ORNITORRINCO

ROMANCE ORNAMENTAL

Noite, rua, beira do mar, quiosque aberto, o único vendedor está vendo uma mini-TV. Sentados nas cadeiras, embaixo de uma guarda-chuva gigante, um homem e uma mulher. Chove. Eles não se importam, duas águas de coco já foram tomadas, estão vendo os raios caindo no mar, não falam há 17 minutos. Até que:

O: – Engraçado, pensava que o poder era associado à maldade, eu não queria pensar isso, na real, mas pensava. Star Wars lascou minha cabeça.
A: – E depois Fausto?
O: – É, depois Fausto, depois O Poderoso Chefão, depois Nietzsche, depois a família, depois novelas, depois mulheres. Todos os poderosos são maus. Você não olha para o Dalai Lama e pensa “Que poder!”
A: – Eu penso. Porque o tipo de poder que eu desejo é o que ele tem. Calma, tranquilidade.
O: – Mas você é um ET.
A: – Telefone minha casa.
O: – Tem um guitarrista que fez pacto com o demônio para ser o melhor guitarrista do mundo.
A: – Por que não com Deus, né?
O: – Com Deus é milagre. É o labirinto. Do bem, o curso da vida normal. Grande labirinto. Pacto é atalho.
A: – Pacto é atalho! Eu nunca faria um pacto na minha vida.
O: – Você é muito boa.
A: – Eu sei, é horrível.
O: – Não, é lindo. Eu nunca tinha conhecido alguém bom e forte. Eu achava que pra ser forte a gente tinha que ser mau. A gente tinha que ir para o dark side.
A: – Luke, I am your father.
O: – Têm vários filmes que o vilão vence.
A: – É cinema!
O: – Mas na filosofia tamb…
A: – Não sei, eu só leio romance.
O: – Vou te emprestar umas coisas.
A: – Eu te devolvo. Eu sou boa.
O: – (rindo) Os vilões das novelas são sempre mais pops também.
A: – As rainhas más são mais curiosas que as princesas.
O: – O mundo pode ser inacreditável.
A: – Diz que a Xuxa fez pacto também para se tornar quem ela é.
O: – Nunca saberemos a verdade.
A: – Gosto de pensar que ela não fez, que ela é isso mesmo.
O: – Você é tão boazinha.
A: – Ela fez, né? Dizem que uma galera pesada aí do mundo das celebridades fez pacto. Até acredito em ritual. Em entrar no mar e conversar com as entidades, pedir agradecer, mas fazendo um pacto eu vou ter um preço a pagar, e sabe-se lá o que vai ser.
O: – No milagre, não há preço pelas benesses do bem. Vale mais.
A: – Mas o milagre é loteria, né? O pacto é garantido? Como é? Você chama o Diabo? (gargalham)
O: – Diabooo, demônioooo…
A: – Ou você vai num lugar específico? E será que tem garantia mesmo assim? E o que ele leva de você em troca?
O: – Grande demência! Me irrita que as mulheres poderosas não são tão femininas, eu ia ach…
A: – Que caô! Várias mulheres poderosas femininas. Aquelas gurias do vôlei, super femininas, unha, cabelo, batom e com uma medalha de ouro no peito.
O: – Na política não rola tanto, a Dilma, Margaret, Condolezza, o poder pode ser meio brusco, não estou condenando, é inconsciente talvez, quanto mais demandas elas têm, mais ela podem se esquecer de algum contato íntimo pessoal…
A: – Mas são mulheres que correm com lobos. Não há escolha. Algumas mulheres escolhem ser outra coisa. Coisas que não são, coisas que desejam. Umas conseguem, outras ficam ridículas, pobrecitas. São apenas um simulacro do que almejam. Mas há uma parcela que não escolhe. Que é. Derruba tudo sendo. Mas é. Apesar d’eu ser boa, eu me encaixo nesse quesito. Seria bom tentar ser má. Mas quando vejo eu já tô devolvendo o troco que me deram errado.
O: – Ou ajudando as velhinhas do mercado que não alcançam as prateleiras do alto.
A: – Mesmo atrasada! Sou muito boa mesmo.
O: – Te contei que outro dia dei uma volta na lagoa e todas as pessoas que passaram por mim, todas, todas falavam de amor? De alguma maneira, um trecho que fosse.
A: – Que louco. Mash-up seleção natural da vida. Fazia sentido?
O: – Como?
A: – As frases! Uma mulher falava alguma coisa e a próxima pessoa que falava tinha a ver com a outra frase ouvida?
O: – Às vezes sim.
A: – Uau, místico. Tarô oral.
O: – Achei bem aleatório e bobo, meio ridículo.
A: – Por que? Eu ia ficar arrepiada.
O: – Porque me mostrou o quanto as pessoas são clichês, e as histórias de amor se repetem, não há ineditismo algum.
A: – É um cover do amor.
O: – Uma vez ouvi numa música “até o amor ser bom, ele é tão ruim”

Silêncio de quase 1 minuto.

