ORNITORRINCO

ERAM OS HUMANOS INFELIZES?

“Marte humanizado, que lugar quadrado. | Vamos a outra parte?”
Carlos Drummond de Andrade

Recentemente a empresa holandesa Interplanetary Media Group lançou o projeto Mars One, iniciativa liderada pelo cientista Bas Lansdorp que pretende ser o ponta pé num processo de povoamento do planeta Marte a partir de 2023.

Para arrecadar os US$ 6 bilhões do custo estimado do projeto, a empresa pretende fazer uso de uma ficção científica mais em voga, um reality show que irá transmitir todas as etapas do processo de seleção/formação dos astronautas, será o programa da década! E se trata além de tudo de um projeto bem ao estilo ‘democrático’, vejam só, ‘qualquer um’ entre os que pagaram a taxa de inscrição e enviaram suas fichas devidamente preenchidas podem estar entre os felizardos desta viagem sem volta.

É isso mesmo, não consta nos planos bilhete de retorno, é tchau e bença. Isso, porém, não foi razão suficiente para intimidar os mais de 100 mil internautas de mais de 120 países do planeta que se inscreveram.

A Antártida é cheia de água, você pode sair e respirar 
ar lá. É um paraíso comparado a Marte e, mesmo assim, 
ninguém se mudou permanentemente para lá.

O projeto ‘evolucionário’ foi saudado por Lansdorp como “o próximo grande passo para a humanidade” ¹. Aliás a Interplanetary não está completamente sozinha na meta ‘Marte, aí vamos nós’, o milionário americano Dennis Tito – que foi o primeiro ‘turista’ a ir ao espaço em 2001, depois de pagar alguns milhões de dólares à Agência Espacial Russa – havia anunciado em abril deste ano que pretende financiar uma missão tripulada ao planeta vermelho para 2018. Ressalva que nesse caso está sem intenções de pisar lá, nem muito menos construir pousada, só dar uma conferida mais de perto.

Povoar Marte não é das tarefas mais simples que se pode encarar. Diferente das grandes navegações, os obstáculos e os riscos aqui são menos místicos. Não se trata, portanto, de narrativas de monstros mitológicos para amedrontar incautos e arrefecer os ânimos de indômitos desbravadores, senão das indicações do todo poderoso oráculo da ciência e da técnica que nos diz que esta odisséia exige muito mais do que um Ulisses para ser bem sucedida.

As palavras do astronauta Stan Love, da Nasa, dão uma dimensão das colossais forças naturais a serem superadas: “A Antártida é cheia de água, você pode sair e respirar ar lá. É um paraíso comparado a Marte e, mesmo assim, ninguém se mudou permanentemente para lá”.

Ainda assim tal conquista espacial não pode ser tomada no lugar do impossível. Mas vamos perguntar aqui, caros leitores, por que este objetivo não é considerado na órbita do improvável, quase impossível – acima de tudo desnecessário –, e posta no fim da lista das prioridades da raça humana? Isso se dá porque, diferente de muitas ‘utopias’ terrenas, essa aspiração não está em desacordo com a manutenção dos aparatos vigentes, que não estão nem aí para as necessidades mais fundamentais da vida se elas não podem oferecer possibilidades de multiplicar o capital, coisa que esta busca tem a chance, hoje muito remota, de fazer.

Diferente de muitas ‘utopias’ terrenas, essa aspiração 
não está em desacordo com a manutenção dos aparatos 
vigentes, que não estão nem aí para as necessidades mais 
fundamentais da vida se elas não podem oferecer pos-
sibilidades de multiplicar o capital

Vai que o universo está cheio de alienígenas e eventualmente eles nem são tão desenvolvidos militarmente como o homo sapiens. Quem sabe não podem ser subjugados e explorados, quem sabe não fazemos escambo com eles, oferecendo nossos refrigeradores e aparelhos de TV encalhados? Se estes ‘índios’ não existirem, de qualquer modo, o mais importante é que o Eldorado intergaláctico despovoado pode fornecer ainda todo tipo de minério, pedras preciosas, petróleo, e o mais importante: oferecer a possibilidade de habitat para indivíduos como Alison Rigby, um dos inscritos no Mars One.

Ele declarou: “Uma passagem só de ida me assusta, mas não é o bastante para me fazer mudar de ideia. Uma vida bem-sucedida em Marte será o grande feito da minha vida e fico feliz de deixar minhas preocupações de lado na esperança de algo melhor”.

Palavras mais reveladoras não poderiam ser proferidas. A fala de Rigby expressa toda a mediocridade, todo o vazio de sentido que vai grassando a vivência humana no planeta mais paradisíaco do sistema solar, mas que ao que parece está se transformando num deserto do qual alguns já se vem com vontade de migrar mesmo que em direção a uma miragem.

¹ Todas as informações sobre o projeto Mars One e aspas deste texto foram retiradas de matérias da BBC.

Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 16/10/2013 por em Júlio Reis.
%d blogueiros gostam disto: