ORNITORRINCO

PARA ONDE O MURO SOPRA


Quando cheguei ao hotel na rue Vieux Colombier, no 6, fiquei espantado com a igreja Saint-Sulpice. De fato, não havia como não entregar-se àquele amarelo ouro que surgia no fim de tarde. Em frente à Igreja, havia uma fonte, que de madrugada, o som das águas caindo ganhavam um sentido quase místico.

Seria a primeira vez que ficaria sozinho em Paris após dez dias na rue des Vinaigriers, no 10, com Dado e Dri. Era apenas eu. Do quarto se via a igreja e a esquina da rue Bonaparte. Sem sol em outubro. O quarto era pequeno, com uma mesinha redonda e um papel de parede quadriculado. Era de manhã ainda quando cheguei ao hotel. Fui recebido por Pilar, espanhola de Madrid, gerente do hotel charmoso num prédio antigo, de uma Paris que não há mais, e que hoje, abriga apenas os ricos de outros países.

O 6eme arrondissement é famoso pela sua história. Por ter sido um dos primeiros bairros de Paris e também o lugar onde, de certa forma, cresceu o existencialismo. Há uma praça em frente ao Deux Magots e o Café des Flores, com o nome do Sartre e da Simone de Beauvoir, mas, os preços e, sobretudo, a frequência dos históricos lugares não lembram nem de longe o “verdadeiro lugar da liberdade” que Sartre disse uma vez e que serve de “introdução” ao cardápio/revista do Café des Flores e seus caríssimos omeletes. Pensei que seria infeliz naquele lugar excessivamente burguês.

Deixei minhas coisas no hotel e fui andar. Atravessei a praça Saint Sulpice e fui atraído por uma estreita rua de paralelepípedos, bem característica de Paris, que daria de frente ao Jardim de Luxemburgo. Rue de Férou. Já me sentia dentro de um filme ou algo parecido, quando me deparei com um enorme muro onde estava grifado, enorme, o Le Bateau Ivre.

Comme je descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me sentis plus guidé par les haleurs:
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles
Les ayant cloués nus aux poteaux de couleurs.
Absolutamente pasmo, fiquei diante do poema de mais ou menos vinte metros de comprimento, curiosamente, escrito da direita para esquerda. E estava lá, inteiro, magnânimo.
Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème

De la Mer, infusé d’astres, et lactescent,

Dévorant les azurs verts ; où, flottaison blême

Et ravie, un noyé pensif parfois descend ;

Gargalhei quase chorando, era uma criança numa loja de brinquedos. Falei o poema em voz alta, fiz com que duas ou três pessoas parassem para ver o que eu via. Era uma das únicas homenagem que Paris fazia ao poeta de Charleville, pois, como se sabe, a França enaltece seus heróis, suas estrelas, e Paris, tal uma loba, somente seus filhos diletos.
Não entendi porquê o poema estava escrito da direita para esquerda, até ler a pequena explicação ao lado do nome do poeta que traduzo assim “Por que este poema começa à direita? Rimbaud (dezessete anos) declamou Le Bateau Ivre a primeira vez à seus amigos no primeiro andar de um antigo café do outro lado da Praça Saint Sulpice (1871). Em nossa imaginação, o vento soprava da Praça Saint-Sulpice, pela noite, na rue Férou”.

Não precisava mais entender porquê tinha que estar ali, naquele bairro, com aquelas pessoas. Não liguei para mais nada, pois tinha sido tomado por um sentimento de acolhimento, de certeza. O poeta estava lá comigo, e me acompanharia desde então.
Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,

Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,

Ni traverser l’orgueil des drapeaux et des flammes,

Ni nager sous les yeux horribles des pontons.
Nos trinta dias que fiquei naquele hotel da rue Vieux Colombier, creio que não houve um dia em que não passasse pelo grande poema, único lugar onde Rimbaud estaria de corpo, gritado, grifado, porque em Paris, quem manda, mesmo, é Paul Verlaine.


Pedro Lago é poeta.
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Publicado em 08/10/2013 por em Pedro Lago.
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