A: – Sabe qual a distância desse raio?
O: – Como?

A: – Você ouve o trovão e começa a contar, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9… Ai quando o raio cai, você para a contagem. Nove. E sempre divide por três. Nove por três, três. Esse raio está a três quilômetros de distância.
O: – Olha!
A: – Maurício de Souza que me ensinou.
O: – Uma dia você escreveu que eu era um raio, fiquei meio triste.
A: – Mas você é. Você ilumina.
O: – Momentaneamente.
A: – Pelo menos, ué! Tem gente que não tem mísero facho de luz.
O: – Você é vaga-lume.
A: – Eu não sou nada. Só sou boa.
O: – E nem tão boa assim você é.
A: – Ah não?
O: – Não, você é boa e tem poder, uma coisa rara, mas você também sabe ser má, se precisar. Tem gente que não consegue.
A: – Não, se me magoam, eu só fico triste mesmo, tenho pouco escorpião no meu mapa, não curto vingança. Acho curioso a maldade pela vingança. Se me decepcionam, eu fico tão borocoxô que tomar uma atitude vingativa me tomaria muito energia. E triste eu fico sem.
O: – Nunca te magoaram sério então, que bom. Porque tem uma hora que você se rebela.
A: – Não, tem uma hora que eu me escolho, me prefiro. Escolho minha sanidade, minha boa água no corpo. Não má água no corpo. Mágoa. Ó! Má-goa. Já tinha reparado?
O: – Ó!
A: – Você já viu Ligações Perigosas?
O: – Já, claro.
A: – Tem uma cena que:


O: – É, o mundo muda pouco mesmo.
A: – Meus netos ainda vão ver notícias sobre conflitos no Oriente Médio.
O: – Notícias sobre o verãnico no Arpoador em pleno inverno.
A: – Notícias sobre as escolas de samba falando sobre o café!
O: – Cenas finais de novelas com conflitos amorosos!
A: – Não sei porque filmam de novo, é tudo igual mesmo.
O: – Mas é triste quando ela fala que os que mais merecem amor não são felizes com ele.
A: – O amor é uma grande caldeirada incalculável.
O: – Faz parecer que a gente tem que cozinhar.
A: – Mas a gente tem. Alguns pratos demoram cinco horas para ficarem bons, outros é só tssss, chapar mesmo. Não há garantias. Tem gente que passa dez anos num cozimento amoroso mas o prato pode nem ser tão bom quanto um tssss.
O: – Tsssss.
A: – É importante saber o tempo do fogo.
O: – Eu não sei.
A: – Só sei que quem ama baixa a guarda. Sendo tão alta, fica difícil pra mim.
O: – En guarde?
A: – Touchée?

Para de chover, nuvens se dissipam no céu rapidamente, parece desenho animado. De repente a lua, de repente as estrelas, de repente surge um homem tocando saxofone.

O: – Se ele tocar Night and day, eu fico pelado e saio correndo pela praia.
A: – Se ele tocar Summertime, eu recolho suas roupas e te visto com calma e carinho.

Saxofone:
Eu amei-e-amei-ai-de-mim-muito-mais-do-que-devia amar
E-chorei-ao-sentir-que-iria-sofrer-e-me-desesperar
Foi-então-que-da-minha-infinita-tristeza-aconteceu-você
Encontrei-em-você-a-razão-de-viver-e-de-amar em paz
E-não-sofrer-mais-nunca mais
Porque-o-amor-é-a-coisa-mais-triste-quando-se-desfaz
O-amor-é-a-coisa-mais-triste-quando-se-desfaz

Ele resolveu ficar pelado mesmo assim, ela também resolveu recolher suas roupas. E por fim, vesti-lo. Com calma e carinho. Era a primeira promessa que cumpriam. Volta a chover.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 07/10/2013 por em Letícia Novaes.
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