ORNITORRINCO

HOJE É DIA DE ROCK, BEBÊ

Estou num táxi atravessando a Zona Sul do Rio de Janeiro às três horas da tarde de um domingo insuportavelmente ensolarado. Do meu lado está o colunista Vitor Paiva. Estamos indo para o Rock in Rio 2013 na missão de cobrir o dia de hoje para o ORNITORRINCO.

Pergunto pro Vitor se ele ficou sabendo da repercursão do shows dos dias anteriores. Se viu algum show na televisão ou internet. Li que a Beyoncé fez 20 trocas de roupas e dançou Lelek Lek (se você não conhece essa música, então volte vinte casas e boa sorte). Achei uma maravilha ver a Beyoncé girando prum lado e girando pro outro. No entanto, ou ela sua como um camelo no deserto ou não entendo mesmo a necessidade de trocar vinte vezes de roupa. O meu gosto por outro tipo de música se choca completamente com essa escolha de excessos de imagens se sobrepondo à qualidade musical. Quem escolhe o line up do festival? Qual sobrinho Medina é responsável por isso? E por que quase sempre eu não tenho a mínima curiosidade em ir assistir à nenhum dos shows?

Devo dizer que essa é a primeira vez que vou ao Rock in Rio, e mais, só estou dentro deste táxi porque conseguimos de graça o ingresso para fazermos essa matéria.

Os shows de hoje no palco principal: Jota Quest; Alicia Keys; Jesse J; Justin Timberlake. Quero deixar logo claro que esse texto aqui não vai se preocupar em fazer críticas às apresentações. Primeiro porque não me interesso musicalmente por nenhum dos convidados; segundo porque não me sinto capaz de fazer uma crítica musical; terceiro porque estou mais interessado na experiência do festival do que em assistir os shows.

Nossa missão agora é chegar num hotel pomposo da Barra da Tijuca (Zona Oeste do Rio) para pegar nossas entradas. O Vitor me diz que nossos ingressos são VIPs, o que nos garante uma quantidade infinita de bebidas e comidas até o rock se revolucionar like a rolling stone um milhão de vezes. Como hoje é o dia do Pop no Rock in Rio, então é bem possível que o número de adolescentes seja maior que o de “senhores” da nossa idade, o que quer dizer que no caso da área VIP, é provável que estaremos cercados pelos atores da novela teen Malhação. Ou seja, prevejo que não conheceremos mais da metade das pessoas que estarão lá.

O Vitor me diz que nossos ingressos são VIPs, 
o que nos garante uma quantidade infinita de 
bebidas e comidas até o rock se revolucionar 
like a rolling stone um milhão de vezes.

O táxi voa mais rápido do que pensávamos e chegamos no hotel às 15h40, pagamos R$20,00 e descemos até o saguão já recheado de pessoas prontas para embarcar nas vans, estacionadas na frente do lobby, em direção à Cidade do Rock.

Pegamos nossos ingressos e pergunto com quem podemos falar para irmos de van. A moça simpática dos ingressos nos informa que não temos direito a van. Frio na espinha. O espaço onde o Rock in Rio acontece é praticamente no fim do mundo (exceto que, para quem mora no fim do mundo, o fim do mundo é onde eu moro). Mas segundo o Produtor Secreto (que é como vou chamar a pessoa que nos conseguiu os ingressos) disse que uma dessas vans iria nos levar. Ela repete que no nosso caso não, mas que seria muito simples pegar um ônibus até Alvorada e de lá um outro ônibus até o nosso destino. Olho para o lado e vejo em uma outra sala uma entrada informando que é ali que se faz o check in para embarcar nas vans. Possuído de uma inédita auto-estima quente (é um domingo de muito calor, e esse calor está mexendo com minha cabeça), pensei que poderia jogar uma conversa com os responsáveis pelo transporte e conseguir duas vagas pra gente.

