ORNITORRINCO

DRUMMOND E KAFKA: DUAS OBRAS, UM CONCEITO

Há alguns anos eu lia, no auge de minha adolescência, poemas extraordinários como “A flor e a náusea”, “O elefante” e tantos outros me estarreciam, como eram atuais! Como eram carregados de um nervosismo e uma turba tão presente também nos anos em que foram escritos! O brilho dessas inúmeras obras-primas dentro de uma grande obra-prima, no entanto, ofuscaram-me e não percebi o que percebo agora, momento em que volto a ler um dos pilares da obra de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “A Rosa do Povo”, livro de poemas publicado em 1945. O que me passou despercebido foi um pequeno poema, de apenas quatro estrofes, quatorze versos, composto em redondilhas menores, métrica, aliás, muito utilizada por Drummond em poemas herméticos, repletos de sentidos a serem desbravados, não me assusto então que não tenha visto a grandeza dos versos que se lê sob o título “Áporo”.

  Um inseto cava
  cava sem alarme
  perfurando a terra
  sem achar escape.

Na primeira estrofe o título se refere a um inseto que escava e não encontra uma saída, revelando a origem da palavra áporo, em grego, áporos: sem passagem, sem caminho. Contudo, apesar de estar preso, o inseto não se desespera, não faz nenhum alarde. Impossível não lembrar de Gregor Samsa, personagem kafkiana, que, acordando pela manhã, metamorfoseado num terrível inseto, parece ignorar completamente o absurdo e se queixa apenas de estar atrasado para o trabalho, mas isso são apenas especulações criadas por mim, não existe nenhuma ligação entre o poema de Drummond e o conto do escritor checo, ao menos no que diz respeito ao seu discurso. Vejamos se no decorrer dessas linhas a afirmação se sustenta e sigamos para a segunda estrofe, onde o sentido de Áporo passa a ser o descrito na maioria dos dicionários de língua portuguesa, e que, segundo o Dicionário Priberam “diz-se de ou problema de difícil solução ou cuja solução é considerada impossível.” O problema sugerido pelo poeta de Itabira:

  Que fazer, exausto,
  em país bloqueado,
  enlace de noite,
  raiz e minério?

É evidente que o “país bloqueado” citado por Drummond é o Brasil, e que o bloqueio muito provavelmente seja a ditadura de Getúlio Vargas. Mas como não pensar no colapso do estado austro-húngaro, que se arrastou durante a Primeira Guerra mundial e culminou na criação da Checoslováquia, ao fim da guerra? Período, aliás, que coincide com a primeira publicação de “A Metamorfose”, em 1915. Interessante pensar por esse lado, mas eu mesmo ainda não estou nem um pouco convencido da minha interpretação, embora ela possa já concentrar algum sentido. Na terceira e quarta estrofes temos os versos:

  Eis que o labirinto
  (oh razão, mistério)
  presto se desata:

  Em verde, sozinha,
  antieuclidiana,
  uma orquídea forma-se.

Belíssimos versos que nos dizem que, mesmo sem nenhum sentido, mesmo negligenciando Euclides e sua geometria, e, por conseguinte, toda a razão, o labirinto posto anteriormente se desfaz para dar luz a uma flor, metáfora usada por Drummond em “A flor e a Náusea”, onde uma flor nasce igualmente em lugar impróprio e sob terríveis condições, representando a esperança que o poeta conservava de dias melhores, menos obscuros. Mas também o conto de Kafka (1883-1924) termina claro, com um dia de sol, uma flor nascendo, talvez a irmã de Gregor, amadurecida após todo o sofrimento que passara durante o tempo em que a família teve de suportar o estorvo que o filho outrora “amado” havia se tornado, também o conto de Kafka negligencia todo raciocínio lógico, uma vez que, por mais que aguardemos a hora em que Gregor volte ao normal, ele segue, e morre, em sua forma de inseto.

Contudo, é dessa escuridão, desse labirinto, que extraímos todo o sentido do conto, que compreendemos todo o jogo que há na relação do protagonista e sua família, a relação de troca, de interesses individuais. Mas, no final das contas, por que me dei ao trabalho de interpretar o poema de Drummond como se ele tivesse alguma relação com “A Metamorfose”? Por que, se, apesar da coincidência, não há nenhuma prova (como não há das outras interpretações) que o poeta tenha usado como apoio as suposições que criei? A resposta é simples e ao mesmo tempo complexa, então, sem delongas, vamos até ela.

É inegável que tanto o poema de Drummond quanto o conto de Kafka são considerados literatura, e que, portanto, concentram a mesma essência, quiçá, a mesma matéria, a razão para convergirem em algum ponto deve existir, e existe, de fato, pois as duas obras trazem pontos característicos que partem do mesmo conceito da indecidibilidade, traçado pelo filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004) ao longo de sua obra. A experiência do indecidível é a que torna qualquer teoria impossível de se provar e a torna essencialmente incompleta ainda que expresse verdades – que nada mais é que o fruto da Aporia, descrita por Aristóteles como “a igualdade de conclusões contraditórias”. Mergulhando um pouco mais no assunto, chegaremos aos teoremas da incompletude, descoberta do matemático alemão Kurt Gödel.

O dois teoremas dizem:

1) “Qualquer teoria axiomática recursivamente enumerável e capaz de expressar algumas verdades básicas de aritmética não pode ser, ao mesmo tempo, completa e consistente. Ou seja, sempre há em uma teoria consistente proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas nem negadas.”

2) “Uma teoria, recursivamente enumerável e capaz de expressar verdades básicas da aritmética e alguns enunciados da teoria da prova, pode provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente.”

Bem, sabemos então qual principal conceito liga as obras de Kafka e Drummond, mas como aplicá-lo?

Essa é a parte mais simples e requer um esforço mínimo do leitor, uma vez que basta alguns exemplos como os pequenos contos de Kafka, talvez o mais conhecido, “Diante da Lei”, mostra um homem que, ao tentar entrar na Lei, tem sua passagem negada, logo, está sem passagem. E voltamos ao Áporo que deu origem a tudo isso, em dado momento, o homem envelhece, e, à beira da morte, pergunta ao guarda que o impede de passar: “Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?”. A resposta do guarda é também nossa resposta: “Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a”. Está claro o quanto o desfecho do conto é contraditório e inconclusivo, o quanto tem de indecidível e o quanto esse conceito dialoga, na própria obra de Derrida, com as questões primordiais da filosofia kantiana, que põem o homem enquanto indivíduo a se perguntar o que pode fazer no mundo, o que deve fazer, o que pode esperar e o que ele mesmo significa no espaço.

A expressão “E agora, José?”, enraizada na cultura brasileira, nasce em um dos poemas de Drummond que exemplifica outros conceitos propostos por Derrida, como a impossibilidade, uma vez que José, a partir de inúmeras perdas materiais e imateriais, e também de algumas posses, não sabe que atitudes tomar e “Com a chave na mão / quer abrir a porta, / não existe porta”. No poema “Passagem do ano” o interlocutor ao que o poeta se destina, talvez o próprio Drummond, tem muitos recursos, “O recurso da bola colorida”, difícil de saber do que se trata, enfeites de fim de ano, talvez, “. O recurso de Kant e da poesia”, o que nos interessa, “todos eles… e nenhum resolve.”

Pois bem, é com base em conceitos como esses, esclarecidos a partir da década de 60 e introduzidos na teoria literária, que podemos ver presentes ainda na obra de incontáveis autores elementos que se encontram, fazendo da produção artística do início do Século XX aos dias de hoje um mar onde a obra de Derrida deságua irremediavelmente. O mais fascinante é que até mesmo a possibilidade da repetição em diferentes contextos de um mesmo elemento de sentido ou de ausência de sentido, ou, melhor dizendo, de aporia, é pensado pelo filósofo e denominado interatividade, assim, dentro de uma incompletude, pensar que Drummond se referia a Kafka ao escrever seu poema, é possível, mas não pode ser afirmado de maneira categórica. Nem foi minha intenção senão atentar os leitores desses dois autores para o quanto é complexo e instigante o processo de criação no qual os dois estão inseridos e o quanto pode ser difícil desvendar o que eles de fato pretendiam, se é que pretendiam algo concreto, a partir de seus escritos.

Danilo Diógenes é estudante de literatura.

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Publicado em 30/10/2013 por em Danilo Diógenes.
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