ORNITORRINCO

TREM AZUL

Um famoso estudioso da criatividade disse que um dos primeiros passos para se desenvolver esta habilidade tão estimada na pós-modernidade é assumir quem você é e aceitar suas origens.

Só por este passo, fica clara a tamanha charlatanice norte-americana muito bem embasada na estratégia de publicidade oitentista, a do “jovem senhor”. Em todo caso, o bom charlatão tem a admirável capacidade de deixar alguma dúvida mitótica atrás da orelha, até mesmo dois mais agnósticos.

Exatamente por isso, noites de sono foram perdidas por aí, em diversas esquinas desesperadas lambidas por Iansã e levadas para o infinito do mar ipanemense, por causa das dúvidas de até onde a essência “mineiro-de-cidade-pequena” ainda resiste dentro de mim, ou se ela algum dia de fato existiu, e, ainda além, até onde ela não foi reprimida, disfarçada por um óculos de aro grosso como cosmopolita urbanóide em terras quentes e cariocas, mesmo que há tão pouco tempo.

Morfeu levou minha alma para passear na beira da praia ouvindo bossa nova, jazz, algum “sunset chill out groove” pretensioso, e acabou voltando de trem azul para o clube da esquina dar um alô para psicodelia maravilha mutante, que ainda resiste nas frias montanhas provincianas de Minas.

Acordei suado com um familiar cheiro de mato, vertigem ressaquenta latejando o coração de saudade de uma Minas que, para mim, só existiu em alguma releitura-fantástica de Meia-Noite em Paris em Ouro Preto, onde os grandes poetas mineiros escondiam as intelectualidades mais mantiqueiras, em tavernas e porões, juntamente com o gélido vento que assusta e inspira.

O charlatão americano tinha, definitivamente, me deixado “cabreiro” e fez mais do que alguns psicanalistas conseguiram, em tão pouco tempo. O pão-de-queijo da padaria perto da praia já não fazia sentido, o café mais espresso continuava carioquinha, aguado e sem força para o rapaz mineiro que vos desabafa e faz dos clichês regionalistas uma boa forma de conforto contra o “Minas homesick bossa nova” que bate à porta chamando para o bom dia, com cheiro de café coado na hora e broa de fubá.

Rafael Bittencourt é psicólogo.

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Publicado em 16/10/2013 por em Rafael Bittencourt.
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