Entro na sala e vejo a marca de cerveja patrocinadora do festival pelas quatro paredes. E mais, baldes com gelo e com belíssimas unidades da cerveja mergulhadas nos baldes. A boca salivou. Me aproximo de uma das mesas e informo que sou convidado VIP e que quero saber qual das vans na frente do hotel estão destinadas para nos levar (sim, dizem que quanto mais certeza você tiver, mais certo vai dar). O rapaz olha para a minha cara me estranhando, pergunta o meu nome, pergunta como consegui o ingresso e pergunta se eu sou convidado da marca de cerveja. Digo que não, minha relação com a cerveja é exclusivamente pessoal e afetiva, e que consegui meu ingresso através de um produtor do próprio festival. Talvez isso tenha soado mais estranho ainda, ele pega uma prancheta cheia de nomes e me diz “Todas as vans que estão aqui na frente são para os convidados da cerveja, ou para os artistas”. Artistas, que artistas?, penso. Pelo que sei, eu e Vitor somos artistas, por exemplo. Pergunto se ele está se referindo aos músicos. Ele responde que não, são para os artistas convidados para o camarote VIP, ou, como conhecemos, os próprios VIPs (Very Important People). Olhei pro Vitor que olhou pra mim com aquela expressão de “Esse é o mundo”. Tento usar mais um ou dois argumentos que não dão certos e nos contentamos em sair da sala, mas não sem ao menos catar, cada um, uma cerveja para bebermos do lado de fora do hotel, sorvendo a nossa “mediocridade artística”.

Bebendo a cerveja começo a pensar melhor. O Vitor me pergunta “E aí”, e eu pergunto para ele “E aí”. Eis que surge uma limosine branca do festival. Penso em chegar até o motorista e apenas entrar e falar “Vamos lá porque estamos quase atrasados”, mas minha timidez me impede. Talvez se eu bebesse mais um pouco…

O Vitor diz que essa é a nossa condição de Mendigo VIP.

Mendigo VIP. Termo cunhado pelo colunista Vitor Paiva, significa que uma hora você é VIP e tem todos os direitos cedidos à eles em qualquer momento, e de repente, por qualquer motivo, você pode voltar a ser Mendigo de volta. Cá estamos nós. Ser Mendigo VIP é estar pronto para a possibilidade de ir de helicóptero contando com a hipótese de que esse helicóptero possa, sem motivo aparente, te jogar lá de cima. Sem paraquedas.

Mendigo VIP. Significa que uma hora você é VIP 
e tem todos os direitos cedidos à eles em qualquer 
momento, e de repente, por qualquer motivo, você 
pode voltar a ser Mendigo de volta. 

No momento em que eu digo para irmos até a orla descobrir que ônibus pode nos levar até a Cidade do Rock, o nosso Produtor Secreto liga e pergunta o que diabos estávamos fazendo ainda no hotel — os shows já haviam começado. São 16h10 agora e, pelo telefone, o Produtor Secreto nos diz que vai mandar um motorista nos buscar. Pronto. De Mendigo para VIP de novo.

***

Esperamos uns trinta e cinco minutos até a hora em que o carro chega. Do lado do motorista está nosso amigo que, para proteção da sua privacidade, chamaremos de Gatão do Rock in Rio. Eu e Vitor estamos no banco de trás. O Gatão está vibrante com a nossa presença e diz que os dois dias do evento foram demais, muita gente louca e muitas gatinhas, tanto no público quanto no palco. O Gatão do Rock in Rio trabalha produzindo os shows, o que, claro, lhe faz estar em contato com as atrações do festival. Disse que a Beyoncé é uma gostosa e que a Kimbra é uma delicinha fofa.

Um engarrafamento monstruoso se desenha à nossa frente. Desde que começamos a viagem que o Vitor vem reclamando de fome. Digo para ele aguardar e esperar o prometido banquete da área VIP. No entanto, no momento em que o nosso motorista pára num posto de gasolina para ir ao banheiro, o Vitor salta direto para a loja de conveniência e decide comer um cachorro quente magro e feio que parece feito de plástico. Quando olho pro lado vejo que o Gatão do Rock in Rio já está com umas latinhas de cerveja na mão. Me oferece e eu, no intuito de matar o calor, aceito. Voltamos para o carro e prosseguimos com a nossa jornada.

