Alice era maluquinha”. Ok, até aí tudo bem mas isso puxou na minha mente quantas vezes fui chamada de louca. Um dos meus amigos mais próximos esses dias me chamou de Maria Louca. Em homenagem aquela querida que um dia veio fugida de Portugal. Louca, louca, louca. Maluca ou enlouquecedora? Qual é o parâmetro?

Sou filha de psicóloga. “Tá explicado!” alguns de vocês vão pensar. Mas não é tão simples assim. Não que eu queira ser normal. Só não quero dar trabalho, sabe? Sei lá, eu dou trabalho no palco mas não quero ser um problema na vida das pessoas. Ou então qualquer pessoa é um trabalho por si só.

Conviver faz-nos sentir loucos e deduzir que os outros também são. Depois de muito conversar, minha analista disse “Você não está rasgando dinheiro!”. Adotei essa expressão. Porque é isso mesmo, eu não rasgo dinheiro. Posso ser louca, mas louca até a página dois. Não sei mais ao certo se o estado xamânico da existência em que me encontro pode ser visto e mal quisto por uns e outros ou se apenas querem rotular essa frequência na qual eu vibro em determinados momentos. Quando precisamos purgar alguns humores, alguns fluídos negros de dentro de nós, temos ferramentas e meios em que esses líquidos (mágoa má-água) possam fluir. Pinto alguns quadros para sentir a descarga elétrica dos neurônios que flui até os braços que fluem até a ponta do pincel. Meu mundo é sensorial. É um crime ver a vida assim? Como as vibrações nos afetam, as micro cordas reverberantes que temos dentro de nós respondem ao mundo interno-externo. Não sei mais onde meu corpo-mente acaba. Se o corpo é a mente, então o que é material? Meu riso é a reverberação da minha intensidade, é como um trovão, aquela eletricidade estática se acumula e vem o trovão-relâmpago do riso. Esse movimento eterno e brilhante. Rir é uma des-carga, é uma des-contração. Purgar humores, encontrar caminhos para isso.

É o que tento fazer. Alguns não compreendem. Lamento muito.

Alice Caymmi é cantora e compositora.

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Publicado em 14/11/2013 por em Alice Caymmi.
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