ORNITORRINCO

PARA TODOS OS MEUS AMIGOS, VIVOS E MORTOS, QUE VIRAM O MAR PELA JANELA

Ele via o mar pelas janelas, sentia o movimento ondulante da água e ficava vez ou outra mareado.

Todas as manhãs, depois do café da manhã, eu sentava no sofá da sala de convivência e esperava ele sair do quarto. Ele nunca tomava café da manhã conosco. Ele abria a porta do quarto, sentava ao meu lado no sofá e sorria, um riso curto, miúdo, tal qual era a sua pequeneza de menino quase homem, o rosto ainda amassado de quem havia demorado para dormir e por consequência demorado a acordar.

Se aproximar dele era quase como se aproximar de um gato, devagar e honestamente eu ia me achegando, curiosa por aquela juventude estranha de quem não quer muito papo e está quase sempre de ressaca. Ele sempre queria saber em que lugar estávamos, quando iriamos aportar e se eu sabia o nome do comandante do dia. Das poucas vezes que o vi rindo de fato, o tema era sempre o mesmo, o uniforme esquisito da tripulação.

O Reynaldo, meu amigo, vez ou outra chorava olhando para ele. Reynaldo era homem-pai e reconhecia no rosto de Marcos o filho que agora vivia distante dos olhos dele, ou outro que nascerá sem o seu reconhecimento e que existe nele de um jeito desconhecido e profundamente doloroso.

Eu não via o mar pelas janelas, as águas que escorriam do meu rosto logo que cheguei, pouco a pouco se tornaram ouvidos e vontade de abraço, braços longos que submergiam dos fundos mais sensíveis e salgados de mim. Eu me secava no tecido das histórias dos meus colegas de andar.

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Eu me auto-internei em um hospital psiquiátrico na
cidade do Rio de Janeiro, em Dezembro de 2012 onde 
passei uma semana, inclusive o Natal. Deixei o hospital 
no último dia do ano de 2012. Deixei, em 2012 também, 
um monte de outras coisas. 
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A Ana, que carregava o fim do meu nome no dela, trouxe para a sua cabine uma porção de gente junto; Carlos o professor de direito, Luisa a pianista e Leo um garoto que entendia de astros. Ana queria encontrar um amor, viajava em busca do tal que seria capaz de amar as multidões que residem em uma mesma mulher. Ela era talentosa para arte, fazia objetos-obras enigmáticos e escolhia qual de nós os poderia ver fora do embrulho. Na verdade eu fui a única (posso me gabar) que recebeu autorização para olhar. No embrulho da obra que abri havia os seguintes dizeres: “Só é permitido a abertura pelas mãos de quem tem o coração puro”, nunca achei que tivesse tal coração, mas Ana me garantiu que sim e naquele dia eu chorei, um choro diferente daquele que me levara a arrumar as malas e estar ali.

Voltando da área de lazer com o Reynaldo, encontramos Marcos em cima dos móveis, desesperado, ele gritava para que eu e Reynaldo subíssemos também, a tripulação era má e estávamos sendo conduzidos para algum lugar muito ruim, ele garantira. Enquanto Marcos berrava, os tripulantes o pegaram com força e aplicaram nele uma injeção que o fez amolecer em segundos. Ele olhou para mim e para o Reynaldo, de um jeito fundo, mais fundo que qual quer oceano e perguntou com o resto de força que tinha “Até quando não existimos”? e foi levado para o seu quarto.

Eu me decidi então que no dia seguinte, quando Marcos acordasse com a sua ressaca e juventude, eu iria lhe devolver toda a sua honestidade e contrariar seus pais, contando finalmente para ele a onde estávamos e para onde pretendiam nós levar, embora eu desconfiasse que Marcos já soubesse.

Me sentei no sofá, Reynaldo me deixou sozinha, não queria estar lá quando ele descobrisse a verdade. Meu coração estava acelerado, meu corpo todo tremia, mas eu estava decidida.

Ele saiu do seu quarto, sentou no sofá e perguntou o meu nome: “Tayana” eu disse, ele riu e respondeu na hora “Que nome esquisito, né?” concordei, era esquisito mesmo ter o meu nome e ele ser esse, esse que nem fui eu que escolhi, e é mesmo muito esquisito eu ter mudado de cara várias vezes e continuar a vestir o mesmo nome, “Tayana” essa roupa velha, herança da menina bronzeada e do surf que um dia existiu.

Dessa vez fui eu que perguntei onde estávamos e ele disse que acreditava estar em algum lugar próximo a Campos dos Goytacazes, o que não deixava de ser, de certa maneira, “Estamos em Botafogo”’ eu disse, ele quis saber se na praia e após um longo suspiro respondi “Não, estamos em um hospital”. Ele ficou nervoso por alguns segundos, olhou para o meu antebraço direito, enfaixado, e eu, ao notar o olhar dele, tirei os esparadrapos e desenfaixei, lhe deixando nu, à vista pela primeira vez das minhas marcas ainda não cicatrizadas, “Você tentou se matar, Thais?”.
“Não, eu só quis me machucar… Eu tava triste”.
“E eu? Eu estou com alguma doença grave? Porque meu pai não vem me ver?”.
“Ele vem todos os dias”.
“Eu estou com Alzheimer? Por isso eu não lembro de nada?”.
“Não, você está sem memória por causa dos remédios”.
“Remédios para que?”.
“Você teve um surto psicótico”.
“Ai meu Deus, agora lascou, eu fiquei doido, foi? Agora lascou, preciso avisar a minha namorada. Não, não posso avisar a ela. Isso aqui é um hospício? Tá todo mundo doido? “.
“Acho que sim, acho que tá todo mundo doido”.
“E agora Taína, agora que eu tô doido, eu era o capitão da plataforma, o que eu vou ser agora?”.
“Acho que de agora em diante, agora que estamos loucos, eu, você e todo mundo, agora, acho que podemos ser qual quer coisa, Marcos”.
“Ai meu deus, o que eu vou ser agora? Como é mesmo seu nome?”.

Marcos podia ver mar pela janela, onde eu só conseguia ver grades, Marcos me conseguia ver Taína, Thaís, menina, moça, Talita e até conseguia esquecer meu nome, mesmo se eu lhe falasse de cinco e cinco minutos. Marcos sentia o movimento da terra que meus labirintos desatentos não percebiam. Marcos podia ser qual quer coisa, mas ele só queria ser Marcos.

Eu me auto-internei em um hospital psiquiátrico na cidade do Rio de Janeiro, em Dezembro de 2012 onde passei uma semana, inclusive o Natal. Deixei o hospital no último dia do ano de 2012. Deixei, em 2012 também, um monte de outras coisas.

Para ser aceito em um hospital psiquiátrico você precisa ser revistado, ficar pelado e de quatro para que a enfermeira cheque se você não está carregando nada em nenhuma parte do seu corpo. Você não pode usar cadarço, nem celular, nem laço, nem faca, nem drogas, nem sonhos. Em um hospital psiquiátrico você fica preso, como fica preso o presidiário e você é tratado como uma criança bem boba e incapaz de entender, em um hospital psiquiátrico você não pode se apaixonar, nem abraçar o amigo que chora, nem discutir o seu diagnostico com a vossa autoridade o psiquiatra, em um hospital psiquiátrico você está louco e só está louco, mas não está só.

Tayana Dantas é atriz, dramaturga, poeta e letrista.

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Publicado em 18/09/2013 por em Tayana Dantas.
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