O Rio de Janeiro já está anoitecendo e vai abaixo o plano de chegar cedo na Cidade do Rock para analisar o evento ainda na luz do sol. Estamos empolgados e o Gatão (que passa a viagem inteira virado para trás conversando com a gente, ou praticamente falando sozinho sobre os acontecimentos dos dois primeiros dias) saca um cantil de whisky do bolso e nos oferece um gole. Como meu objetivo principal é estritamente profissional, e como sei que o whisky costuma atrapalhar meu trabalho (ou melhorá-lo à um nível sobrenatural), recuso. Então é aí que ele revela o plano. Na área VIP nós temos direito à tudo do bom e do melhor pelo preço de zero reais. Entre o bom e o melhor, há garrafas de whisky. Sua ideia é que pedíssemos doses de whisky, colocássemos dentro do cantil e levássemos para ele na pista. Pois é, embora trabalhe para o RiR, ele não pode entrar na área VIP e ter acesso às ofertas. Eu e Vitor olhamos um para o outro e dizemos “Ok, pode ser”, mas sem muita fé.

***

Depois de uma cruzada imensa, não só pela distância mas também pelo nível do engarrafamento, chegamos às 18h12 na Cidade do Rock. É o momento de nos dividirmos. O Gatão vai junto com o motorista pela entrada de funcionários e eu e o Vitor seguimos para a entrada do camarote VIP.

Atravessamos uma pista junto com toda a multidão ensandecida. Logo aparece um outro caminho indicando o nosso acesso. Apresentamos nossos cartões e seguimos. Como nos indicaram, seguimos na direção de uma estrutura parecida com um globo branco de luzes laranjas.

Passada a chatice de apresentar o ingresso e colocar as pulseiras no braço, chegamos ao salão principal da área VIP. Só aí então é que o calor dá lugar ao frio. Uma área de 4.900 metros quadrados, com a capacidade de caber 4.000 pessoas, está praticamente vazio. Chegamos cedo? Bares para todos os lados estampados com a marca da cerveja patrocinadora brilhando em nossos olhos. No centro, balcões montados para servir a comida. No espaço inteiro há sofás, bancos e poltronas incrivelmente brancos, como se tivessem acabados de serem pintados. Fora do salão principal tem uma varanda que é o melhor lugar para assistir aos shows. A varanda é coberta por uma grama artificial e também possui mais bancos e algumas mesas. A área VIP fica um andar mais alto do que a pista principal — O Chão, como ouvi chamarem por aqui. Ao contrário dos VIPs, o público da pista já está quase lotando o local.

Como não temos nada pra fazer, sentamos num sofá e 
observamos as pessoas que passam. A sensação é de 
estarmos numa base, numa nave de vidro, onde pode-
mos ver todos do lado de fora e eles não podem nos ver. 
Quantas celebridades existem no Brasil? Chegam a ser 
1% da população? Cada país tem as celebridades que merece.

Com o Vitor ao meu lado, vou até um dos bares para pegar nosso primeiro copo de cerveja. Não há nenhuma fila, sou imediatamente o próximo e o bartender me indica que tenho que encostar a pulseira num dispositivo eletrônico para computar o meu pedido. Peço dois chopes, e ele, com todo cuidado, nos serve dizendo “Se o chope não estiver bom eu troco”. A frase me faz pensar se o público do degrau abaixo é também servido com a mesma gentileza.

O Vitor me diz que ainda está com fome e se aproxima de um dos garçons perguntando o que estão servindo para comer. O garçom saca um papel do bolso e faz uma leitura de todas as coisas (que não consegui nem memorizar nem anotar no caderno onde escrevo tudo isso), logo depois diz que o jantar ainda não está servido, só depois do show do Jota Quest.

