ORNITORRINCO

NÃO SEI


Em 2009 fiz uma oficina de criatividade com um diretor de teatro que admirava. Jefferson Miranda. Haviam palestrantes curiosos durante o curso e exercícios especulativos. Meus colegas de classe eram velhos conhecidos, amigos do teatro, da vida, ou pessoas que sempre admirei mas nunca pude trocar um mísero “Opa!”. O curso durou um verão, mas foi marca profunda.

Achei, na minha mudança de casa, o caderno que usei nesse curso. Colocar sua vida em caixas é bem terrível, mas há a beleza do reencontro. Como a blusa que você nunca mais usou, mas lembra exatamente o que aconteceu no dia que você a comprou. O reencontro com as poesias guardadas, com seus livros infantis, as tralhas, trecos e cacarecos que você optou guardar.

Por que? Nem você sabe agora, enquanto olha para esse cavalo de Playmobil velho e não sabe se coloca na sacola do lixo, de doação, ou de ida para a futura casa. Não é fácil para uma pessoa como eu, memorialista. Mas aos poucos vou esquecendo, me distraindo, entendendo o real desapego da vida. 
Somos todos nus – todo o resto é pura invenção. E o que importa é o que acontece. 
Lembrar de tatuar essa frase na próxima vez que eu surtar e demandar alguma certeza. Lembrar de rir e gargalhar da minha própria cara. 
Eu vou voltar para o curso de criatividade, calma. Só queria dizer que descobri que gargalhar de si mesmo é das coisas mais importantes da vida. Você esquece a chave, você perde o ônibus, você é assaltado, você toma um fora, você qualquer coisa de vacilação que ocorre na sua vida, na boa, tenta gargalhar depois. Da pequenez que tudo isso é, na real. Cuidado para não ter um ataque de riso, porque eu estou tendo. Me chamem de demente, vocês estão certos dessa vez.

Só queria dizer que descobri que gargalhar de si mesmo 
é das coisas mais importantes da vida. Você esquece a 
chave, você perde o ônibus, você é assaltado, você toma 
um fora, na boa, tenta gargalhar depois.
Pois, achei o caderno que eu anotava delírios durante as aulas de “criatividade”. 2009. Um ano curioso, nada de OH MEU DEUS na minha vida. Posso resumir em: Passei o reveillon com 5 queridos. Achei que fosse morrer de amor. Tomei um grande tombo de skate. Lucas e eu fizemos nossa primeira temporada de shows. Tatuei uma girafa na costela. Fui para Europa pela primeira vez na vida. Conheci meu sobrinho depois de meses de Skype. Gravei um disco e o lancei num dia sagitariano, porque eu queria passear com ele. E só. Só! 365 dias e eu resumo nisso, perdão, vida, perdão. Mas é. E sim, teve o curso de criatividade. Reabrir o caderninho foi um mergulho esquisito naquilo que fui, ainda sou, e talvez ainda leve bastante para frente. 
Coisas como:

investimento de tempo. vítima da gente. risco. desconhecida resistência. fazer uma lista das pessoas mais importantes da minha vida. só você sabe quando você está fudendo e quando você faz amor. laboratório viciado = turbulência criativa. 

as artes plásticas exigem – sem querer – a megalomania. arte no grão de arroz? é bem vista?

a existência está em deslizamento incessante. elemento que não muda nunca: fazer perguntas à natureza.

SOLAVANCO PIQUITITIÑO.

o que se desloca é a perturbação________ OLÁ! 

o planeta é esgotado, o problema agora é durar. DENTRO DE NÓS REINA A ESTRANHEZA.

Freud era um editor de almas. Contradição não pode ser um problema, e sim um valor.
Já não sei o que estou anotando.

Mas se eu fosse eleger a frase que mais me marcou no curso inteiro – esqueci o autor, talvez o Jefferson, talvez o Charles Watson (um dos palestrantes), não lembro, uma pena, mas a frase era – “O não sei é um campo ativo”. Na hora eu levantei a sobrancelha num clima de HUM, mas não marcou tanto quanto agora. Mais do que nunca, hoje em dia é importante ter um opinião formada. Sobre a guerra, sobre o cu dos outros, sobre o filme tal, sobre as biografias, autorizadas, não-autorizadas, sobre a greve, qualquer uma, é preciso ter uma opinião formada, é preciso externalizá-la. Há uma demanda moderna instantânea para que você ouça uma música e em poucos segundos você já tenha uma opinião, e mais: que você DÊ a sua opinião. Se vacilar, eu posso cair no esquema, mas lembro do curso e da frase marcante. “O não sei é um campo ativo”. Não saber é ativo. Não estou em cima de muro algum, só não estou batendo no peito mais forte e gritando que eu sou ilê. 
Algumas questões são realmente urgentes e é bom que você tenha sua conclusão sim e saiba o que está acontecendo. Para onde você estiver indo, ou para onde estão te levando. Mas para algumas outras coisas da vida, mais do campo sensorial – eu diria, não é necessário JUMP-TO-CONCLUSIONS tão rápido assim. Estar numa roda, num bar, numa mesa de amigos ou desconhecidos e falar “EU NÃO SEI” não pode ser o fim do mundo, pessoal. Pode ser o início.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 22/10/2013 por em Letícia Novaes.
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