ORNITORRINCO

A QUÊ E A QUEM INTERESSA QUE TODOS SEJAM RELÓGIOS SUÍÇOS? – DAS AMBIVALÊNCIAS II


Brasília, 2004

Estamos na fila da boate e minha amiga parisiense inicia uma discussão fervorosa com seu namorado sobre a realidade da sociedade brasileira e latino americana em comparação com a europeia. Ela diz não conseguir entender como os pobres e desvalidos se mantém num estado de tamanha prostração diante da perversidade que enfrentam. Defende que a situação das favelas precisa ser radicalmente alterada em nome de uma urbanização planejada e por fim assevera ser inviável defender um discurso que cante a felicidade dessas camadas populares neste quadro social desfavorável.

Enquanto isso, ele, um cantor de rap boliviano, diz que apesar de tudo a felicidade está mais presente nestes territórios marginais do que nos lugares elevados à condição de modelo, onde crê que a maioria das pessoas acaba vivendo um vida encaixotada e tem que tomar remédios para depressão. Avalio a discussão como muito interessante, mas como já estavam levando aquilo para um lugar dramático, com conotações de outra alçada, prefiro não emitir nenhuma opinião e me vem a mente versos da canção de Carlos Lyra e Gianfrancesco Guarnieri, “Feio não é bonito | o morro existe mas pedem pra se acabar (…) | Ama, o morro ama | amor bonito, amor aflito | que pede outra história”.

De fundo noto que não há nada mais infrutífero do que 
todos os discursos que reivindicam a felicidade para si.

Refletindo, considero que ambos se complementam. Ela, acredito, acerta quando observa que a situação poderia ser diferente, mas se engana quando atrela essa mudança a condição indispensável de um discurso legítimo sobre a felicidade. Ele, por seu turno, percebe esta inflexão, mas se apaixona demais pelo argumento da criatividade humana enquanto espaço de resistência às estruturas opressoras. De fundo noto que não há nada mais infrutífero do que todos os discursos que reivindicam a felicidade para si.

Londres, 2010

O dono da agência de serviços de catering para a qual prestava trabalhos eventuais como garçom, me pede que compareça ao escritório para entregar alguns documentos necessários no caso de um evento no interior em que ele pensa em me escalar. Lá me diz que no último job, a gerente do lugar, uma alemã, se queixou do meu humor. Segundo ele seria melhor eu colocar mais sorriso na cara, que aliás eu era brasileiro e que no Brasil as pessoas são amigáveis e gostam de distribuir sorrisos largos, ou eu não era brasileiro?

Incomodado com aquelas observações, respondi que antes de mais nada não fui rude em nenhum instante em que servi e que não se pode esperar que todos os dias o sujeito esteja sempre com o melhor humor possível. Não sou máquina da alegria. Acabei não sendo enviado e descobri, com este e outros episódios e sem abrir mão da minha espontaneidade, que o que se considera um bom waiter na Inglaterra é antes de mais nada alguém que exiba constantemente um sorriso na cara, como os ‘artistas’ de plástico.

Rio de Janeiro, 2013

Acidentalmente reencontro, semanas antes dos protestos que tomaram conta do país, uma alemã que tive o prazer de conhecer durante uma viagem para o turístico destino de Morro do São Paulo na Bahia, na virada do ano de 2006-2007. Pipocam os protestos e ela – que junto com tantos outros alemães que conheço, arrasaram no meu imaginário o lugar comum do germânico frio e sério – se vê acossada na Lapa no dia 20 de junho quando a repressão policial comeu solta.

Me escreve, na ocasião, que foi às ruas e acabou ficando presa num bar onde foi alcançada pelo gás de pimenta que temperava a ordem, expressou que no Brasil o estado de direito não é respeitado. É verdade, no Brasil o estado de direito não é respeitado, mas não foram os protestos que denunciaram essa fisionomia amarga para os brasileiros com o mínimo de discernimento, senão toda nossa história de criminalização da pobreza na cidade ou no campo. Emblemáticos sãos os casos da chacina da Candelária e do massacre de Eldorado dos Carajás.

Diga-se de passagem, essa é a situação recorrente no Rio de Janeiro, hoje laboratório das conhecidas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Projeto civilizatório que, alegando combater o narcotráfico, vem utilizando o vetor quase que exclusivo da bala. Nada que expresse melhor que o estado fluminense, que ostenta a “cidade maravilhosa”, é assentado num aparato de segurança pública dos mais truculentos da federação. Isso, claro, na cota também do fracassado modelo internacional de criminalização das drogas.

Segundo ele seria melhor eu colocar mais sorriso 
na cara, que aliás eu era brasileiro e que no Brasil 
as pessoas são amigáveis e gostam de distribuir 
sorrisos largos, ou eu não era brasileiro? 

Aliás, a truculência é motivo de orgulho para alguns cariocas como prova o sucesso do Bope magnetizado pela representação de “cruéis, mas honestos” – uma espécie de variante de outro lema surrado dos conservadores do status quo: “rouba, mas faz” – estetizada no sucesso de bilheteria de “Tropa de Elite”.

Além disso, vale constatar (sem que sirva de consolo que nunca fui do tipo nacionalista ofendido) que o dito estado de direito, em maior ou menor proporção, vem sendo violado praticamente em todos os cantos da terra nos dias em curso. Basta lembrar os recentes episódios que revelam a espionagem americana por atacado, sem falar nas torturas praticadas nas prisões de Guantánamo e Abu Ghraib, para mencionar só os EUA, principal porta voz e guardião das ditas democracias do mundo.

Essa gentil alemã, que agora está morando aqui, discorreu criticamente em outra conversa sobre os problemas que enfrentamos nos serviços públicos, tema central das reivindicações vistas nos protestos que ela mesma participou. É de assinalar que a insurreição de baixo foco presenciada em junho, mas ainda assim valorosa para escancarar conflitos só na aparência equacionados, veio – sem que seja verdadeiramente uma coincidência – justamente quando se celebrava um grande evento esportivo relacionado ao batizado de “paixão nacional”.

Os que acreditavam no poder irrefutável deste estereótipo barato, devem ter se surpreendido que a própria Copa fosse alvo da raiva indignada dos manifestantes. Mas se nem tudo é falso num estereótipo – temos, embora já não mais como antes, uma relação especial com esse jogo pélvico, que rendeu o seguinte comentário do centenário historiador Eric Hobsbawm: “E quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?” – , ficou claro que nosso amor ao coliseu moderno jamais foi suficiente para nos sentirmos romanos, nem seria possível com a falta de tantas “estradas”.

Num tom crítico, mas não de queixa, comenta adiante sobre um outro vetor de diferenças. Manifesta que os modos de aproximação de homens e mulheres no Brasil e na Alemanha eram muito distintos, assinala que aqui as aproximações têm uma tonalidade muito mais incisiva e pouco parcimoniosa, colocou isso na cota dos homens e faz passar que este comportamento não é interessante, ou pelo menos lhe incomoda.

Não pude deixar de me recordar neste instante da discussão da francesa com seu namorado boliviano e me perguntei, como continuo me perguntado tanto, se é mesmo possível operar um corte entre isso e aquilo, ficando sempre com o que consideramos o melhor de cada qual.

Quero dizer, até que ponto alcançar o tão propalado eficiente “desenvolvimento econômico” não modifica profundamente as formas de nos relacionarmos uns com os outros? O quanto não é necessário em processos desse tipo, abdicar, por exemplo, do que já foi designado como a “originalidade dos indisciplinados”, acrescentando a sinceridade dos que não vendem suas emoções, a sensualidade dos que desejam com lascívia, entre tantas outras características que revelam a diversidade da conduta e da sensibilidade humana e que parecem estar mais presentes em determinados contextos que outros, como acreditava o boliviano no que dizia respeito à alegria ao aproximá-la dos pobres latino americanos?

Os povos, como os sujeitos, constroem o que se pode designar de sua identidade ou caráter ao longo de suas histórias, têm sempre, portanto, a possibilidade de se (re)criarem e serem mais originais, se desejam. Mas sempre encontram como desafios para esta possibilidade tanto a herança de seus passados, como a influência de modelos predominantes do presente. Modelo, atualmente sem plural, que cobra uma uniformização da conduta face à vida nesta configuração de “aldeia global” pautada pelo valor da eficiência na concorrência e que exibe claramente sua presença poderosa em já virtualmente todas as esferas do viver.

Mas não quero ser injusto, alguém acredita mesmo que todos os suíços são ou deveriam ser pontuais como as engrenagens de seus relógios?

Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 01/11/2013 por em Júlio Reis.
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