Como não temos nada pra fazer, sentamos num sofá e observamos as pessoas que passam. A sensação é de estarmos numa base, numa nave de vidro, onde podemos ver todos do lado de fora e eles não podem nos ver. Quantas celebridades existem no Brasil? Chegam a ser 1% da população? Cada país tem as celebridades que merece. É bom pensar nisso antes de ficar celebrando as celebridades. Até agora na área VIP não há nenhum VIP. Nós não somos VIPs, quero dizer, não somos famosos nem pagamos o valor alto do camarote. Essa auto-reflexão nos deixa desconfortáveis. É como se não devêssemos estar ali. À partir dessa conversa a gente meio que se sente como penetras num casamento. O que causa uma sensação de aversão ao lugar e de atração ao mesmo tempo.

Pegamos mais dois chopes. Um garçom se aproxima com a bandeja com croquetes de carne. Vitor vai matando os resquícios da fome. Começam a chegar uma profusão de loiras pintadas com seus machos malhados. Está fazendo muito frio aqui dentro então vou até a varanda, circulo para ver se encontro alguém conhecido, mas nada. Fora da área VIP parece existir outra vibração, milhares de pessoas para todos os lados, pulando com o show do Jota Quest que acabou de começar. Na hora em que vou jogar meu copo no lixo (o chope é servido numa tulipa de plástico) um funcionário da limpeza já está retirando o saco (praticamente vazio) da lixeira. Há uma certa mania de limpeza, tudo parece muito limpo, inclusive as lixeiras estão limpas. Na hora em que você pensa em se livrar de algo, antes mesmo do barulho do copo alcançar o fundo da lixeira, já tem alguém para catar aquilo pra você.

De repente levo um susto com um bando garotas adolescentes ou pré-adolescentes tirando fotos ao lado de uns rapazes que não aparentam serem tão mais velhos que elas, com cabelos muito bem despenteados, roupas muito bem rasgadas, sapatos muito bem desamarrados, um grupo de uns cinco garotos que eu nunca vi na vida, mas que devem ser de alguma espécie de boy band, pois parecem uma versão latino-americana do One Direction. As meninas estão excitadas e os garotos estão blasés, fazendo bico para os flashes. Decido imediatamente mergulhar num barril de chope.

Como bom entendedor, rascunho uma amizade com o bartender (devem ter uns 20 bartenders, mas vou sempre no mesmo). Mais croquete. Mais cerveja. Mais croquete. Mais cerveja.

O Vitor reaparece e pergunta se eu não acho uma boa descer e conhecer a pista. Digo que sim, mas antes passamos no banheiro. Parece um banheiro desses shoppings chiques do Rio, enorme, com espelhos limpos, várias cabines, a mesma lógica de limpeza funciona por aqui, e eu penso nos banheiros disponíveis para os não VIPs. Será que eles têm que enfrentar aquelas câmaras de mijo, cabine fedida à um misto de urina com flúor. Termino o que tenho que fazer e saímos do globo com a excitação de um cavalo solto no campo.

***

Estamos na frente do Palco Sunset assistindo o show do Ivan Lins com o George Benson. Encontramos uns amigos por aqui. O engraçado é que quase todos estão trabalhando no evento. Parece ser um ótimo trabalho pois todos se divertem e podem beber. O chope aqui embaixo está custando R$10,00. Não consigo entender o valor dessa cerveja.

Ivan Lins e Benson arrebentam no palco e a platéia delira com a qualidade técnica dos músicos que parecem se divertir como grandes amigos. Depois da canção ‘Novo tempo’, Lins reforça a leitura política da música dizendo “É muito bom vê-los aqui, se divertindo. Mas acabando o Rock in Rio vamos para os nossos deveres. As ruas também esperam por vocês”.

