ORNITORRINCO

ESTAMOS TODOS UNIDOS PELO CHÃO

Eu só sei escrever em emails. É assim que eu começo este texto, numa caixa de mensagem do Gmail porque eu não abro o Word desde a versão 97, a última que eu soube mexer. Por mais que o Windows se chamasse 98. Mas eu me mando muitos emails. Para lembrar de coisas, tipo ligar para fulano. Ou para anotar o que não tem caneta e papel. Foi assim com este texto. Eu escrevi: eu penso muito em aviões. E me mandei essa frase sei lá por quê e pra começar sei lá o quê. Provavelmente porque eu estava pensando em avião, e para começar este texto. Quando eu tinha 12 anos, eu tive um fã-clube dos Paralamas do Sucesso. Em 1995, eu assisti o “Vamos bater lata” na grade do Metropolitan e vi Chico Science abrindo o show. Fiz parte pela primeira vez de um coro que celebrava a maconha e aquilo já era a segunda atitude transgressora da noite. A primeira foi entrar no Metropolitan aos 12 quando a idade mínima era 14. A Nação Zumbi cantava “Macô…” e a plateia completava com “nha!”. Os Paralamas entraram no palco, como que saídos do poster do meu quarto, do Disk MTV, e isso me marcou, eu me uni a uma multidão. Talvez tenha sido a primeira vez que fiz parte de uma multidão. O Maracanã foi antes, mas não é show de rock. Fato é que eu tinha 12 anos e o cartaz que eu tinha pendurado em cima da minha cama era dos Paralamas do Sucesso, e no show tinha uma música em que Herbert cantava que “o viajar já é mais que a viagem”. Eu adorava isso. Eu adoro estradas e toda vez que estou numa penso nesse verso que é quase gerúndio e que já é a viagem. Eu penso que eu gostaria de estar fora dessa cidade quase todos os dias (como se eu fosse a única) e eu anoto essas coisas que eu penso. Por isso os aviões, os Paralamas, este email e este texto.

Eu já viajei muito sozinha e o maior consolo para as horas que eu não gostaria de estar sozinha, ou na volta pra casa depois do jantar, na rua à noite, em um canto de mundo, era Bob Dylan. “How does it feel to be on your own, with no direction home, like a complete unknown, like a rolling stone”. Lagriminha de felicidade embriagada. Nessas aventuras além-mar, nas américas selvagens, na ilha do comandante, na ilha de sobrenome Noronha, eu desenvolvi estratégias, gostos e uma lista de coisas que fazem meu coração bater diferente. Cada um tem o seu bater diferente. Pense nos seus. Mas por exemplo, arrastar mala em outro país faz o meu bater diferente. Procurar um endereço em uma cidade outra também. E achar.

Vez ou outra, faz bem falar sozinha. É estranho ficar 
muitas horas sem falar, sem ouvir sua própria voz, sem 
saber se você vai conseguir falar de novo se você tentar. 
Numa dessas, pensando muito e falando nada eu tentei 
calcular quantas coisas eu conseguia pensar em 2 minutos.

Entre as estratégias, descobri que em muitos casos eu podia escolher a vida de quem eu ia ouvir na mesa ao lado. Lembro muito de uma situação em que escolhi mãe e um filho adulto, que parecia ter a minha idade. Só para saber como é. Nos outros.

Eu sempre tenho um caderninho num restaurante. Porque comer e beber sozinha é a parte chata de viajar só. Um caderninho também dá uma camuflada. Você fica mais parecida com as paredes, as pessoas não prestam muito atenção, nem o garçom te pressiona com o olhar (ou a falta de) para você sair fora. Com o caderninho na mão, é deixar a pedra rolar. Em 2009, por exemplo, eu escrevi: “não ser um casal que sai de manhã com roupa de jogging para fazer exercício junto” e outra observação dentro do mesmo tema: “não ser um casal com o Lonely Planet na mão decidindo o que fazer”. São coisas que me apavoram um pouco. Talvez menos hoje, confesso. Talvez sob outra ótica hoje, confesso.

Mas a “onda do sorvete de chá verde do lado direito da boca” também está lá, naquelas páginas de 2009. Eu fiquei viciada em sorvete de chá verde, que tem nos cardápios de restaurantes de comida asiática. Depois descobri a versão Haagen-dazs, que você pode comer independente de sentar para um curry, em pleno meio de tarde. Oh!

Eu tinha acabado de ver uma caixa de filmes do Kar Wai e estava deslumbrada com a fotografia do Christopher Doyle, com os currys, com os patos enquanto prato, o arroz perfumado, e tinha duas vontades segundo meu caderno: “filmar uma cozinha saturada” e “filmar uma cozinha dessaturada.” Nunca fiz promessa, mas parece que nesse dia fiz, porque está anotado, em modo random. Mas eu não vou contar.

Vez ou outra, faz bem falar sozinha. É estranho ficar muitas horas sem falar, sem ouvir sua própria voz, sem saber se você vai conseguir falar de novo se você tentar. Numa dessas, pensando muito e falando nada eu tentei calcular quantas coisas eu conseguia pensar em 2 minutos. Foram muitas. Mas eu não sei dizer quantas. Porque um pensamento leva a outro e você não sabe se aquilo foi uma coisa que você pensou ou não. E a conclusão que eu cheguei foi que se eu tivesse nascido com talento para dormir eu também teria talento para não comer. Uma analogia aparentemente sem sentido, mas se a gente for procurar trata-se de ansiedade. Ponto.

Mas há todo um mundo lá fora dessa mesa, desse caderno, desses ouvidos abertos, desse mergulho nas águas de si e conhecer pessoas é genial. Conhecer pessoas árabes é genial. Eu adoro ouvir histórias de um mundo que mistura mil e uma noites com a pauta do conselho de segurança da ONU. Mas independente do fetiche árabe, conhecer gente e conhecer gente sem trocar um guardanapo com telefone, adicionar no facebook ou mandar um sms com emails mútuos eu considero uma fração de beleza. Conhecer alguém, trocar meia dúzia de palavras ou de horas, e não saber se seremos dois seres humanos a se esbararrem de novo na Terra! A probabilidade é mínima, claro. E não vou fazer essa conta porque pode incluir variantes como estarmos ou não na mesma cidade, o que aumenta bastante as chances. Ainda assim serão poucas.

Eu coleciono rostos, com fotos ou sem, que eu cruzei desde a primeira vez que eu viajei sem meus pais. Foi também a primeira vez que eu peguei um avião e que eu tive um passaporte. Eu tinha 15 anos e descobri que o mundo acontecia simultaneamente à São Clemente, e que era bilhões de vezes maior que os trajetos que eu fazia nos circulares e no 522, que não era circular mas me trazia de volta pra casa. Não sei por onde andam esses rostos. Onde estão neste exato momento, com o quê estão trabalhando, se estão satisfeitos. Se acordam cedo amanhã, se alguma vez pensaram em mim. É honesto. Esse encontro que é quase um esbarrão na multidão do acaso. Estamos todos unidos pelo chão.

Clara Cavour é documentarista.

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Publicado em 09/10/2013 por em Clara Cavour.
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