ORNITORRINCO

SOBRE AMOR, ÚTERO & VERDADES

Vou ousar. Sei que vão me criticar, mas meu tamanho me impede que eu seja moça discreta, então vou arriscar logo. Vou falar de um assunto curioso e já sei até que as críticas virão na seguinte frase: “Mas você não tem filho, Letícia!”. Vou arriscar mesmo assim. I’m a boxeur.

Quem me conhece, sabe. Chapo bonito e chego a quase salivar com bebês. Uma mulher grávida me fascina tanto quanto uma ida ao zoológico e a possibilidade de ver um rinoceronte pela primeira vez. Minha idade está avançando, então, nos últimos anos, muitas amigas tiveram filhos e eu derreto a cada visita, a cada progresso, sou uma tia babona, rolo no chão, roubo beijo. Quero saber do tamanho do cocô, dos avanços linguísticos. A genética me estatela, me catapulta. Esse é meu pai, essa é minha mãe, e eu sou os dois, é mágico, é biologia, é simples. É a tentativa insólita de dois corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço. E conseguir. Nós somos os 2 corpos em 1 só espaço. Que maravilha. Pai & Mãe.
Mas de uns tempos pra cá comecei a ler umas frases postadas no Facebook ou afins que me causaram uma certa apreensão. Coisas do tipo: “Você só entende o verdadeiro amor depois que tem um filho”. Hum. Quando eu era casada e conversava sobre ter filho – nunca no instante, mas beeeem futuramente, Lucas e eu quase prometemos um ao outro que não cairíamos nesse papel. A gente ria, e pedia um para o outro nunca falar essa frase. Sim, ter filho deve ser a maior viagem do mundo, que coisa mais animalesca estava dentro e agora está fora, e oh meus deuses e deusas desse céu! Uau! Mas ei, foi preciso esse homem, essa mulher, e um amor verdadeiro (já falo sobre os falsos) para que esse ser existisse. 
Minha idade está avançando, então, nos últimos anos, 
muitas amigas tiveram filhos e eu derreto a cada visita. 
Esse é meu pai, essa é minha mãe, e eu sou os dois. 
É a tentativa insólita de dois corpos ocuparem o mesmo 
lugar no espaço. Nós somos os 2 corpos em 1 só espaço. 
A cagação de regras me deprime e nem estou aqui cagando mais uma, só estou contestando essa máxima de que só após termos filho é que descobrimos o que é o amor verdadeiro. Então, o amor que sinto por meus pais, meus irmãos, meu ex-marido, meus grandes amigos, não é verdadeiro? De fato, não sei se me jogaria debaixo da ponte pelo meu pai (acho até que ele ficaria puto se eu fizesse isso), e como ainda não tenho filha (aquela que chuta o sexo), não sei se eu me jogaria, acredito que sim pois sou bem darwinista e sigo a linhagem evolutiva mesmo. Mas então é assim que medimos o verdadeiro amor? Através da morte? Meio macabro. 
O ranking do amor é cruel pois acredito na sua imensurabilidade. O grau comparativo só me deprime e não surte efeitos pois ao compararmos pessoas, esquecemos do fato de se tratar de distintos seres humanos, logo a comparação se esvai com um grande som de FÓN. 
Sobre os amores falsos, ok, beleza (mentira), daí até entendo a tal frase ser sentida, declamada ou postada. Sou um exemplo meio ruim pois me dou bem com pai e mãe, então se me perguntam quem eu prefiro, vou rir e achar que voltei para a quinta série. Assim como acharia lindo se perguntassem para meu pai quem é o verdadeiro amor da vida dele e ele falasse que é minha mãe – e não eu, Bernardo e Leo. Nós somos as variáveis desse amor dele e dela. Obviamente nem todos passaram por essa experiência amorosa e genética de maneira iluminada que nem eu e tantos outros. Há homens que foram embora assim que souberam da formação de um zigoto. E de fato, para essa mãe, o verdadeiro amor ocorreu naquela dinâmica criada entre mãe e filho. Ok. E por mais raro que seja, também sei de casos onde o verdadeiro amor surgiu entre o pai e filho. Sim, o pai, aquele que não fica grávido! Portanto não venham com o papo de que “ahhhh, mas a mulher gera o neném, é um elo muito maior do que do pai….”. Fico feliz de não ler tal máxima decretando o amor verdadeiro nos perfis das minhas amigas, leio mais das desconhecidas que me seguem. Arregalo os olhos, sinto o útero oco, mas ainda assim questiono. 
São tantas possibilidades e variáveis de amor em relação à m(p)aternidade, que fica meio ridículo decretar a verdade absoluta em qualquer dinâmica. Querido leitor, você só entende o amor verdadeiro quando você entende o amor verdadeiro. Seja com filho, com pais, mulher ou homem, seja com um animal, o que for, o clique bate em você e parte de você. Parece egoísmo, mas não é. É sobre ser além. É sobre amor. O verdadeiro. 
Não sei se terei filhos, o futuro é pura suspensão, saibam que amarei meu filho com toda força do universo, já amo só de cogitar. Será um amor inédito e verdadeiro? Será. Assim como todos os amores têm sido até então. E se você leu esse texto e pensou que sua vida tem seguido um padrão amoroso ad infinitum até então, toma cuidado. E rebola. Porque ainda dá tempo. Twist your head around, it’s all around you.

P.S.: Sendo cantora, sei que parece ridículo terminar um texto com uma frase de música, mas é que de fato ALL IS FULL OF LOVE. You just aint receiving.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

*Foto no topo: Sarah Bernhard

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Informação

Publicado em 12/11/2013 por em Letícia Novaes.
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