ORNITORRINCO

NOW I WANNA DANCE, I WANNA WIN

Pode ser que tenha visto muitos filmes na minha adolescência, pode ser que tenha vivido muito tempo fora, mas a verdade é que no momento agora, desdenho a minha língua. Português é brega na cama. E atenção, acho a língua portuguesa uma das línguas mais bonitas do mundo para falar de paixão, de amor (dos outros), de saudade de todos.

Ler Camões falando “que amor é fogo que arde sem se ver”, Florbela Espanca amando perdidamente, Antônio Ramos Rosa que não pode adiar o amor “ainda que a noite pese e aurora indecisa demore”, Fernando Pessoa (apesar de o achar tão pessimista e tão tipicamente lisboeta) desconstruindo a mulher virgem “que ama louca e perdidamente porque a fome das emoções é mais terrível do que a da sexualidade”, tudo isso é bonito demais. O português escrito, lido para dentro ou em voz alta, tem uma certa complexidade mística para quem não entoa as últimas siílabas e fala em mono-tom. É, português de Portugal é minha língua-mãe, e para mim o seu ser-escrito é algo maravilhoso, é muita emoção para uma língua que falando não se exalta, não abre o tom.

Mas “cumpriu-se o mar” e o Português do Brasil se tornou minha mãe adotiva. Mãe essa que me encanta com o seu rebolar de coxas. É mais soltinha, às vezes nem segue todas as regras mas é uma língua que se faz e desfaz na boca. O que há para não amar em Caju e Castanha? O que dizer de Cecilia Meirelles que sabe que eu tenho um medo; “Acabar”, e que sabiamente me diz “és sempre o outro, que és sempre o mesmo”. Ou de Drummond que bem sabe “que de tudo fica um pouco, às vezes um botão, às vezes um rato”. Ou Vinícius, eternamente apaixonado, lucidamente diz “que era preciso fugir, para não perder o único instante em que foste realmente a ausência de sofrimento. Em que realmente foste a serenidade”.

É muito amor por essa língua. Como canta Letícia Novaes “quando cê chega é cataploft”, porque é mesmo. Não dá para explicar a felicidade de estar em outro lugar do mundo e de repente, no metrô, no ônibus, na rua sem querer e sem esperar ouvir alguém falar português, é delicinha-de-meu-deus. É relaxamento total do corpo, gostoso demais. É cataploft cataploft cataploft, vontade de sair atrás dos compatriotas de sorriso no rosto.

Como tenho dito “meu português” (sotaque) nunca vai desaparecer (apesar do “meu brasileiro” disfarçar bem minhas origens) e nem meu amor e admiração por uma das mais complexas gramáticas do mundo. Mas, apesar de tudo isso e de todo o resto, sempre achei mais bonito um “I love you” à um “te amo”/ “amo-te”. Normalmente não falo isso para qualquer um, falei só para duas pessoas em meus 25 anos de vida, e não falo muito para não gastar porque acaba perdendo seu peso de moeda de ouro. Mas desde sempre o amo-te me soou brega, telenovela portuguesa barata. E o te amo me soa a novela da Globo – o português nesse momento me soa falso, faz de mim personagem de uma trama que não é minha, em um momento que é para ser de derradeira verdade.

Nunca soube explicar porquê, mas na intimidade dos momentos, minha língua foge para o inglês. Tenho que explicar também que estudo inglês desde os treze anos, por isso é uma língua recorrente em minha vida. Não é psycho-wannabe-mania de querer falar o que não falo.

Mas sempre achei que teria com o inglês uma relação mais professional, de estudo, vá, e não é que ela se instalou no meu lobo temporal medial como aquela a utilizar em momentos de extrema intimidade? Já tentei lutar contra isso, já inclusive tentei falar “te amo”, e já falei, mas sempre me sabe a sabor artificial. Aí meu coração corre para o inglês porque me soa mais verdadeiro.

Comecei falando que português era brega na cama. E não me levem à mal, não acho mal nenhum, e estou bem acostumada a encontrar minha língua amada entre lençóis. Falo que acho brega saindo da minha boca, não que seja muito de monólogos ou diálogos, nem solto um “oh baby, oh baby”. E quando a situação pede, é ao português que recorro. Mas há muita despersonalização no momento. Não parece minha voz, e demora muito tempo para 1) Formar uma frase, 2) Entender que fui eu que falei. Às vezes dá muita vontade de soltar uma frasezinha em inglês, mas já imaginou a situação? Você nem sabe que falo inglês, e ai dou uma de Pulp Fiction e solto um “Now I wanna dance, I wanna win. I want that trophy, so dance good”. Não tem como.

E na falta de melhor, largo a vontade e esqueço as frases.

Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.

*Foto no topo: Robyn Stacey

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Publicado em 08/11/2013 por em Sahara Boreas.
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