ORNITORRINCO

DE AMORES PLATÔNICOS E OUTROS TAIS

Adoro amar à distancia. Amar sem conhecer o objeto, admirar sem tocar. Gosto principalmente de imaginar histórias com terceiros que nunca se hão de realizar. É ainda melhor, porque não é na realização que está o prazer mas sim na criação. Normalmente conhecer os objetos de admiração leva a desilusões profundas, a pessoa real nunca é tão feita a medida, passei a minha adolescência aprendendo isso.

Desde pequena que adoro ler, a minha madrasta dizia inclusive que eu, com certeza, tinha alguma coisa de autista porque desaparecia para dentro dos livros e ficava horas sem comunicar com o fora. As minhas amigas gostavam de adormecer com as historias que inventava para elas e para os seus amores platônicos, e os meus namorados constroem comigo histórias de possíveis futuros quando o presente nos separa — há qualquer coisa na criação de histórias e enredos, na criação de universos de amores paralelos que junta as pessoas. Junta não à fisicalidade do momento que nunca há de acontecer, mas na esperança e no conforto de que são histórias que podemos tocar em loop, limando as arestas, que podemos guardar sempre se repetindo em duelo mortal com as nossas do dia a dia que seguem jamais se repetindo.

Amor platônico é dos mais bonitos e mais utópicos. Não é idolatria, é amor, admiração, respeito, vontade de cheirar o cabelo. É amar o objeto da sua imaginação, no fundo dos fundos é se amar em outro. Pode-se dizer que é um amor egoísta, um amor que não quer se concretizar, que quer só viver do que é irreal e cor de rosa. Mas é um amor que não faz mal, porque não há dor, sofrimentos ou ansiedade. Ou melhor, pode haver, se você for novato em amar platonicamente — mas todos os amantes platônicos sabem que existem certas regra; o objeto do seu amor platônico não deve ser conhecido. Se for, tem que rapidamente apagar todos os registos de histórias, personalidades e fotografias mentais do arquivo-memória. O objeto do seu amor platônico é um aparte, nunca o todo, para se ter, inclusive ao mesmo tempo, outros amores. Nunca faça do seu amor platônico o único amor da sua vida. O objeto do seu amor platônico não é real. É a famosa “olhe com os olhos, não olhe com as mãos”. Amor platônico não é stalking-psycho-mania, é leve, é distração. Amor platônico é dormir sesta em rede pela tarde adentro.

Amor platônico é dos mais bonitos e mais utópicos. 
É amar o objeto da sua imaginação, no fundo dos fundos 
é se amar em outro. Pode-se dizer que é um amor egoísta, 
um amor que não quer se concretizar mas é um amor que 
não faz mal, porque não há dor, sofrimentos ou ansiedade. 

Meus amores platônicos mudam porque até eles me desiludem num momento ou no outro. Umas vezes voltam a reconquistar meu coração e então gosto deles continuamente. Não necessariamente imaginando historias de amor e loucuras — às vezes sim —, outras vezes basta me saber que existem ou existiram. 

Já amei Dali profundamente. Mas aí me chateei, o cara é muito doido, muita porra-louca, muitos traumas naquela cabeça. Me apaixonei pela historia de Hemingway e de sua mulher, e amava assim secretamente Ernest por ele ser escritor perdido em Paris, vivendo do nada e voltando de noite para sua mulher. Ela que tinha ido viver a aventura dele. Mas aí descobri que ele traiu a mulher dele, e pronto, lá desceu Ernestinho do pedestal. Por cantores/guitarristas também desenvolvo algumas paixões, mais por uma curiosidade daqueles dedos plonc plonc plinc nas cordas da guitarra — é uma curiosidade muito sexual sim —, e ai bota Chico mas bota mais Devendra. Daí descobri que Devendra já tinha vários cabelos brancos (é que amores platônicos são imortais pelo menos na imaginação) mas aí me reconquistou falando espanhol numa entrevista. Vai entender, o espanhol tem esse efeito em mim.

Agora, meu maior e mais bonito amor, em honra de quem nomeio todas a minhas bicicletas é Gabito. Gabriel Garcia Marques. Nosso amor começou quando tinha uns 18 anos e li “Cem anos de solidão”. Nosso amor vai continuando forte. Li toda a sua obra num ato de amor profundo e posso dizer que cada vez fui me apaixonando mais, principalmente quando me deparei com o “Outono do Patriarca”, que para mim, é sem dúvidas, sua maior obra de arte — por ser tão completamente diferente e desafiador ao que chamamos de literatura. Sempre que qualquer coisa ruim acontece, um namoro que termina, uma verdade que vem a tona, preciso de ler Gabito. Como se pelo os seus livros ele me reconfortasse — figura não-correspondente do meu maior amor. Fico triste de ele estar demente, mas percebo que seja uma sina familiar, felizmente continua vivo! E isso me aquece o coração, quando alguém o arrefece.

Sahara Boreas estuda Cultura e Comunicação Alimentar.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 10/10/2013 por em Sahara Boreas.
%d blogueiros gostam disto: