ORNITORRINCO

TE CONHEÇO DO FUTURO

Se existe uma pergunta que me trava a hora e que admito não ter mais paciência para responder, essa pergunta é: E aí, o que tem feito? Especialmente em festas e confraternizações onde você acaba tendo que respondê-la umas quatro vezes para quatro ou mais pessoas diferentes. Parto da opinião pessoal de que não tenho o mínimo interesse em saber o que o outro está fazendo (exceto algumas poucas pessoas), e que por isso, ao me apontarem essa pergunta, não acredito haver um interesse real verdadeiro, além de ser uma sofisticação do famoso E aí, tudo bem?

Acontece que o “E aí, o que tem feito?”, contém a promessa de que tenho que contar algo interessante sobre o que venho fazendo, fazer o “entrevistador” se entusiasmar com meus feitos, e quem sabe, em alguns casos, causar inveja. Em outros momentos – depende da pessoa – você sabe que tem que responder que não tem feito nada, ou tem feito muito pouco e a vida tá meio sem graça, causando assim um relaxamento no outro. De modo que a resposta para essa pergunta é, muitas vezes, mezzo ficção. Muitos de nós já temos uma ou duas respostas prontas. É um pouco repulsivo dizer isso assim, mas é basicamente o que acontece mesmo. Todos nós sentimos que a vida de alguém é mais interessante que a nossa. Nossa vida, com idas e vindas, altos e baixos, parece rudimentar em relação à vida dos outros. E o pior é que os outros pensam a mesma coisa de nós, mesmo que nunca cheguem a dizer.

A sensação de não ter feito parte de algo. De não ter 
ido para determinado lugar. O que fazer com a vida que 
deixamos de viver? O que acontece com aquelas outras 
infinitas possibilidades de caminhos que, por alguma 
razão, não escolhemos? O que fazer com as 
paixões que não chegamos a conhecer? 

E aí, o que tem feito? Alguém me responde “Acabei de voltar do Butão”, enquanto eu fico trancado no quarto assistindo Mad Men; “Estou rodando o meu longa-metragem”, enquanto passo dias e dias tortuosos pensando em como continuar um texto; “Cansado, trabalhando muito sem parar”, enquanto fico entediado na internet procurando receita de pudim.

Brasil, Rio de Janeiro, noite, festa cheia, pessoas se encontrando, se conhecendo, você conhece a cena. O mais normal são as pessoas se apresentarem umas às outras como em uma entrevista de emprego, dizendo o que fizeram, de onde estão vindo e o que vão fazer. É possível que, para essas pessoas, compartilhar planos e projetos seja mais importante do que viver o presente com o outro. Afinal, nós somos uma mistura da vida vivida com a vida a se viver. Mesmo que a “vida a se viver” seja ainda o sonho de uma vida.

E aí vem o desespero. A sensação de não ter feito parte de algo. De não ter ido para determinado lugar. De não ter conhecido tal pessoa. Já fiquei puto comigo mesmo por não ter tido a coragem de fazer escolhas que deveria ter feito, de não ter me arriscado na escuridão e avante para outra direção. Daí a pergunta fatal. O que fazer com a vida que deixamos de viver? O que acontece com aquelas outras infinitas possibilidades de caminhos que, por alguma razão, não escolhemos? Seja porque não foi possível, porque ficamos com medo (de enlouquecermos, de nos perdermos), ou fomos impedidos (por alguém, por nós mesmos), ou simplesmente um outro caminho pareceu mais fácil, interessante, fez mais sentido naquela hora. E por aí, o que fazer com as paixões que não chegamos a conhecer? Escolher sempre implica abandonar o que não escolhemos.

O mais doloroso é pensar que é possível passar pela vida inteira encontrando as pessoas certas no momento errado, na hora errada, no lugar errado. Ou pior ainda, sem encontrar ninguém.

Uma vez, já faz um tempo, quando eu ainda morava em Salvador, estava em pé no ponto quando um ônibus parou na minha frente e eu olhei para uma garota sentada na janela. Fiquei ali secretamente hipnotizado por ela. Linda, olhando a paisagem atrás de mim. Uma beleza séria, concentrada. Então do nada seus olhos me olharam. Eu sorri e acenei pra ela. Ela sorriu de volta, mexeu nos cabelos. Olhei pro sinal vermelho pulando pro verde. Voltei a olhar pra ela. Rimos juntos. Quando o ônibus saiu, ela me deu um tchau, e agora na minha lembrança era como se tivesse sido em câmera lenta. Fiquei imóvel assistindo ela ir embora. Nunca consegui esquecer isso. O que teria acontecido se eu tivesse subido naquele ônibus? Onde eu estaria agora?
Justamente, nossas fantasias são feitas de experiências, coisas e pessoas que não temos. É essa ausência que buscamos preencher, é ela que nos faz pensar, que nos faz atravessar o deserto. Portanto, é preciso ficar atento ao que falta na vida, pois a ironia é que só avançaremos se nunca satisfizermos completamente o nosso apetite. O desejo. Sem desejo ninguém levanta da cama.

O futuro é a coisa mais nostálgica que existe. Sentir saudades do futuro. Querer que o futuro aconteça de novo. E aí, o que tenho feito é: eu tô aí, cara. Eu tô aqui. E tô vivendo. Não vem com essa. Às vezes ganhando, às vezes perdendo. Me perdendo. Eu estava perdido e você me achou. Prazer, saudades de tu. Te conheço do futuro.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 31/10/2013 por em Gabriel Pardal.
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