ORNITORRINCO

CURTIR, COMENTAR, COMPARTILHAR

Devo mudar a foto do meu perfil? Aproveitar o momento, como todo mundo está fazendo, dia das crianças está chegando, vou colocar aquela minha foto aos seis anos de idade, sorrindo a plena felicidade em cima da bicicleta que tinha acabado de ganhar. Então sentar e esperar a foto ser curtida e comentada.

Nesta segunda-feira, P. L. foi a primeira que apareceu com uma foto de quando era criança. Será que a ideia foi dela? Depois J. F. também mudou seu avatar para uma foto sua aos oito anos agarrado no seu videogame; depois H. R.; depois C. O.; nem P. P., quem diria, escapou dessa; L. G. também não; é óbvio que J. L. mudaria e que A. F. colocaria aquela foto que todo mundo já conhece dela na escola com a boca melada de bolo de chocolate.

Qual o sentido disso tudo? Óbvio que essa pergunta merece um copo de whisky. Já volto. Pronto. Ah, bem melhor. Então, onde eu estava mesmo?

Ninguém entra no Facebook para se sentir triste e sozinho. Mas segundo um estudo coordenado pelo psicólogo Ethan Kross, da Universidade de Michigan, é exatamente assim que a rede social faz a gente se sentir. Em sua pesquisa, Kross e seus parceiros enviaram cinco mensagens por dia para uma lista de oitenta e duas pessoas moradoras de Ann Arbor (cidade localizada no estado de Michigan, com 114.024 habitantes, sendo que 36.892 são jovens estudantes). O conteúdo das mensagens queria saber como eles estavam se sentido de modo geral, se estavam preocupados com alguma coisa, quanto tempo passaram no Facebook e quantas interações tiveram com outros usuários desde a última mensagem. Eles chegaram a conclusão de que quanto mais as pessoas usavam o Facebook, mais infelizes elas se sentiam. A maior parte delas demonstraram um nível crescente de tédio desde o início da pesquisa até o seu fim. O resultado, Kross diz, mostra que a rede social criada por Zuckerberg estava lhes deixando infelizes.

Pois essa não é a única pesquisa que investiga o assunto, claro. A influência da internet na nossa demência individual e social tem preocupado os cientistas. Em 1998, Robert Kraut, outro pesquisador americano, descobriu que quanto mais tempo passamos na internet, mais solitários e deprimidos ficamos. O paradoxo é que, embora estejamos conectados com o mundo todo, nós não estamos conectados verdadeiramente com ninguém.

Sempre me senti meio ludibriado ao receber mensagens de afeto. Fico realmente e internamente confuso (estou assumindo isso agora) ao receber coraçõezinhos como respostas. Isso não tem nada a ver com você que me envia demonstrações de carinho virtuais, é comigo, pois divago e reflito se o Facebook é um deserto próprio para isso, e o quão fácil é dizer eu te amo ali em comparação ao eu te amo olho no olho.

Muitos terapeutas dizem que uma das questões mais relatadas nos consultórios, como sintoma de melancolia e depressão, é do paciente que passa muito tempo navegando na rede. Ali eles vêem uma vida inatingível, um poço de felicidade acontecendo agora mesmo. Uma felicidade que não se pode tocar. Sentimentos como ciúmes, inveja, depressão, são potencializados pelo tempo que se passa no Facebook, o que é completamente o oposto do que pensam os usuários. Eles acham que estão desenvolvendo a criatividade, que estão elaborando seus discursos políticos ou exercitando o raciocínio. Só que não. Para a criatividade e raciocínio existe uma coisa antiga chamada Livro, e para discussão existe a famosa mesa de bar. 
Sentimentos como ciúmes, inveja, depressão, são 
potencializados pelo tempo que se passa no Facebook, 
o que é completamente o oposto do que pensam os 
usuários. Eles acham que estão desenvolvendo a criati-
vidade, que estão elaborando seus discursos políticos 
ou exercitando o raciocínio. Só que não.
A inveja é um dos componentes da vida social. Na rede virtual ela é moeda de troca. Segundo a pesquisadora Hanna Krasnova, é resultado do tão conhecido fenômeno sócio-psicológico da comparação social, que é ainda mais agravada pela semelhança com a relação virtual do próprio usuário, porque estamos nos comparando aos colegas e amigos, vendo o sucesso dos outros todos os dias, e o quanto o outro se demonstra mais capaz e melhor que você.

Nós queremos saber mais sobre as outras pessoas e queremos que as outras pessoas saibam da gente – mas por esse próprio processo de aprendizagem, podemos ficar entediados com a vida dos outros e com a imagem de nós mesmos, que precisamos estar mantendo atualizada continuamente.

Ou seja, a mesma coisa que nos atrai é a mesma coisa que nos afasta.

Há dois tipos de usuários convivendo no Facebook. O passivo e o ativo. O passivo se define pela pessoa que passa mais tempo navegando na timeline do que postando ou interagindo com o conteúdo postado. Esse tipo de usuário costumar se sentir desconectado da convivência social e instantaneamente mais solitário. O ativo, pelo contrário, posta milhares de coisas, comenta e curte outros posts, conversa no chat, emite suas opiniões. O ativo pode se dividir entre aquele que usa a rede para promover seu trabalho profissional – auto-publicidade – e aquele que posta comentários pessoais sobre os acontecimentos da sua vida. Na maior parte das vezes é um excesso de futilidade, exposição gratuita do ego, no intuito de alimentar sua necessidade em ser popular, em saciar sua carência afetiva, satisfazendo a vaidade ao ver seus posts serem curtidos e comentados. No entanto, assim como ocorre com qualquer droga que produz excitação (as estimulantes), a ressaca que vem em seguida gera a única reflexão possível, insuperável e imutável, a de que estamos sozinhos nessa vastidão que é o universo. 
Concluindo, li numa edição da revista New Yorker sobre uma pesquisa feita pelo psicólogo Timothy Wilson com estudantes universitários, no qual revela que os jovens começam a ficar “loucos” depois de passarem apenas alguns minutos em uma sala sem seus telefones ou computadores. “Poderíamos pensar que passaríamos o tempo mentalmente nos entretendo, mas não podemos”, diz ele. “Nós esquecemos como. Sempre que estamos sem fazer nada, a internet é a solução mais atraente pois rapidamente preenche a lacuna. Quando estamos entediados, olhamos o Twitter ou no Facebook, e a ironia é que no final isso nos deixa muito mais entediados do que estávamos antes”.
E não, eu não vou mudar a minha foto do perfil.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Publicado em 10/10/2013 por em Gabriel Pardal.
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