Logo do lado do Palco Sunset tem um quiosque de sorvete. O calor esta tão denso e abafado que decido comprar um picolé. Caminho alguns passos e percebo que a fila para o caixa contém mais ou menos umas 30 pessoas. Bom, para você que não me conhece, deixa eu lhe explicar uma coisa importante sobre mim: tenho uma certa fobia de engarrafamento, multidão e filas. Então imagine como estou. Portanto prefiro esquecer o gelado. Outra fila chama minha atenção. Muito maior do que 30 pessoas, a fila que dá direito a uma volta numa montanha russa (ou uma mini montanha russa) está pra perder de vista. Confesso que até tive vontade de dar um passeio — por puro prazer jornalístico —, mas desisti imeditamente.

Curioso, me aproximo de um stand de uma franquia de supermercados. Mais fila para participar da brincadeira proposta pela marca. Uma porção de instrumentos musicais estão posicionados de frente para uma câmera, então você e seus amigos se posicionam como uma banda, tiram uma foto e compartilham nas redes sociais. Adereços, perucas, figurinos de bandas estão disponíveis para quem quiser incrementar.

Dou a volta e entro em um stand de uma companhia aérea, aqui o objetivo é tirar uma foto com um iPad, publicar no facebook e entrar no sorteio para ganhar uma passagem de graça (para a Síria, espero).

No stand do lado acontece uma batalha de DJ Hero, que é tipo o jogo Guitar Hero, só que são duas pick ups de DJ no lugar das guitarras. Se você for um dos DJs vencedores, deve ganhar uma blusa ou algo assim.

Viro e como que não conseguindo me livrar da maldição dos stands eu caio em um outro de uma loja de roupas. Aqui o jogo é dançar como naqueles jogos kinectic, que não usam controle. O objetivo é dançar igual ao boneco em 3D que está dançando na televisão na sua frente. O jogo é para um ou dois jogadores por vez, mas uma mini multidão atrás tenta seguir os passos do personagem. Entre eles, um garoto se destaca. Está tão dedicado e comprometido em dançar igual ao boneco 3D, que está vidrado, suando como se tivesse vindo ao RiR justamente pra isso. O show é dele. Não pretendo voltar aqui, mas tenho a impressão de que se eu voltasse no final da noite, ele ainda estaria aqui.

Do lado desse tem um outro stand de uma universidade daqui do Rio. Pessoas sentadas em poltronas, algumas dormindo em sofás, um ambiente escuro, com alguma música estranha tocando, pessoas realmente largadas pelos cantos. Não consigo descobrir qual é a brincadeira desse stand, mas parece interessante, isso de dormir.

Em todos os stands os funcionários estimulam uma 
postura Felicidade Rock e Alegria Rock e Diversão 
Rock, como se tivessem sido coordenados para isso. 
Nunca antes na minha vida associei o Rock`n`Roll 
à felicidade, alegria e diversão.

Em todos os stands os funcionários estimulam uma postura Felicidade Rock e Alegria Rock e Diversão Rock, como se tivessem sido coordenados para isso. Nunca antes na minha vida associei o Rock`n`Roll à felicidade, alegria e diversão. Não que rockeiro não possa ser feliz, alegre nem se divertir. Só que soa estranho da forma como que é propagandeado, como um estilo de vida, um life-style, como eles gostam de dizer. Me sinto como uma criança ingênua quando um dos funcionários dos stands se vira pra mim e pergunta se quero jogar e curtir um rock. A ideia aqui no festival é vender a palavra Rock como uma marca de camiseta. Seja Rock. Compre Rock.

Passo por uma lanchonete e tenho a visão do caos. Fora a extensão da fila para se conseguir comprar alguma coisa e pegar o seu lanche, as mesas estão com pilhas e mais pilhas de sujeira, caixas de sanduíches, de pizza, copos de refrigerantes, tudo largado nas mesas e no chão. A lixeira transbordando lixo. Ninguém parece se importar muito com isso, obviamente, porque a fome deve estar gritando e tudo o que eles querem é sentar e comer. Procuro por funcionários de limpeza e não vejo nenhum. Sujeira Rock.

