ORNITORRINCO

HABITANTES DE SOFÁS

Li recentemente uma notícia muito comentada e compartilhada nas redes e originalmente publicada no site da BBC, de que um grupo de psicólogos ingleses passou a considerar oficialmente a ideia de que a adolescência se prolonga até os 25 anos. Com um rápido passeio pelas ruas da sua vizinhança, analise o comportamento de muitos que já se consideram “adultos” e perceba que não há nada de surpreendente nesta nova orientação que provocou diversas discussões de adultos e dividiu opiniões cheias de criancices.

Os que defendem a legitimação social desta nova orientação acreditam que essa mudança de paradigma ajudará a “evitar que crianças e jovens se apressem e se sintam pressionados a atingir marcos importantes”. A pergunta que faço é: existe realmente pressão? Enfim, o argumento que defende a “mudança” é no mínimo estranho, pois o clima de “não precisa se preocupar” ou “deixa que nós (pais) resolvemos isto” é o que costuma imperar na maior parte dos lares que possuem crianças/jovens em processo de formação e amadurecimento.

Um grupo de psicólogos ingleses passou a 
considerar oficialmente a ideia de que a 
adolescência se prolonga até os 25 anos.

E o resultado deste processo de livrar os filhos de quaisquer responsabilidades, qual é? O que falo pode não ser a verdade completa, posso estar super equivocado, mas o que vejo são crianças de 7 ou 8 anos empunhando iPhones, smartphones e adjacentes de última geração, e que toda vez que vão ao shopping se sentem no direito de ganhar um brinquedo novo. Na primeira negativa que recebem, se tornam pequenos monstros, ofendem os pais e gritam com todos que estão em volta. Pequenos tiranos que desde cedo são mal acostumados a nutrir um falso direito: o de querer e de poder tudo.

Desculpe minha visão fatalista, mas penso que essas crianças amanhã se tornarão adolescentes que não ajudarão a mãe com as compras, não darão o ombro ou a mão para o avô se apoiar e não limparão o prato que sujam, entre outras obrigações mínimas. Depois de amanhã se tornarão “adultos” que furam filas, que não respeitam os sinais vermelhos e faixas de pedestres, que atiram seu lixo nas ruas, que atendem seus celulares numa sala de espetáculos e que fazem barulho onde precisamos de silêncio. Seres que vivem sem considerar o outro e que, em mesas de bar ou reuniões familiares, apenas fingem se importar com o caos e a barbárie que eles mesmos ajudam a provocar.

Pessoas que quando o mundo sinaliza um horizonte de mudança e o povo é conclamado à ir as ruas, como tem acontecido nos últimos meses, vão preferir reclamar que uma passeata em prol de uma causa que não o beneficiará (diretamente) os impedem de chegar em casa a tempo de ver a novela. Pessoas que quando são convocadas a colaborar com a transformação, preferem dormir até mais tarde ou chegar mais cedo em casa para não fazer nada.

Há uma citação que volta e meia eu resgato, pois acho que ela simboliza de maneira bela e precisa o comportamento de uma geração de jovens que tanto reluta em largar o conforto da casa dos pais e de deixar para trás a adolescência: “habitar sofás é só um jeito de preferir não protagonizar o próprio tempo”, assim disse o escritor Ismael Caneppele em um artigo muito interessante que li há alguns anos. Essa conversa toda me faz lembrar termos como a “Geração Canguru” ou “Geração Y”, representada por pessoas que chegam aos 30, 35, 40 e permanecem na casa dos pais. Mais triste e grave do que não ter um compromisso com o mundo onde vivem, essas pessoas não tem compromisso com elas mesmas.

No entanto, a legitimação dessa ideia nociva de uma adolescência cada vez mais longa me dá a chance cretina e irresponsável de considerar que, com 29 anos, tenho apenas 13,8% do meu tempo de vida na fase adulta. Mas nem essa constatação me faz querer retornar agora para a zona de conforto, embora essa tentação esteja sempre rondando o desejo da criança que há em mim. Apesar de ser pai, homem casado, dar um duro danado, trabalhar constantemente dez, onze, doze horas por dia, não tenho o direito de me considerar velho. Da mesma forma, um barbado de 25 anos que não se preocupa com porra nenhuma, não se importa com sua mulher, seu filho, sua cidade, com o bem estar coletivo, não pode ser protegido ou perdoado com o escroto argumento: “é só um adolescente”.

Chegar perto dos 30 é, entre outras coisas, ser tomado pelo constrangimento de sair do mercado e perceber que ao invés de pão, leite e manteiga, você tem na sua sacola de compras um salgadinho, duas garrafas de cerveja e uma barra de chocolate. Da última vez que cometi esta imprudência, entrei num elevador junto com um dos meus vizinhos e fiz de tudo para que ele não percebesse o que aquele par de sacos plásticos escondia. Sou um homem feito de carne, ossos, sonhos e pecados. Só me esforço para que minhas fraquezas não prejudiquem ninguém. Uma lata de coca-cola e um pacote de salgadinho agridem apenas meu organismo.

Para os adolescentes tardios de 20, 25 ou 30, o que eu tenho a dizer é o seguinte. Acho mais digno que vocês se enterrem num sofá e se entupam de salgadinho, refrigerante, cerveja, maconha, ácido, Faustão e Gugu do que a não compreensão de atitudes básicas como parar numa faixa para uma senhora atravessar ou respeitar um sinal vermelho. Assim como respeitar uma fila de banco ou mercado, desligar o celular dentro do cinema. Aprenda a “endurecer sem perder a ternura jamais”. Seja marginal, mas seja herói. Continue filho, mas aprenda a ser pai. Ao cair, lembre-se de levantar. Não deixe morrer a criança que há em você, mas saiba a hora certa de libertá-la.

Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 04/11/2013 por em Gabriel Camões.
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