ORNITORRINCO

G.A.D.O.

Desde Platão, questionamentos sobre o que é real, realidade, verdadeiro, sempre encheram o saco do pensamento humano. E o meu também. Que bom, porque assim surgiu a minha peça.

O existencialismo, especialmente Camus, foi a água pra germinar uma semente que era minha inadequação, o não pertencimento que sentia enquanto escrevia essa peça. Mesclado às referências do filme Truman Show, surge um personagem que questiona, estranha – aparentemente incompreendido pelos outros personagens –, a realidade que vive (a peça), e se percebe estrangeiro dentro de seu próprio mundo.

O texto, logicamente, bebe nas minhas origens como criador do programa de TV, Hermes e Renato, na comédia non-sense e nas várias referências ao teatro do absurdo. Assim surgiram os personagens “conscientes” de que estão vivendo uma peça de teatro. Eis então uma tragicomédia onde se debocha dos clichés, da nudez, da morte, do Nelson Rodrigues e de outras referências recorrentes e típicas do teatro.

No mundo do teatro, discute-se a técnica de convencimento, 
se o trabalho foi verdadeiro, colocando automaticamente quem 
“não convenceu” como falso. Alguém me diz claramente (sem 
subjetividade) a diferença entre ser e parecer ser? Real e falso? 
Outra questão que sempre me deixou injuriado e serviu de base para esse trabalho é que, no mundo do teatro, discute-se inúmeras vezes a técnica de convencimento, se o trabalho foi verdadeiro, colocando automaticamente quem “não convenceu” como falso. Que doideira é essa? Alguém me diz claramente (sem subjetividade) a diferença entre ser e parecer ser? Real e falso? Uma peça é sempre falsa, tudo é mentira, mas muito se fala que tal ator não sentiu de verdade, não entrou no personagem. Oi? E às vezes o teatro pega fogo literalmente e alguém quebra a perna em cena, e a platéia bate palma porque acha lindo o espetáculo.

Por ser originalmente formado em cinema, também carrego comigo influências cinematográficas.

Penso em Orson Wells em “F for Fake”. O texto questiona e debocha dos critérios de avaliação e julgamento da qualidade de um trabalho artístico. Ao mesmo tempo também ironiza os limites da real autoria de cada um dos envolvidos num processo de teatro.

Tendo como base Charlie Kaufman em Synecdoche – NY, abuso da metalinguagem como instrumento de investigação da própria metalinguagem e de todo o processo de teatro, dramatizando e confundindo o ato de criar e de ser.

Não é claro o que é improviso, marca, texto. Uma ficção igualzinha à vida, com personagens, questões, conflitos, e vidas que não tem sentido de existir.

Todas as questões filosóficas que me enchiam o saco estão ali, mas ninguém leva comédia muito a sério. E pode ser que você não ria nenhum momento e aí ela deixe de ser comédia, né?

Mas espero que se ria e se divirta muito, amiguinho, afinal o importante é ser feliz. Nada de pensar na vida e nos significados que damos a ela, melhor viver no automático, como mais um gado feliz no rebanho.


Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 30/10/2013 por em Franco Fanti.
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