***

Volto para o gramado onde estão os meus amigos. Pergunto se eles não vão voltar ao trabalho e me respondem que este é o trabalho, ficar ali até serem chamados. Entre eles estão o Produtor Secreto e o Gatão do Rock in Rio. Falo com eles que nunca vi tanta gente trabalhando em um mesmo lugar. Talvez em um shopping center. Aqui temos funcionários para todas as coisas. Nem vou entrar em uma de listar os empregos gerados pelo RiR pois isso vai ser impossível. O Produtor Secreto me pergunta se gostei da área VIP. Digo que sim, que é muito bom comer e beber de graça, que o espaço é ótimo, confortável e tudo, amplo, o ar-condicionado funciona que é uma beleza, mas que aqui embaixo está mais animado e é onde faz sentido o festival, a verdadeira experiência é aqui. O Gatão pergunta se vamos voltar. Respondo que sim. Ele me puxa uns dois passos e me pede para encher o cantil de whisky dele. “Você pega lá e traz pra baixo e a gente fica curtindo aqui”. De início fico meio cabreiro de dar merda — é porque não se pode sair bebendo da área VIP, ano passado muitos fizeram isso e esse ano a fiscalização está mais pesada. De qualquer modo, pego o cantil, coloco no meu bolso e digo que vou tentar.

O Informante Secreto é um outro amigo que está trabalhando (e bebendo conosco). “Uma surpresa encontrar você aqui, ainda mais no dia do Justin Timberlake”. Respondo que também vim à trabalho, que estou fazendo uma matéria para o ORNITORRINCO, e mostro a caneta e o caderno que já está todo surrado. “Ah, então você tem que entrevistar os funcionários da lanchonete. Eles estão dormindo aqui há 4 dias, não voltam pra casa, dormem às 4h da manhã e acordam às 7h para tomar o café coletivo”. Dormem onde, perguntei. “Aqui na grama mesmo. Tomam banho no banheiro de deficientes. Estão revoltados com a situação. Parece tudo bonito mas na verdade é muito desorganizado. Só é organizado quando você vê pela televisão. Entrevista eles”. Enquanto ele falava fui anotando o mais rápido que podia quando se aproximou o Informante Secreto 2. “Você contou pra ele do esgoto? Cara, ontem estourou um cano da tubulação que suga a merda dos banheiros. O cano estourou e cuspiu merda pra tudo que é lado. Tá um cheiro horrível. Ali para aquele lado dali tá mais forte, e tem gente trabalhando bem do lado da lama de merda e inspirando aquele fedor”. Informante Secreto 1 diz “A gente estava pensando em filmar tudo isso. Tem um monte de confusão acontecendo, só que, é claro, fica tudo tapado, ninguém mostra”.

Somos interrompidos por um grupo de garotos do nosso lado que provavelmente estão embriagados pelo espírito da felicidade, da alegria e da diversão Rock, pois falam alto, estão eufóricos, apontam para os brinquedos gritando “Vamos lá na tirolesa!!”. Um outro diz “Eu não vim ver show nenhum, o negócio é pegar todos os brindes possíveis”, ele tem os braços cheios de pulseiras piscantes com a logo de um banco (contei umas 7 em cada braço). “Porra, levei três horas para descer na tirolesa, não volto lá não”.

