ORNITORRINCO

A FALTA DE EDUCAÇÃO QUE NOS EMANCIPA

Os policias fluminenses podiam muito bem desobedecer o comando que solicita a eles que vandalizem os professores e manifestantes em geral, mas se prostram a este tipo de ordem. Claro, não bastaria que apenas um se negasse a tal ordem, é necessário solidariedade e coesão para que a rebelião funcione.

É um trabalho bem feito a instituição das hierarquias e a introjeção dos comandos na formação do espírito de rebanho no seio da sociedade. Começa desde cedo, antes nas famílias, hoje nas carteiras das escolas e nos produtos enlatados das mídias que promovem um bombardeio de dar inveja as blitzes nazistas. É que o processo ganhou uma escala fabril e os próprios pais não podem mais se encarregar da formação dos filhos, absorvidos que estão em obedecer as ordens para as quais foram preparados.

A escola burguesa como já se sabe é também um dos lugares de maior exercício de poder e adestramento, onde as direções e modelos pedagógicos tatuam normatizações sob o véu da persuasão e do bom senso, sob o velho lema: “é melhor para você”. Sem esquecer que cada um é tomado como um modelo médio já escalonado e a todos é dado o dever de casa de instituir classificação para tudo.

A escola burguesa como já se sabe é também 
um dos lugares de maior exercício de poder e 
adestramento, onde as direções e modelos peda-
gógicos tatuam normatizações sob o véu da persuasão 
e do bom senso, sob o velho lema: “é melhor para você”.
Quero dizer que esse exercício crítico em que adentro, em nada altera minha posição política em apoio aos professores da rede estadual e municipal do Rio de Janeiro que neste instante conclamam, não apenas pelo seus interesses de profissionais mal remunerados e mal tratados, mas também pela melhoria das condições das escolas públicas.

Mas gosto também de refletir o quadro como um todo. Vivemos num mundo com diversos interesses em conflito, cuja a tônica é a concorrência universal, manifesta na guerra entre as nações, a espionagem, e outros tantos conflitos de poder evidentes, que em sua maior parte empenham-se em conseguir o rótulo humanista — maquiagem que como beleza vale tanto quanto fumaça. No âmbito da vida cotidiana, a mentalidade econômica já começa a submeter completamente as diversas esferas do viver e já quase não há espaço onde não funcione a catequese mercantil.

Os manifestantes “vândalos” expõem claramente esse momento de crise profunda que vivemos em escala planetária. Ao dirigirem sua revolta, mesmo contra o lixo, atestam a insignificância do humano num sistema que, mesmo as custas da exclusão física e simbólica constante, exige apenas não parar de funcionar. Não importa que uma avenida fique fechada por algumas horas (ou mesmo por um dia), por conta da ação desses “vândalos”, nem que algumas vidraças sejam destruídas, não, o que importa é saber se as pessoas poderão caminhar para seus empregos e trabalharem como baterias ambulantes e se poderão mais tarde consumir nos templos sagrados do comércio, nos universais e suntuosos shopping centers; importa saber se o filme de Hollywood que custou 300 milhões de dólares conseguirá ser um negócio vantajoso para seus investidores.

Professores protestam no Rio de Janeiro (Foto: Reynaldo Vasconcelos)

Aqui não se pode ser um milésimo ingênuo: não vai haver espaço para todos nesta luta obstinada, com a avareza do caráter anal, por um quinhão de consumo nesse paraíso artificial em construção. A educação, que muitos reclamam poder nos colocar como país de primeiro mundo, face ao ponto de partida de nossa riqueza material de território colosso, é a educação para competição em provas, testes, concursos públicos e toda as formas de competição com a ‘ética’ ao estilo do “aprendiz”. Essa é a tônica do primeiro mundo e se ele funciona com mais civilidade é porque exporta o pior de sua corrupção para a periferia, testando remédios nos países africanos, enviando lixo hospitalar para o Brasil, dando as suas firmas a possibilidade de reconstrução de um Iraque destruído. Não há nada de excepcionalmente mais moral e humano em Nova York, Londres, Berlim ou Paris que não tenha sido conquistado pela subjugação de outras partes.

Esse tipo de educação reclamado é o que no caso brasileiro foi dado aos que estudaram em escolas particulares e ingressaram finalmente em bem equipadas universidades públicas ou continuaram financiados pela família em instituições privadas de ensino. Não se trata de uma educação com viés humanista, não se trata de uma educação cidadã em respeito ao próximo, que vença a indiferença eliminando a indigência, a exploração sexual e tantas outras mazelas que diminuem os potenciais humanos e atola a convivência numa sordidez miserável.

Não se trata de uma educação com viés humanista, 
não se trata de uma educação cidadã em respeito ao 
próximo. Trata-se antes de uma educação para saber 
obedecer ordens de algum dirigente, com o ‘sonho’ de 
um dia se tornar também um mandante.

Trata-se antes de uma educação para saber obedecer ordens de algum dirigente, com o ‘sonho’ de um dia se tornar também um mandante, sadomasoquismo completo. Uma educação que nos diz toda a cartilha de bom comportamento em nosso trabalho, um trabalho aliás destituído de significado criativo porque é exercido por conta da grana e do status e onde, no mais das vezes, não é permitido ‘colocar-se’ nas atividades desenvolvidas.

Provavelmente ‘esta’ falta de educação generalizada seja, pelo contrário, o principal elemento emancipador de uma cultura que se arrasta num tédio por um porvir que não diz mais nada, que não representa nenhuma expectativa de nova forma de convivência, mesmo porque ter expectativa — além de ser uma demanda dificílima para quem vive em situação precária — também está banido do repertório de um tempo que julga que as paixões precisam ser desidratadas, que a impessoalidade de coisas deve subjugar as relações humanas e, portanto, o lugar de chegada é a própria repetição de um viver cotidiano automatizado, onde a felicidade é um projeto claro e sem espaço para criações: o poder de consumo e participação nos eventos sociais catalogados, em outras palavras, a necessidade de diferenciação para hierarquização e vitória na concorrência, delineamento que começa bem lá onde se acreditava estar sendo ‘educado’.

Longa vida aos analfabetos da educação para a concorrência!

Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 03/10/2013 por em Júlio Reis.
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