ORNITORRINCO

A FUTURA BIOGRAFIA DAS MANIFESTAÇÕES

O ônus do precedente que a lei das biografias abre – em que o biografado tem o poder de autorizar ou não a publicação da história – é necessariamente muito mais importante do que o suposto bônus de quatro ou cinco artistas poderem proteger suas intimidades, e seguirem fingindo que ninguém sabe o que eventualmente eles queiram esconder. Essa é a questão. Falar sobre participação no lucro dos livros é piada – que lucro? – e não merece qualquer reflexão. Para além da discussão sobre onde começa a vida privada de uma figura pública, não vale a pena macular a função fundamental de um historiador ou biógrafo, de poder iluminar os fatos, em nome do direito à privacidade de cantores populares ou da hipótese de supostos escritores calhordas agirem de má fé para lucrarem com fofocas ou mentiras. Esses merecem ser punidos, mas são obviamente exceções.

O mesmo questionamento sobre o que de fato importa em um assunto pode ser aplicado para a celeuma ao redor das prisões recentes nas manifestações. Independentemente da minha opinião sobre o significado ou mesmo a eficiência do método dos black blocs, esse não é o assunto mais importante. Crimes cometidos pelo estado são necessariamente mais graves do que crimes cometidos pela população. O tal vandalismo civil é sim menos importante do que a barbárie cometida por uma instituição que possui o monopólio da violência como premissa legitima e legalizada, e que deveria existir para a manutenção das leis para toda a população – incluindo os black blocs.

O bônus do direito a privacidade não justifica nem de 
longe o ônus da censura. Da mesma forma, a violência 
policial, a intransigência e o autoritarismo do estado 
e o direito à manifestação são as questões que 
verdadeiramente importam.

O vandalismo começa no autoritarismo do próprio estado, que não recua jamais, justificando qualquer ação pelo fato de que foram eleitos. É preciso sempre temer quem não se permite admitir erros, pedir perdão ou simplesmente mudar o rumo de algo – ainda mais se estes estiverem no poder. Os jornais, ao colocarem fotos de manifestantes presos e baleados em suas capas, insinuando que a culpa pela violência que sofreram é deles próprios – por sua insolência em quererem exigir seus direitos, ou mesmo em questionar e enfrentar o sistema – estão defecando sobre a já fedorenta história de maus tratos, abusos, coerções, assassinatos, estupros e impunidade que significa a polícia do Rio de Janeiro – e que qualquer habitante ou visitante habitual da cidade sabe recitar sem titubear. Colocar a culpa da violência na vítima é tão velho e abjeto quanto dizer que a mulher estuprada mereceu sofrer tal violência, por dançar funk, usar uma mini saia ou simplesmente rebolar por ai. Sob esse olhar, a história da violência policial no Rio de Janeiro se transforma em uma típica biografia autorizada.

Colocar a culpa da violência na vítima é tão velho 
e abjeto quanto dizer que a mulher estuprada mereceu 
sofrer tal violência, por dançar funk, usar uma mini saia 
ou simplesmente rebolar por ai. 
Desqualificar as manifestações não provoca nada além do acirramento ainda maior dos ânimos de quem luta por melhorias que obviamente não passam do mínimo. Os motivos originais para as manifestações existirem são contundentes o suficiente para serem o assunto principal da capa de um jornal. Crimes cometidos pelo estado importam milhões de vezes mais do que depredações ou pedras atiradas contra a polícia. O resto é manipulação.

Não defendo que se quebrem agências bancárias, mas só um completo idiota não entende o motivo para elas se tornarem alvo da fúria popular. Somos roubados diariamente por essas instituições – que, de certa forma, também se impõem feito um monopólio – sem que seus métodos sejam seriamente questionados. Claro que depredar uma agência bancaria é assunto para uma notícia, mas desde que os desmandos e a roubalheira oficializada e sistemática cometida por essas empresas sejam também motivo de reportagem – com o devido dobro de destaque. Os juros descabidos, as dívidas delirantes inseridas à revelia das decisões dos clientes, os faturamentos bilionários jamais revertidos em ao menos alívio nas taxas abusivas, além do próprio rendimento risível dos investimentos, que soam como piada diante do lucro que os bancos esfregam anualmente em nossas caras, esses são os assuntos principais. O resto é manipulação. Me valho então da já manjada adaptação da frase de Bertold Brecht, que se encaixa com precisão nessa reflexão: o que é depredar um banco comparado a fundar um? 

A certeza de que nem o governo nem a imprensa mudarão sua postura – aliada à conclusão incontornável de que não é possível assistir tanta arrogância por parte do governador, do prefeito e de sua maioria de paus mandados da Câmara Municipal de braços cruzados – faz com que os manifestantes se endureçam e, na mesma medida, a polícia, que é obrigada a lidar com milhares de pessoas obviamente enfurecidas nas ruas sob a única ordem de fazer com que as manifestações se esvaziem o mais rápido possível. O objetivo inócuo da polícia – oriundo de vozes superiores – parece ser somente tentar traumatizar a população, a fim de que as manifestações acabem.

Se o fim da ditadura militar houvesse se dado de fato por um desejo genuinamente democrático, teria havido junto uma reforma radical em toda a polícia brasileira. Um decreto não apaga o espírito autoritário. Assim, como esperar que, da noite para o dia, o policial que por tantos anos deteve o poder ilimitado, através da violência, de decidir sobre os porvires da população, seja tomado pelo espírito cívico da conciliação e da manutenção da democracia, porque simplesmente lhe disseram que agora seria assim?

E, desde o advento da liberdade civil, essa lógica em muito pouco se transformou. Como crer que possa se tornar pacificadora a mesma polícia que antes era uma das mais intensas agentes dessa exata violência? Não é por decreto que a violência se transforma em paz. Se o enfrentamento das mazelas que a violência traz para os moradores da cidade for um desejo verdadeiro – e mais: se houver a intenção mínima de se encarar os problemas de frente – não se pode pensar em polícia pacificadora, principalmente no Rio de Janeiro, sem antes se propor uma imensa reforma em todas as camadas da próprio instituição policial. É como se contratássemos o ladrão que nos roubou para fazer a segurança de nossa casa.

Claro que a polícia é formada por pessoas, e que generalizar um grupo tão vasto é sempre uma maneira preguiçosa de olhar uma questão complexa. No entanto, as ações do estado não tem sido em nada heterogêneas. Ainda assim, lembrar que aquelas pessoas fardadas estão, em sua maioria, simplesmente cumprindo ordens e que, por isso, também trabalham sob intensa pressão – consigo crer, ingênuo que sou, que os próprios policiais são os primeiros a perceber a inocuidade de seus métodos – ajuda a lembrar justamente a parte que importa das questões.

O mesmo ingênuo que há em mim tenta crer que pelo menos Caetano Veloso sabe que está do lado errado da briga pelas biografias. É notório que o compositor baiano não é muito afeito a simplificar questões complexas – e nisso ele quase sempre tem razão – mas nesse caso, cada vez mais fica claro: sim, o direito à preservação da vida privada é uma questão que merece ser vista com calma, mas o direito à liberdade de expressão e de se revelar nossa história sem censura é muito mais importante. O bônus do direito a privacidade não justifica nem de longe o ônus da censura. Da mesma forma, a destruição de patrimônio público e privado é uma questão que deve ser debatida, mas a violência policial, a intransigência e o autoritarismo do estado e o direito à manifestação são as questões que verdadeiramente importam. O resto é jabá.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 18/10/2013 por em Vitor Paiva.
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