ORNITORRINCO

COMO NÃO MORRER NOS VIDEO-GAMES (OU NOS CAIXAS ELETRÔNICOS)

Então é assim:

O mundo cresce e cresce e acumula cultura em forma de literatura, poesia, artes plásticas, fotografia, cinema, teatro & dramaturgia e tantas outras linguagens que se ramificam e evoluem. A partir dessas linguagens nascem obras que marcam o rosto de um mundo velho com rugas que o tornam mais novo. A cultura fotografa as voltas do planeta. Nossas estantes, nossos museus, nossas idas ao Theatro Municipal são o álbum de fotografias onde se cristalizam as histórias das civilizações. Em clássicos, em jornais e revistas, em Santos Sudários.

Ok, pára.

Corta pra gente.

A gente cresce e tem a nossa formação cultural em um par de décadas que, a cada geração, se tornam mais velozes.

Há 30 anos atrás, as novidades artísticas se proliferavam no âmbito popular com mais rapidez que as novidades tecnológicas. O mundo ainda era bem mais dividido por ideologias que por mercados. Mas uma coisa sempre foi igual. Sempre houve uma peneira cultural afunilando as rugas do mundo para que elas coubessem em uma nova década.

Isso é, em parte a cultura evoluindo, em parte a cultura diluindo.

O mundo cresce e cresce e acumula cultura em 
forma de literatura, poesia, artes plásticas, fotografia, 
cinema, teatro & dramaturgia e tantas outras linguagens 
que se ramificam e evoluem. A partir dessas linguagens 
nascem obras que marcam o rosto de um mundo 
velho com rugas que o tornam mais novo.

Eu tenho 34 (vinte e qüatorze) anos. Minha geração — incluindo aí gente 5 anos mais velha ou mais nova que eu — viu a transformação de um mundo do século 20 em um mundo futurístico bem mais tecnologicamente avançado do que o mundo que nos eram descritos pelos clássicos do sci-fi.

A internet transformou o mundo. Mas, antes disso, o videogame definiu a linguagem da internet. O videogame redesenhou a maneira de se interagir com as máquinas. E só então, a internet pode evoluir e chegar ao seu World Wide Web.

Dos caixas eletrônicos ao internet banking. Dos minigames que jogávamos no banco de trás dos automóveis aos lança-mísseis computadorizados da guerra do Golfo. Das máquinas da Xerox às máquinas da Apple. Todas são interações gráficas antes popularizadas pelos consoles da Atari. Se, em um primeiro momento, os jogos de Atari (e Oddissey!) nos envolveram em sua linguagem abstrata graças aos seus desafios, nos momentos seguintes, os jogos acessaram nossos corações e nos causaram emoções. E, quando isso aconteceu, eles passaram a ser parte da nossa cultura tanto quanto os livros, os filmes e os discos. Eles apresentaram novas maneiras de se fazer e também de se consumir arte com seus Kindles, Boxees, iPods e afins.

Videogame é mais uma linguagem. Filha do cinema, neta do teatro e bisneta do livro. Pode-se fazer poesia com videogame. Pode-se discutir a vida e os sentimentos. Pode-se falar de amor, de saudade, alegria, medo e morte. E isso tornou-se, muito cedo, parte da minha — e, provavelmente, da tua — formação.

Dos caixas eletrônicos ao internet banking. Dos minigames 
que jogávamos no banco de trás dos automóveis aos lança-mísseis 
computadorizados da guerra do Golfo. Das máquinas da Xerox 
às máquinas da Apple. Todas são interações gráficas antes 
popularizadas pelos consoles da Atari.


A primeira vez que me emocionei com um jogo foi com um Nintendo, assistindo a abertura de Mega Man 2. Os blips de uma música nostálgica mergulhando no meu peito. Do lado esquerdo, ao longe, uma metrópole solitária se protegendo da cor da noite com suas luzes artificiais. Do lado direito, um edifício de muitos andares em plano fechado. A câmera escala o edifício e a cidade esquece a tela, dando lugar ao negrume do céu. A música acelera a panorâmica até o topo da torre e lá nos damos pela primeira vez com nós mesmos, Mega Man. Roupa azul futurística. Sorriso confiante, cabelos ondulando ao vento. Um glissando sintético transforma a música em um novo tema, acelerado. O passado embaixo, o futuro em cima. Apertei start.

Os temas musicais, os timbres, o minimalismo dos 3 canais de áudio… tudo aquilo exalava solidão e aventura. Uma tristeza… um perigo… A trama lúdica se tecendo graças à música. Aquelas frequências quadradas, os timbres, um eco digital, matemático, controlado. A força dramática do tema completando, na minha cabeça e no meu coração, o sentido de todas as abstrações animadas, as cores chapadas que ascendiam a tela e se tornavam narrativa. O trato estava feito, as batalhas, os encontros, os penhascos, os duelos.

Por causa dos bonecos, dos Thundercats, do He-Man, dos GiJoe, eu pensei que faria brinquedos. Por causa dos brinquedos, pensei que faria cinema e jogos de computador. Por causa das trilhas dos filmes e dos jogos, me tornei um compositor. E agora, quando gravei meu segundo disco, “BLAM! BLAM!”, precisei cruzar os mundos. Precisei revisitar aquelas frequências quadradas, aqueles timbres primários, aqueles delays matemáticos. Precisei fazer — fora da minha cabeça — os filmes que joguei e misturar aquela síntese digital com a verdade total dos instrumentos acústicos. Misturar a força do som abstrato que se transforma em nossas cabeças com as letras narrativas, com cordas, sopros e percussões. Toquei sintetizadores de 8 bit, fiz programações…

E sampleei aquela música da abertura do Mega Man 2.

Já que sampleei aquelas primeiras notas que me abriram as portas da imaginação, resolvi me comunicar com a compositora do tema, Manami Matsumae. Avisar que eu a tinha sampleado e a conhecer. Fui parar no Facebook. Fiquei vendo suas fotos. Os teclados dos sonhos que ela queria ter dinheiro pra poder comprar. O e-mail da maratona de Osaka lhe dando a triste notícia de que as vagas já estavam preenchidas. As comidas incríveis que ela fotografa antes de comer nos restaurantes. O filho com 8 amigos jogando videogame em uma sala que poderia perfeitamente ser a casa da minha avó na época que ela frequentava a PL. A varanda fechada com as luzes artificiais da cidade se escondendo por trás do brilho do vidro. Tudo tão simples e tão diferente. Tudo tão bonito e esperançoso.

Ela até sabe que é uma espécie de estrela do mundo dos games mas a vida é mais importante que a arquitetura. Ela vive pelo sonho.

Quando lhe mandei a minha música com o sample do Mega Man, sua resposta foi gentil e generosa. Ela ama música e ama falar do que as canções a fazem sentir. É uma mulher que mudou a história de uma legítima cultura contemporânea e formou 10 (talvez 15?) anos de gerações pelo mundo inteiro graças à um cartaz, pendurado num mural da faculdade, oferecendo um empreguinho em uma desenvolvedora de jogos.

Os gigantes crescem por acaso. Eles não pedem para se tornarem os colossos que são.

E, afinal de contas, existe alguma coisa nessa vida que é por acaso?

Jonas Sá é cantor, compositor e produtor.

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Informação

Publicado em 02/10/2013 por em Jonas Sá.
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