ORNITORRINCO

ESCREVA UM POEMA POR DIA

‘Escreva um poema por dia’, o fantasma lhe disse em sonho. Não fui eu quem sonhei; eu vi. Num filme, precisamente ‘HaHaHa’, do coreano Sang-soo Hong. A cena em que uma entidade aparece para um dos protagonistas e lhe diz que escreva um poema por dia (se bem me lembro, para conquistar o coração de uma mulher) ficou na minha cabeça naquele segundo dia de 2013 e, num ano que eu imaginava ser de grandes e profundas mudanças, tornou-se um lema e uma meta. 245 poemas depois (e contando…), o projeto segue de pé, tornado num diário lírico de um aspirante a artista, aprendiz andante e errante num, de fato, ano de profundas mudanças.

Em 2013 passei por uma operação no joelho que me custou seis meses de fisioterapia na moeda mais valiosa que pode existir: o tempo; pedi uma mulher amada em casamento e casei-me com ela alguns meses depois; deixei o trabalho de quase oito anos como jornalista e apresentador de TV para me aventurar num sonho de ser artista; e finalmente, pela primeira vez na vida, deixei de morar na cidade onde nasci e cresci para me mudar para, assim dita, ‘capital do mundo’. E ainda estamos em setembro…

Às vezes um acontecimento, uma pessoa ou um 
sentimento origina uma poesia inteira. Às vezes 
é uma imagem, uma referência, uma palavra ou 
um verso já completo que inicia todo o processo.

Ter os poemas por perto garante um alívio imediato a cada dúvida existencial do tipo ‘o que estou fazendo com o meu tempo’ e uma satisfação confortante e confortável de saber que, mesmo que nenhum dos outros planos desse certo em 2013, com os caderninhos rabiscados (estou indo para o terceiro moleskine) um grande projeto estaria concretizado. Como o ‘366 músicas’, que o nerd profissional Nick Ellis criou – e cumpriu – no ano passado, ao publicar a cada dia no youtube e no facebook um vídeo seu tocando e cantando uma música diferente. Ou como a ideia que a personagem de Miranda July desenvolve em seu novo filme, ‘O Futuro’, o projeto de fazer uma dança por dia.

O curioso é que, por um lado, o pacto interno de manter uma singela contribuição diária implica compulsoriamente numa maior intimidade com o artesanato da expressão em foco (no meu caso, a poesia), ao mesmo tempo em que provoca um desafio de não se repetir. Assim sendo, se percebo que pareço monotemático ou dependente de um único formato, mudo radicalmente de enfoque ou abordagem. Também por conta do ritmo de produção, me é oferecida a oportunidade de experimentar, mesclar e misturar expressões literárias. Há um poema que é um conto em si, outro que resume um conto concreto de minha autoria, também escrito neste ano, versos com cara de letra de música, poesias em formato de cantiga, tentativas de escritos em inglês, uma série de cantos e entre outras, muitas construções que, na prática, nada mais são do que crônicas líricas daquele meu dia (e alguns chegaram a virar vídeo, num esforço para ampliar as fronteiras midiáticas do projeto).

A experiência também me permite investigar, afinal, de onde vem – pelo menos no meu próprio processo criativo – essa tal inspiração. Às vezes um acontecimento, uma pessoa ou um sentimento origina uma poesia inteira. Às vezes é uma imagem, uma referência, uma palavra ou um verso já completo que inicia todo o processo. E às vezes é metalinguagem pura, viagem pura. Por vezes o resultado é surpreendente pra mim quando visto a certa distância: seja no dia ou no mês seguinte, perdi a conta de em quantas oportunidades me peguei lendo o que escrevi e pensando ‘até que isso ficou decente’ ou ‘como escrevi isso mesmo?’. É verdade também que, por vezes, o resultado deixa a desejar e soa como cumprir uma tabela, um dever. Mas sempre é trabalho. E lidando com o fazer poético, o pretenso poeta pode gozar de uma pura e primitiva liberdade ao se dar conta de que tem o poder de pegar o que quiser, adotar a forma que achar mais relevante, interessante ou provocante, e construir à sua própria maneira um verso, um poema. Afinal, adaptando uma canção de Marcelo Camelo, pergunto-me diariamente: quem se atreve a me dizer do que é feita a poesia?

Lucas Gutierrez é jornalista, ator  e escritor.

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Publicado em 08/10/2013 por em Lucas Gutierrez.
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