ORNITORRINCO

UM DIA NA PRAIA

Como de costume, caminhar na praia faz a gente pensar. A gente quem, né? Eu. Engraçado observar as pessoas, observar o corpo das pessoas, o movimento delas. As crianças brincando na areia. Os nenéns em carrinhos de passeio. Os cachorros com a língua pra fora. Velhinhos tirando o mofo. Jovens torrando a pele, como calangos na areia. No fim das contas, nada disso importa. Importa mesmo é se chegaremos lá.

Penso se eu vou conseguir make it thru e chegar na velhice. Seja lá como ela for. O corpo não vai mais importar tanto sua forma, mas roupas e modas que usei serão ridicularizadas em fotos antigas. A fulana que era a gostosona do pedaço vai estar tão caída (ou até mais) como eu. Vai contar mesmo quem não morreu pelo caminho, quais casamentos se desfizeram, quais continuaram. Quem sacaneou quem, quem faliu, quem subiu de vida, quem ficou na rua da amargura. Quem se mostrou um grande amigo e quem se mostrou um grandissíssimo FDP. No fim das contas, acho que é isso que vai contar.

Pouco importa hoje se o peito é bonito porque tem silicone ou não. Pouco importa se a barriga foi esculpida com plástica. Com o tempo, o corpo todo sacode flácido – acho fantástico, inclusive – mas a barriga plastificada, junto o o silicone, estão lá: i-mó-veis.

Vai fazer diferença se estudamos na UVV ou na UFES? Em quantos MBA’s ou mestrados conseguimos? O que raios de bom, lá na frente, dá a certeza de que poderemos olhar pra trás e sentir a tarefa cumprida? Quantas pessoas confortamos, ajudamos, fomos companheiras? Acho engraçado hoje, tanta gente querer ser tanta coisa através do que tem ou faz. A gente se esforça tanto pra no fim das contas… a gente só se esforçar pra um dia ficar velho. E rir disso.

Interessante tentar ouvir os idosos com mais atenção… “isso é bobagem, minha filha, vai passar”. Na hora, dá um aperto na garganta, uma raiva, “essa velha não sabe de nada, tô passando aperto, tô sofrendo, tô entalada”. Talvez seja por isso mesmo, que depois, no fim das contas, seja tudo uma grande bobagem. Hoje, quando choro, às vezes me pergunto se é válido mesmo. Muitas vezes vejo que não. Continuo chorando, claro. Minhas origens íbero-italiana-brasileira não me deixam negar esse pranto desatado. Mas que é engraçado poder repensar nisso hoje, isso é. Coisa que uns anos atrás seria impossível. Abraçar que a maturidade vai vindo devagarzinho com um sentimento de desapego à bobagens e cuidados com o que faz diferença.

Mas puxa! Não é fácil. Quantos dias e noites perdidos, cabeça cheia, achando que tenho que salvar o mundo e salvar a mim mesma do que eu quero – protect me from what i want, sabe? Quanta encheção na cabeça dos meus amigos mais velhos, que sempre me dão colo e puxões de orelha. Sigo observando.

Hoje aconteceu outra coisa boa também. Minha planta floresceu do seu broto. Que delícia é cuidar de algo que floresce. Que delícia poder permitir que o outro cresça. Sem pressões, sem imposições. Mas compondo, no companheirismo, um apoio, um estar lá. E com isso, ver crescer. É, acho que no fim das contas, é isso que importa. O resto, é tudo uma grande bobagem.

Paula Maria é psicóloga.
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Publicado em 22/10/2013 por em Paula Maria.
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