***

Agora são 21h30 e estou deitado na grama artificial de frente para o Palco Sunset. Nesse palco não vai ter mais show hoje portanto a movimentação desse lado está bastante tranquila o que nos permite ficar deitados conversando. Estou com todos os amigos aqui. Produtor Secreto, Informante Secreto 1 e 2, Gatão do Rock in Rio e o Vitor Paiva. Não sei como que de repente surge o papo sobre garotas, e não sei quem repara que 95% das meninas estão usando o mesmo tipo de short jeans rasgado. Algumas outras usam bandanas na cabeça. Quase sempre com blusas de bandas como Rolling Stones, Sex Pistols, Pink Floyd, enfim, essas camisetas que se compram no centro da cidade, e todas as blusas, eu disse todas, estão customizadas para ficarem mais justo ao corpo. Comentamos algo sobre o Rock ter virado uma marca de consumo, inclusive algo que pode-se entender como atitude rock e pela possibilidade desses mesmos grupos que desfilam por aqui também desfilarem por outros festivais vestidos de outras coisas, encatadas pela atitude Forró, ou pelo molejo Samba, ou ainda pelo gingado Sertanejo Universitário. Ora, porque se estamos no Rock in Rio, o que está em alta é usar e abusar desse clima. O Gatão do RiR diz que trabalhar no evento gera algum tipo de sedução em algumas meninas, mas eu duvido. Diz que só porque está com um crachá, as garotas já olham pra ele com curiosidade, como se ele tivesse a passagem secreta para o camarim do Justin.

Levanto e pergunto se o Vitor não quer voltar pro camarote VIP. Então cruzamos o parque de volta pra nave de luxo.

***

Já são 22h55 e estamos jantando sentados em um dos sofás brancos imaculados no centro da área VIP. Agora está bem mais cheio e barulhento. Celebridades circulando de um lado para o outro, rindo o riso brilhante de celebridades, tirando fotos, dando entrevistas. Os jornalistas cadastrados no evento (que não é o nosso caso) são obrigados a usar um colete laranja com a palavra Imprensa estampada neles. A presença desses jornalistas no ambiente aumenta o número de funcionários do evento, pra onde quer que eu olhe. Algumas garotas estão distribuindo brindes de patrocinadores. Recebo um chaveiro e uma pulseira de uma loja de roupas. A vontade que tenho é de chegar para todos que estão trabalhando, pegar pelo braço e dizer “Pára! Tira esse colete! Tira esse uniforme! Vamos nos divertir! Vamos dançar, cantar, comer, beber, pára de trabalhar!”, tamanha é minha agonia de ver centenas de pessoas trabalhando “para mim”. No entanto, sou um panaca, e esse meu pensamento é aliviado por colheradas deliciosas de um salmão cru com alcaparras. O jantar não está maravilhoso, mas ele cai certeiro no meu estômago cheio de álcool, e vai dar mais resistência para a bebedeira.

O Vitor volta do banheiro dizendo que acabou de passar no meio da entrevista da Renata Frisson. Eu pergunto “Quem é Renata Frisson?” A Mulher Melão, ele responde. Por dois segundos parei pra pensar que tipo de pergunta eles devem fazer para ela. Vitor diz que ouviu ela dizendo “Que não quer mais saber de curtir os shows no meio do povo. Ela disse que agora é só glamour, que passou da fase de pobreza, de comer pizza no meio da multidão, sentada no chão. Disse que agora ela é chique”. Quase tenho um refluxo mas consigo não desperdiçar o salmão (e não manchar o sofá imaculado e santificado).

“Ah, então você tem que entrevistar os funcionários 
da lanchonete. Eles estão dormindo aqui há 4 dias, 
não voltam pra casa, dormem às 4h da manhã e 
acordam às 7h para tomar o café coletivo”.

Deixo o prato de lado e vou buscar mais um chope com meu amigo bartender, Jack. Imagino que seu nome seja Jack. Ou Roy. Ou Billy. Billy Boy. Pergunto o seu nome e ele responde Roberson. Olho para os lados e o salão está abarrotado de gente. A área VIP está lotada de garotos e garotas ricas. O Vitor se aproxima para mais uma rodada de chope e diz que acabou de falar com o Produtor Secreto e que ele lhe informou que existem quase 4.000 pessoas no camarote hoje, entre esses, 3.000 pagaram por tudo, e os outros, inclusive nós dois, estamos bebendo às custas de todos eles.

Qual o sentido da existência de espaços de luxo em mega eventos populares? O Brasil é um dos países onde a evidente diferença entre classes sociais é uma ferida aberta pro céu. E o fator separatista é a soma de dinheiro que gira em torno de si. Até entendo a vontade em se tribalizar, em se reunir em grupos, em preferir ficar com seus pares do que com a multidão. Como eu disse, fico agoniado em multidões e preferiria que tivesse um camarote para a minha turma. Entretanto a minha turma não é dividida em quanto cada um ganha em dinheiro. Essa é a primeira vez que venho ao RiR, e a primeira vez que venho a qualquer mega festival de música, porque sou dos que preferem um show menor, mais intimista — não estou me referindo estritamente ao meu gosto musical, quero dizer que prefiro um show do Sepultura para 50 pessoas ao invés de para 5.000. Por que sermos tratados de forma diferentes nos lugares? A forma como me serviram uma cerveja aqui em cima e de como me serviram lá embaixo é totalmente diferente. No camarote VIP a equipe de funcionários é mais educada e eles estão mais dispostos em dar o melhor serviço que podemos ter — não consigo contar quantas vezes ouvi garçons me desejando “Bom Festival”—, enquanto lá embaixo é ao contrário, mas a vantagem é estar compactuando com o sentimento de estar num encontro múltiplo e gigante de pessoas querendo se conectar. Aqui em cima ninguém quer se conectar com ninguém, estão todas conectadas com suas próprias imagens.

Fato é que aqui — por mais elegante e belo e decente —, aqui é menos divertido que lá embaixo.

O Gatão do Rock in Rio me liga perguntando se eu consegui encher o cantil de whisky. Falo com ele que vou encher agora e descer para a pista. Chamo o Vitor e combinamos de cada um pedir uma boa dose. Os bartenders nos desejam saúde, brindamos e tomamos uns goles. Depois pedimos mais duas doses. Vamos até o banheiro. Vitor me passa o seu copo cheio e eu entro em uma das cabines do banheiro. Tiro o cantil do bolso traseiro da minha calça e vou delizando o líquido amarelo ouro do meu copo para a garrafa metálica e sinto a garrafa esfriar. Levo poucos minutos para despejar os dois copos, colocar o cantil de volta no meu bolso e caminhar em direção à saída da área VIP.

Nesse tempo o Justin Timberlake entrou no palco causando incêndios na platéia. Está tudo da pesada. O som, a performance, o show, o astral da turma aqui embaixo. Eu, que não conheço nada do Justin, além dos hits, me animo com sua capacidade de entreter e com as pessoas ao meu lado se divertindo à beça. O Gatão está tentando imitar uns passos do Justin e chega em algumas meninas — sem sucesso —, o Vitor do meu lado, cansado e esgotado, quer ir embora. Chega, né, Vitor? Vamos nessa.

Falamos pro Gatão que estamos indo embora, perguntamos como que vai funcionar o esquema com o motorista. Ele disse que o Produtor Secreto dispensou o motorista e que era pra gente se virar. Tudo bem. Como que iremos sair desse lugar? As opções são 1) Voltar pra área VIP e descobrir como que faz para pegarmos a condução disponível para os VIPs voltarem pra casa; 2) Andar até a saída da Cidade do Rock, andar mais um bom pedaço de asfalto até chegar em um ponto de ônibus e pegar qualquer um que vá na direção de casa.

Decidimos pela opção 2 e sem pensar duas vezes saímos da Cidade do Rock, cambaleantes, cansados, bebendo o whisky do cantil sem medo da ressaca.

Pegamos o 332. Descemos num posto de gasolina, compramos uns refrigerantes e conversamos sobre quando vamos entregar os textos pro site. Me despeço do Vitor e aceno para um táxi.

Estou de volta em casa.

Chega de Rock por hoje, que agora eu vou ouvir um Beatles.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Publicado em 21/09/2013 por em Gabriel Pardal.
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