ORNITORRINCO

A NOVA ALQUIMIA

*Este texto foi idealizado há um tempo. Na verdade, ele era para ter sido feito com um tempo estimado, uma data: 14/08/2013. Mas, como sempre, tudo na vida tem seu tempo.

Lembro-me, na infância, de me perder muitas vezes na estante de livros do meu pai. Mesmo contrariando minha asma (os livros velhos e antigos são ótimos para deixá-la agitada), eu passava bastante tempo pendurado nela. Olhando, tirando e recolocando os livros no seu devido lugar. Mas, minha habilidade em sebos, só fui aprender depois, com o tempo – os mais atentos notarão que minha mania de arrumação vem desde os tempos mais primórdios. Existia um livro exótico e bastante chamativo naquela estante, de capa crespa e azul e que sustentava a foto de um velho barbudo assim que nem eu. É, no auge dos meus 25 anos, me sinto velho já faz um tempo. Algo naquele livro me chamava a atenção. Se era a capa crespa e azul ou se era a barba do velho com cara de sábio, eu não sei responder. Eu sei que meu pai sustentou uma adoração por sábios, discípulos, ensinamentos e esoterismo. Mas nada de Paulo Coelho! Esse veio da mãe, a Coelhona. Amo este conjunto de coisas absurdas dentro da minha genética. Mas só fui aprender a amá-las com o tempo.

O nome do livro? “A Nova Alquimia” de Bhagwan Shree Rajneesh (também conhecido como Osho), da editora Cultrix. Meu pai me alertava: “Filho, olha, este livro tem uma leitura difícil. Na verdade, não é que ela seja difícil, mas você precisa estar preparado para aceitar a leitura. Vai chegar seu tempo.”

Meu pai teve a brilhante ideia de presentear cada um 
de seus filhos com um livro de sua estante. E ainda 
deixou uma dedicatória para cada um. 

A minha professora disse-me há pouco tempo, quando apresentei-lhe outro livro editado pela mesma editora Cultrix: “Cultrix? Ih, não curto muito os livros dessa editora…”. “Mas professora, custou apenas sete merréis no sebo. Tá valendo…”, eu respondi recolhendo meu livro e fugindo do assunto. Até as pessoas aprenderem que o real valor de um livro não cabe dentro dele, muito menos dentro de uma editora ou de um sebo, vai levar um tempo.

Voltando ao Bhagwan, após um período de ausência das lembranças da minha relação com ele, num belo dia, quando chego para passar o final de semana na casa do meu pai, deparo-me com ele, cara a cara. O livro, não o Bhagwan. Meu pai teve a brilhante ideia de presentear cada um de seus filhos com um livro de sua estante. E ainda deixou uma dedicatória para cada um. Meus irmãos receberam uns livros de psicologia, obviamente, que eu só fui aprender sobre, meio que por osmose, através do tempo. Mas naquele momento, com a possibilidade real e concreta de receber aquele livro, de tomá-lo do meu pai e de dizer abertamente este livro agora é meu — meus irmãos, depois de um tempo, me explicaram que Freud explica —, senti que estava sem reação e sem mais ambição. É como você lutar por um brinquedo e, após conquistá-lo, largar de lado. É só para tomar dos outros. Mas não, aquela não era a hora. Aquele não era o tempo. E acabei perdendo meu livro de vista. Ele ficou perdido há um bom tempo, até que, dias antes de chegar o dia dos pais, eu acabei novamente redescobrindo-o.

Tudo tem seu tempo para acontecer, tudo tem sua hora. O livro voltou e poucos dias antes do dia dos pais, tive uma briga séria com o meu. Estamos distantes desde então. Não sei o que acontece, mas acho que a sincronicidade ajuda na elaboração do espetáculo. Acredito muito em fases e ando numa fase em que a minha busca agora é descobrir uma maneira d’eu atingir minha espiritualidade. Tenho participado de algumas experiências espirituais, e neste ponto, até o teatro entrou na dança. Novos rumos, novas vidas. Novos tempos chegaram.

Na dedicatória do livro, meu pai me alertava novamente: “Braulio, não transforma substância bruta em ouro, como antigamente se desejava. Transformar o homem em ser o humano é o que se busca. Seja um alquimista de você mesmo e de sua vida! Um beijão! Aristóteles, 14/08/1998”. Pela época, deve ter sido no dia dos pais. E sim, tenho um pai psicólogo, chamado Aristóteles e que curte esoterismo e facebook.

ALERTA GERAL! Nas caixas de som, um pouco antes d’eu começar a escrever este texto, no dia 14/08/2013, tocava o álbum “Tábua de esmeralda”, Jorge ben. Taí, isto me fez pensar que ter uma vida espiritualmente tranquila é viver numa ilha paradisíaca, dessas ilhas que tempo nenhum chega, com a minha viola debaixo do braço, surfando com a minha tábua de passar – como naquela música do Gabriel, O pensador – e ao lado de uma menina mulher de pele morena. Dessas tropicanas até o caroço. A felicidade é isso gente, é estar com alguém que ri quando uma formiga invade sua calça e que reclama do sutiã pequeno. É uma gostosura que vem de Minas. E com o tempo, esta felicidade acaba se transformando num queria me enjoar de você quase impossível.

Mas, enquanto este tempo não chega, os alquimistas estão chegando.

P.S.: Por todo som e fúria que nos une, pai obrigado.

Braulio Coelho é poeta, músico e educador.

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Informação

Publicado em 26/09/2013 por em Braulio Coelho.
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